Acolhimento de Risco

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Eu sou enfermeira da UBS U.J.S, que faz acolhimento desde o dia 2 de janeiro, como foi proposto pela nova gestão. A UBS cobre uma região central da cidade que inteira mais ou menos 40 mil pessoas. Para isto dispõe de uma enfermeira (eu), três clínicos, dois pediatras, um Gineco-Obstetr, cinco auxiliares de enfermagem e dois funcionários administrativos. Os médicos todos fazem 20 horas e 12 atendimentos por período, mais 04 encaixes (sendo que o “período” deles é de 02 horas). Estes dias aconteceu um fato que me deixou sem dormir por vários dias e ainda me faz perguntar afinal o que eu estou fazendo ali? Logo pela manhã a auxiliar que fica no acolhimento me entregou vinte pastas de crianças para eu resolver o que fazer, já que só tínhamos seis consultas de pediatria (dois agendados faltaram e só estávamos com um dos pediatras). Os vinte pais das vinte crianças achavam que elas precisavam de consultas médicas. Se eu acaso conseguisse que algum médico visse uma consulta além do limite, eu teria que desagendar uma consulta para o dia seguinte, para compensar. Ou seja, no dia seguinte ele atenderia 15. Portanto, eu “tinha” que “dar um jeito em” 14…Comecei olhando pelo endereço aquelas que eram de bairros atendidos por outras UBS ou PSF. Eram 06. Perguntei a cada um dos pais das crianças se, caso conseguisse atendimento nestas unidades próximas, eles concordariam em ser atendidos lá. Telefonei e Resolvi. Faltavam 14. Comecei a rever, forçando a barra, quais eram problemas agudos e quais “poderiam” esperar. Negociei 04 agendamentos para o mês, com cara feia e sabendo que iriam no PS antes. Sobravam 10. Muitos tendo como queixa a febre,confirmada com medida na unidade. No nosso critério este é um motivo claro para uma avaliação do médico. Decidi medir a temperatura novamente e quatro crianças não estavam mais com febre. Pronto consegui!!!. No entanto, uma delas estava com febre muito alta (enquanto eu labutava a temperatura subiu). Pediria à doutora que a encaixasse na próxima consulta. Perguntei ao pai, achando a criança muito abatida: “O sr. deu algum remédio para a febre?” Ele respondeu: “não”. Eu perguntei: “O sr não tinha remédio em casa”. Ele respondeu: “eu tinha, mas se eu desse o remédio a senhora não passaria ele com o médico..” Eu fiquei muda. Se ele tivesse puxado um revolver e apontado para mim, não me causaria tanto impacto. Calada, segui atrás do pai e da criança em direção ao consultório. Uns metros antes da sala, a criança começa a convulsionar. O pai gira nos calcanhares e joga a criança nos meus braços, desesperado. Eu entro correndo com a criança no colo no consultório da médica e coloco ela na maca. Ela da cadeira, em direção mim. Antes que ela perguntasse eu disse: “Convulsão Febril, tava na fila, do encaixe”. A médica grita:

(por um instante fico na dúvida se era para mim ou para qualquer na unidade)

–  "OXIGÊNIO, RÁPIDO.”

–  “NÃO TEM”

–  "DIAZEPÍNICO, E.V.”.

–  “NÃO TEM”

Ficamos do lado da criança esperando passar convulsão. A médica se perguntando porque a criança não foi ao PS e amaldiçoando o acolhimento. Enquanto eu oscilava entre rezar furiosamente e me esforçar para não chorar. Depois só pensava em todas as crianças que eu havia mandado embora. O que que eu estou fazendo ali?

(esta é uma obra de ficção, e qualquer semelhança com a vida real é uma tragédia)