Como contar o que vivi na IV Mostra?

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"Como você conta o que você faz… como você conta o que você faz?" Com a melodia ecoando na cabeça, retornamos para o nosso cotidiano, mas os efeitos da Mostra, assim como a melodia, ainda podem ser sentidos e penso que perdurarão por muito tempo ainda.

Contágio, encontro, compartilhamento  são palavras que parecem ser unanimamente utilizadas para caracterizar a grandiosidade do evento. Grandiosidade que se refere não apenas ao número de participantes, mas, sobretudo, aos modos como a Atenção Básica foi desvelada. No dizer que estava na boca de todos, “AMOSTRADA!”

Na enorme fila para o labirinto de sensações, perguntei a alguém que estava saindo se  poderia me dizer o que “rolava” ali dentro. A resposta foi rápida: “Só entrando; não dá para contar.”

Lembrei-me de imediato de uma passagem de um texto de Larrosa em que ele fala sobre o saber da experiência: não aquela que passa, toca ou acontece, mas experiência como aquilo que NOS passa, NOS toca, NOS acontece.
Como falar do que nos toca? Como falar daquilo que  vai além das técnicas e não cabe em prontuários e protocolos?

Ali, de olhos postos sobre o que não era visto, fazeres de pessoas diversas dos mais diversos lugares desse brasilzão ganharam importância e nos afetaram arrastando-nos como nos cortejos.

Sou eu maculelê sou eu… somos coco, samba, ciranda, maculelê , xote. E quantos novos ritmos criamos! Não à toa, na ciranda de experiências do mais médicos, um cubano declarou-se paraibano… 

Ao mostrar a potência do fazer junto e das forças criativas, a IV Mostra transformou-nos a todos em CURADORES: vivenciando encontro entre mundos e investindo na intensidade da arte do existir. No reconhecimento do outro como legítimo, mostrou-nos um campo de singularidades e multiplicidades; mostrou-nos que cada fazer não é qualquer fazer.

Como expressar o quanto me tocou ver o trabalho da USF Felipe camarão "Meninas que vi crescer" ser premiado? Como descrever o que senti ao ver meu amigo Djairo Alves (trupe da saúde) com olhos marejados carregando o seu troféu? Como contar sobre a roda improvisada com o secretário municipal de saúde de Natal e a turma do RN no chão em frente ao auditório?

Caminhos feitos de cuidados. “Cuidar do outro é cuidar de mim…cuidar do outro faz bem..” Ao som da voz de Ray Lima, mentes e corações no compasso de pandeiros e tambores na Tenda Paulo Freire, nos pontos, nos dedos, nas cirandas e pelos corredores.  Corredores e corredores de cuidado/arte juntando-se às comoventes fotos espalhadas de Radilson.

Entre prosas,cirandas e pontos, no ciberespasus ,  a alegria de rever meus queridos da redehumanizasus. No Ciberespasus, as inúmeras possibilidades: esticar os encontros, encompridar os efeitos da Mostra, compartilhar o estar no mundo. E aí cito  a querida Iza acenando que é preciso “tomar o pulso da Mostra:A RHS nos povoa e nos faz resistir juntos!" http://www.redehumanizasus.net/81555-tomar-o-pulso-da-mostra-cronica-da-vida-cotidiana-na-rhs

Como contar o que senti? A emoção de rever o filme Edifício master, poder fazer conexões e escutar Fuganti precederam o que viria acontecer na Tenda do Conto…Relatos do vivido  conectando-se ao presente e a um porvir. 
Fonoaudióloga, arte-educadora, psicólogas, ACS, técnicas de enfermagem, dentistas, enfermeiras, gestores, juntaram-se feito retalhos coloridos no encontro da Tenda do Conto: RJ, RS, SC, AM, RN,SP, PE, MA, MG, CE, SC…
Os objetos foram ressignificados  pelas histórias. Narrativas que foram e retornaram mais vivas. Escuta do outro: aquele que é também o que “sou e o que vai além de mim.” Histórias do CAPS, lembranças de alguém que se foi, de como era e do que se é, poemas, vozes emocionadas: "aqui tem a vida de muita gente"; "vim para entender e percebi que a tenda do conto é para sentir"; "a música me trouxe para dentro";  estou me sentindo acolhida no colo"; "vou levar a Tenda do Conto comigo".

Agora diante do computador, recebo fotos e mensagens carinhosas dos que conheci na Mostra e surprendo-me com imagens do evento na página da Comunidade de práticas, na RHS, em blogs e em outras redes. Vejam o que encontro: um vídeo da equipe da Tenda do conto que não havia visto antes!

Enfim, ouso dizer que a IV Mostra muda também o curso da história. Ou alguém duvida que  o encontro marcou “um antes e um depois” nos modos de  fazer eventos na saúde?
Contagiada pelas tantas Inspirações que nos arrebatam penso que ali na Mostra se reafirmou o SUS;  ali foi dito dos mais diferentes modos que dele não desistimos. E que “Tudo são luzes e a gente se acende é nos outros” (Mia Couto)