A Face dos Mortos: Bombas e Bombas

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Antes de mais nada, um aviso! Não se  apropriem deste texto para fazer apologia da barbárie. É inaceitável que alguém coloque uma bomba no passeio público para matar e mutilar pessoas indefesas. Mas existe a outra face da moeda. É também inaceitável que um Estado se utilize de sua máquina de guerra para matar indiscriminadamente e dê o nome  disso de “perdas colaterais”. A isso intitula-se "terrorismo de Estado".

Feita esta ressalva, quero chamar a atenção de todos para o recente evento acontecido em  Boston, nos Estados Unidos da América. Dois artefatos explosivos foram detonados na linha de chegada de uma famosa maratona. Outros dois foram desativados. O resultado desse evento foi a morte de 3 pessoas e mais de 170 feridos, muitos em estado grave com sequelas físicas e mentais para toda a vida.

A mídia ofereceu destaque amplo sobre o corrido. Nos portais da internet e na televisão fomos expostos aos vídeos das explosões. E, algo que parece passar desapercebido, os mortos do atentado são portadores de nome e rostos, entre eles, Martin Richard, um garoto de  8 anos de idade. Impossível não se emocionar. Aparece uma mistura de  ódio junto a busca de solidariedade com os familiares das vítimas.

Mais recentemente fomos expostos à caçada dos terroristas. Cenas de “bang-bang” onde agora nos remetem ao heroísmo de um policial morto  no confronto. Na verdade, as vítimas desse ato hediondo são quatro e não três.

Quero agora pedir-lhes que saiam das bem urbanizadas ruas de Boston. Vamos  para o Afeganistão.  Lá existe uma guerra latente, talvez desde a época em que os macedônios quiseram conquistar a Índia esbarrando no próprio esgotamento e numa muralha de centenas de elefantes, isso a mais ou menos 2.300 anos. Mais recentemente, na conjuntura pós 11 de setembro, o Afeganistão tornou-se um objetivo estratégico a ser contido e dominado pelas forças norte-americanas. Nem uma coisa nem outra aconteceu.

Pois bem. Muitos civis afegãos tem morrido recorrentemente em bombardeios. Parece que as forças militares da OTAN tem predileção especial por bombardear festas de casamento, confundidos com comboios  de suprimentos para os guerrilheiros talibãs. Não lhe parece estranho caro leitor que em nossas casas nunca tenhamos sido expostos às fotografia desses mortos?

Eles nunca aparecem de fato.  Na verdade, somos informados pelas cifras, pelos números lidos diligentemente por locutores de televisão ou colocados de forma descritiva nos noticiários escritos. Esses números, quase sempre, nos são passados sem emoção. E ainda nos subsidiam com alertas de que as forças da OTAN estão investigando o que de fato aconteceu.  Assim, seguimos normalmente nossas vidas meio que embebidos numa solução soporífera que nos anestesia do Afeganistão junto a uma superdose de Ritalinajornalística que foca nossa mente nos tristes fatos de Boston. A conclusão parece ser a seguinte. Da próxima vez que bombardearem o Afeganistão, a perda inútil de vidas inocentes estará justificada pela sorridente foto do garotinho morto em Boston, afinal, nós o “conhecemos”, nós “sabemos” sobre os seus sonhos destruídos pelas bombas, nós presenciamos as lágrimas derramadas por ele. Parte de nós também verteu lágrimas.

Nesse momento dezenas de prisioneiros apodrecem na prisão de Guantânamo no pedacinho de Cuba que é ocupado pelas forças militares dos Estados Unidos. Sem provas que justifiquem seu encarceramento,  estão fazendo greve de fome para serem libertados, seja pela ação do Estado, seja pela morte. Nós pouco sabemos de seus rostos. O que sabemos é que o terrorista islâmico é um animal perigoso. Ele está pronto para matar qualquer um, adora bombas, é frio e calculista. Meio que no “automático” a maioria cria estereótipos que transformam todos os muçulmanos e sua religião em máquina de produção de ódio e violência. Lembremos mais uma vez que os mortos e feridos de Boston tem nome e rosto. Quem morre chacinado no subúrbio de Cabul é uma cifra.

Agora um último olhar bem ao gosto de quem aprecia pesquisas. Recentemente foi publicado um estudo pelo “Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime”, que é muito interessante (vide figura abaixo). Trata-se de um comparativo mundial das taxas de homicídio. Um olhar despretencioso pelo mapa notará que os países com menor taxa de homicídio espalham-se pela Europa Ocidental e Ásia. É notável perceber que apesar de muitos países islâmicos terem baixo nível de Índice de desenvolvimento Humano, ainda assim, em sua expressiva maioria, possuem baixas taxas de homicídio. Um lembrete de que raciocínios mecânicos que estabelecem relações de causa e efeito entre condições de pauperização social e violência precisam ser melhor qualificados. Da mesma forma, temos que olhar desconfiadamente para as imagens da mídia. A julgar pelos números da pesquisa, deve haver algo na mensagem do islamismo que vai muito  além de “guerra santa” ou  “exploda-se no ponto de ônibus”.

 

 

Não se pode aceitar a morte de inocentes nas ruas de Boston, no Afeganistão ou em qualquer lugar do mundo. Agora mesmo temos multidões de jovens no Brasil morrendo no fogo cruzado entre a  ausência de políticas públicas de inclusão social e o crime organizado. Por trás dos números e cifras, existem pessoas e sonhos sendo destruídos. Que tal o exercício de tentar oferecer rosto e história também para estes mortos? As crianças chacinadas em comunidades rurais do Afeganistão tem nome e face. Nossos jovens destruídos pela ausência das políticas públicas de bem estar e segurança também.

Mortos no Atentado de Boston