A ‘desmouralização’ do Brasil

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"A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos que apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une." (Milton Santos)

 

Já somos mais de 200 milhões de brasileiros, segundo dados do IBGE.

No grupo que lidera as melhores estatísticas socioeconômicas, o homem branco.

Na parte mais baixa, a mulher negra.

Muitos estudiosos e ativistas da questão racial no Brasil têm tipificado essa realidade como um caso de ‘racismo patriarcal’.

Gostaria neste texto não apenas de endossar o conceito, mas de poder levá-lo um pouco mais longe no seu enquadramento histórico, antes mesmo do capítulo relacionado às tenebrosas viagens transatlânticas dos navios negreiros. 
 
Assim vejamos.

Foram cerca de 800 anos (século VIII ao XV) de ocupação árabe da Península Ibérica: a civilização mourisca.

Muito mais do que os cinco séculos que, aproximadamente, temos de ‘existência’.

Mas quem foram exatamente os mouros?

Para alguns, o resultado sobretudo da miscigenação entre árabes e berberes.

Vivendo precisamente na faixa do Saara, esses últimos não conseguiram resistir aos árabes, cujo domínio se estendeu por boa parte daquela imensa região africana, desde pelo menos o século VIII, ao mesmo tempo que progredia na ocupação da Andaluzia (do árabe al-andalus, tal como os mouros se referiam à Península Ibérica). 

Uma vez que eles, os berberes (assim também como os próprios árabes), já possuíam uma longa história de contato com os chamados ‘sudaneses’ (do árabe bilad es sudan: ‘terra dos negros’), formavam um povo, se não negro, de peles muitas vezes escurecidas. 

Considerando o lugar historicamente sabido, em tantos tempos e espaços, de vulnerabilização e violação do corpo feminino, isso significa que, muito provavelmente, a miscigenação que resultou no mouro o ligue diretamente à mulher negra.  

Ou seja: que ele tenha, numa linhagem matrilinear, também uma ancestralidade africana.

Muito se diz sobre o ‘sangue já mestiço’ do colonizador português, mas parece que tal fato tem escapado da percepção dominante.

Uma hipótese: eurocentrismo.

Outra: religião.

Na primeira, imagina-se os portugueses voltados apenas para a sua latinidade.

Na segunda, para o cristianismo.  

O episódio da chamada ‘reconquista cristã’, portanto, vivido com ainda mais intensidade sob o influxo do sebastianismo, não passa de uma armadilha antropológica.

Quem foi expulso, de fato, foi o muçulmano. 

Mas não totalmente o árabe/mouro.

Não se expulsa assim, simplesmente, 800 anos de história.

Nem no espírito, nem tampouco na carne.

É nesse sentido que a própria expressão ‘moçárabe’, vocábulo muito empregado na indexação simbólica de boa parte dos portugueses, não deveria designar somente o ‘cristão arabizado’, mas também o ‘árabe cristianizado’.

Isto é: o mouro que sobreviveu no português.

Não foram poucos dele que, já completamente identificados com outros nexos de ancestralidade, ajudaram a coroa portuguesa na colonização do Brasil.

Beneficiando-se da escravidão.

E que, não obstante, permaneceram vindo, com a pele e a memória cada vez mais desbotadas, em conhecidas levas migratórias mesmo depois da independência e da abolição.

Hoje fazem parte, inexoravelmente, da árvore genealógica de inúmeros brasileiros que se declaram brancos, muitos dos quais certamente no grupo que lidera nossas melhores estatísticas socioeconômicas.

Enquanto, por outro lado, serviram-lhe e continuam lhe servindo, nas funções subalternas de suas respectivas casas e empresas, tantas mulheres negras…   

São elas que convivem atualmente com a pior dor de uma mãe: seus filhos têm sido a maior vítima da violência policial pelas cidades do país.

Em Casa-Grande & Senzala, célebre livro de Gilberto Freyre, pode-se ler, logo abaixo do título, o subtítulo: ‘Formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal’. 

Isso em 1933.

Ainda não éramos nem a pálida metade do que somos hoje.