PRECE AO VENTO: relato de uma visita na ESF

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 Mais um dia e Florbela não sabe o que fazer para alimentar as “oito bocas”. Três netos na escola, os outros no quintal a soltar uma pipa feita com pedaços de plástico; o marido na rua tentando o pão de cada dia, e ela, aos 62 anos, reza para que chegue o dia de poder contar com a aposentadoria. A filha arrumou uma faxina: promessa de uma refeição digna no final do dia. O filho mais novo saiu mais uma vez para o bar. O varal exibe um vestido florido e alguns calções dos netos que foram lavados naquela manhã. Pega um pano para espantar a poeira vinda da rua não pavimentada. Ao lado do aparelho de som, depara-se com a fotografia da filha mais velha que não vê há 14 longos anos. Limpa o porta-retratos vigorosamente como se assim a imagem pudesse se tornar real. Chora de saudade, de medo de nunca mais voltar a vê-la. Um bonito pano pintado à mão protege o aparelho de som da poeira. Na mesinha, entre os inúmeros CDs de Roberto Carlos e Zezé de Camargo e Luciano, escolhe um de “serestas”, do “seu tempo”, e coloca para tocar delicadamente. É hora de acender o fogão à lenha. Com sorte, a qualquer momento, o marido chega com alguma coisa pra botar no fogo. O ambiente é tomado pela música e pela voz intensa de Florbela que se faz ecoar nos arredores da casa e na vizinhança. Este é o “seu” momento. Momento em que seu corpo, cansado do trabalho monótono e tomado pelas incertezas, entrega-se às vozes que povoam a alma transcendendo, por alguns instantes, as dificuldades. Os sentimentos aprisionados pelo cotidiano vão deslizando sobre as letras da canção compondo uma música própria. Em meio à fumaça do fogão à lenha, os versos se diluem e Florbela canta a sua prece : “vento que assobia no telhado, chamando para a lua espiar, vento que na beira lá da praia escutava o meu amor a cantar”…

Eu sigo o meu trajeto a passos lentos… Chego à unidade de saúde e ponho de lado o prontuário. Ainda com a melodia na cabeça, prefiro registrar o que sinto.