ADMIRÁVEL HOSPITAL NOVO

9 votos




O tédio hospitalar é insuportável. Entre odores e idas e vindas de gente esquisita de branco, alguns até de máscara, fico tendo a impressão de estar num filme tipo “Arquivo X” e ter sido abduzido por uma raça estranha de alienígenas que retornam assiduamente para recolher minhas preciosas secreções. Em meio a estas divagações e cansado de insistir em comer chocolates escondidos da enfermeira, tive uma visão quase religiosa: eu vi o hospital do futuro!

Depois de cinco décadas perdidas num conflito sem sentido com os utópicos sanitaristas, a perspectiva comercial da saúde finalmente triunfou acabando com o SUS. E eu agora, às portas dos meus 80 anos, desfrutava tranquilamente das acomodações daquele belo hospital…e que hospital!

Mais parecia um cruzeiro pelo caribe. Junto a cada cama um sofisticado terminal de computador abria as portas do mundo criando possibilidades de acessar toda  forma de entretenimento. Além disso, tinha a minha disposição todas as informações do hospital podendo ver através das câmeras como minha refeição estava sendo preparada podendo escolher entre nada mais nada menos de 35 opções permitidas pela dieta.

Ainda podia ver no menu do terminal as dependências externas do edifício, temperatura, cotações da bolsa de valores, 5.432 opções de canais de vídeo com determinadas restrições a vídeos eróticos devido ao meu delicado estado cardíaco, afinal, é sempre sábio seguir o conselho do seu médico.

Na ausência de imagens eróticas, estavam sendo transmitidos 492 cultos religiosos ao vivo contemplando nossa diversidade comercial, digo, espiritual. No canto superior esquerdo da tela, um ícone piscava registrando a lista de pessoas que desejavam me visitar bastando que selecionasse quem eu bem entendesse para conversar comigo a partir da webcam de altíssima resolução. Estava finalmente resgatada a autonomia do paciente.

Que maravilha poder acessar os 989.114 emails recebidos naquele dia. Munido do meu cartão de crédito eu ainda podia requisitar passeios de realidade virtual desde que eles não fossem causar-me muita emoção. Naquele dia estava tendo uma promoção com um tema  sobre a exploração da extinta floresta amazônica.

Podendo andar um pouquinho, eu levava meu notebook por todos os corredores, pois o hospital disponibilizava redes sem fio para que minha conexão permanecesse inalterada. Bastava só pagar mais alguns elétrons reais pelo serviço, verdadeira bagatela. Aos pés da cama um prontuário digital só podia ser acessado pelo médico munido de sua senha pessoal.

Naturalmente  eu poderia comprar outros serviços e quando saísse pelo corredores bastaria novamente usar o cartão, aliás, ele poderia ser usado para qualquer coisa até uma atenção mais prestativa da enfermeira ou medicamentos com menores efeitos colaterais. Pelo valor mais alto, o médico estaria na minha cabeceira em menos de um minuto ou  teria meu dinheiro de volta!

Logo quando cheguei o hospital disponibilizou sua carteira de produtos. Optei por tudo de melhor que poderia ter como lençóis trocados a cada 4 horas, banho quente em banheira de hidromassagem com sais importados da Tailândia, frigobar nanotecnológico no quarto, televisor de 80 polegadas e ar condicionado com aroma campestre da minha predileção, isso sem contar o acesso direto a 45.342 jornais diários em 678 línguas, todas com tradução direta. Nada como ser um homem bem informado!

De repente tudo escureceu. Quando percebo estou do lado de fora olhando aquele hospital como se fosse uma catedral gótica. Vejo-me sentando a beira da rua sem nada entender. Tento me levantar, mas sinto as pernas sem tônus algum. É então que percebo um papel amassado no bolso do pijama com a seguinte mensagem: “Sua prestadora de crédito informa que seu limite foi alcançado e que só será restabelecido quando do pagamento da fatura eletrônica. Caso esteja vivo até lá, teremos o enorme prazer em continuar a servi-lo. Entretanto, caso ocorra seu óbito, desde já tranquilize sua família pois o Senhor  tem ainda a validade do seguro funerário adquirido na entrada deste estabelecimento. BOA SAÚDE!”

Respirei tranqüilo, afinal, caso fosse necessário, poderia morrer em paz!

 

 

 

ERASMO RUIZ