Dimensionamento, Sobrecarga, Ambiência e Humanização no Trabalho em Saúde

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Existe toda uma complexa articulação multidisciplinar envolvida no planejamento dos serviços de saúde. Desde o projeto arquitetônico, de engenharia e cálculo do perfil epidemiológico, que levam em consideração o teto mínimo e máximo da população usuária do serviço. Considerando a área geográfica de abrangência do serviço, a sazonalidade climática, bem como o perfil sócio-econômico dos usuários do serviço.

Este trabalho tem relação direta com a eficácia dos procedimentos terapêuticos realizados nestes equipamentos de saúde. Há um dimensionamento adequado da capacidade de atendimento em relação à equipe multidisciplinar que irá atuar no local, da infra-estrutura necessária e uma previsão dos picos máximos e mínimos de fluxo de atendimento.

Só assim a carga de trabalho poderá ser medida nos parâmetros mínimos de segurança para a capacidade humana de executar as atividades terapêuticas. A epidemiologia é a ciência do conhecimento humano que embasa as necessidades de infra-estrutura que determinarão o dimensionamento e a carga de trabalho eficiente para um dado serviço de saúde.

Todas as profissões envolvidas em um projeto desse gênero têm conselhos, códigos de ética, de deontologia e saber suficiente para se posicionarem cientificamente e exigirem a correspondência entre a estrutura e a capacidade de atendimento em termos de infra-estrutura e dos limites operacionais de um ser humano.

Toda a relação entre o desenvolvimento de tecnologias de atenção e sua eficácia, após a aprovação de seu uso pelas populações usuárias, depende de que as condições testadas em laboratório sejam similares às condições práticas de uso da tecnologia em campo.

Pois as emergências dos hospitais são o campo de uso das tecnologias de cuidado desenvolvidas em laboratório e colocadas em prática no ambiente terapêutico de um hospital ou pronto atendimento. Elas são projetadas para uma capacidade de atendimento em torno de 50 pacientes e funcionam com uma superlotação de rotina acima de 100 internos, até os absurdos 150 pacientes verificados em situações que não são sequer de emergência ou alerta epidemiológico.

Estes profissionais e instituições que atuam na projeção da capacidade instalada para atendimento em urgência e emergência custam muito caro ao contribuinte. Porém na prática é como se seu cabedal de conhecimento fosse banal e desnecessário. Na prática vivemos no mundo de fantasia.

Um antibiótico de última geração é testado em laboratório na fase de pesquisa e desenvolvimento em condições ideais de controle e administração. Os grupos de controle são monitorados. Da pesquisa rigorosa e sistemática surgem os resultados que após serem atestados (pela ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária) entram em uso nos serviços de saúde.

Agora é plausível que nas condições em que estes medicamentos e procedimentos são administrados à população nas emergências não sejam àquelas que a ciência demonstrou eficazes ao longo de anos de pesquisa.

Alguém acredita que um trabalhador (não raro tendo de dois a três vínculos de trabalho, sejam médicos, enfermeiros, técnicos ou dos setores de apoio) tenha condições de prescrever e administrar tratamentos de alta complexidade, dentro dos parâmetros testados cientificamente em laboratório? Pode uma terapêutica (prevista para ser executada por um técnico de enfermagem por paciente de alto risco) ser feita por um mesmo técnico cuidando de quatro pacientes? Alguém embarcaria em um vôo em que a sobrecarga de trabalho da tripulação fosse igual a dos trabalhadores da saúde?

Uma medicação que deve ser administrada de oito em oito horas ou de quatro em quatro horas pode ser administrada por uma equipe multidisciplinar planejada para atender a 50 leitos e que está atendendo a 160 leitos?

Pode ser que sim. Mas então o trabalho dos conselhos profissionais, da vigilância sanitária, dos pesquisadores, das instituições farmacêuticas, dos corpos clínicos destes hospitais, possui uma margem de eficácia muito, escandalosamente, elástica. A julgar pelo silêncio de todas estas instituições, em relação aos fatos noticiados quase que diariamente na imprensa, seu trabalho seria desnecessário e o custo que a sociedade tem com elas injustificado.

Se não for assim é urgente tentarmos entender o surgimento de super bactérias nos ambientes hospitalares como efeitos, em parte, talvez em grande parte, da superlotação e aplicação inadequada das antibioticoterapias em ambientes com sobrecarga de trabalho além do limite de operacionalidade possível para seres humanos.

Os técnicos e especialistas desconfiam do uso caseiro que a população faz dos antibióticos orais. Para comprar antibióticos em farmácia agora é exigida a apresentação e retenção da receita médica. Isto foi decidido desde que a presença de superbactérias, imunes a todos os antibióticos disponíveis no mundo, foi detectada em pacientes internados em unidades hospitalares. Nos círculos de infectologistas e biólogos já se levantou a possibilidade de estarmos vivendo o final da era dos antibióticos

Ora, não seria de se suspeitar que o ambiente hospitalar, devido ao modelo de organização e gestão dos processos de trabalho, possa ter uma parcela de relação com as mutações genéticas que estas bactérias estão sofrendo. Especialmente por que os locais de diagnóstico são justamente os hospitais públicos que funcionam em regime de superlotação, com excesso de horas extras e com equipes trabalhando além do limite recomendado para manter a saúde física e mental?

E o que pensar quando consideramos que tanto médicos, como os demais trabalhadores da saúde que atendem a SUS, também atendem ao sistema de seguros privados de saúde? Ninguém está a salvo. Os vetores circulam do hospital público para o centro clínico dos convênios privados.

Isto para ficarmos em um único exemplo, o do falseamento do resultado do uso de antibióticos. Podemos estar diante de um imenso faz de conta. Não há dados que atestem a segurança e há indícios de inúmeros fatores de risco no ambiente de atenção em saúde. Sabemos que ele funciona com um variável grau de inadequação da dimensão da infra-estrutura e da carga de trabalho. Algo está errado, muito errado. O sistema consome cerca de 70 bilhões de reais ao ano. A receita de impostos da união está em cerca de um trilhão e oitocentos bilhões de reais ao ano.

Os recursos investidos não estão de acordo com a importância que a sociedade reivindica para a área da saúde. Mas mesmo dentro desses parcos valores investidos a segurança da população parece estar em segundo plano. Há poucas carreiras bem remuneradas no sistema de saúde pública brasileiro. Há fornecedores operando com lucro nesse caos. Até onde vai nossa capacidade de fazer de conta? De perpetuar o auto-engano?