Ensaio pós-humano I

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Não sei bem o que pode significar livre arbítrio e tenho algumas dúvidas sobre a extensão do conceito de liberdade. No entanto, parece que temos sim um reino. Ele é a pedra de um dominó que vai cair, impulsionado pela queda do anterior. Vamos causar, na medida em que fomos causados.

Nada é certo. E fica mais incerto, de acordo com o excesso de expectativas e a extensão do desejo para o médio e longo prazo. Afinal, mais cedo ou mais tarde, essa vida curta, chega a termo. 

Não temos que nos justificar o tempo todo. A vida não se justifica. Vale em si mesma. Mas tendo claro que nunca temos um chão firme sobre os pés. Às vezes é necessário voar sobre o abismo. Outras vezes é necessário contornar o abismo.

Fazemos, sem perceber, uma trajetória em que criamos o caminho a cada passo. Como Alice, seguimos a estrada dos tijolos amarelos. Mas são nossos próprios passos que fazem aparecer o próximo ladrilho que sustenta o nosso peso. Ainda que o caminho tenha estado sempre lá. Compartilhar esse sentido significa entregar-se ao fluxo dos encontros e acolher a potência da vida.

Mas a consciência é prisioneira dos sonhos e confinada a evocação das memórias. Cada uma é construída no presente e serve a produção, ou expressão de um sentido instantâneo. Embora o mundo seja o conjunto dos fenômenos distribuídos pelo espaço-tempo, nós os percebemos como sendo uma sucessão de eventos lineares que são manifestações dos resultados de determinantes desaparecidos. Estes, por sua vez, darão causa a novos eventos ainda não acontecidos. Daí, nossa ilusão de livre arbítrio e de liberdade. Nos sentimos como criaturas mágicas criando a realidade que ainda não existe através de nossas escolhas.

Na verdade sabemos que nossas escolhas são causadas. Como choques em uma mesa de sinuca, todo o evento encontra-se na sequência de causas anteriores. Foi determinado e parecerá que determina algo no futuro. Mas na verdade faz parte de um todo já acontecido. Na verdade tudo já está dado no tecido do espaço-tempo.

A questão e o experimento consistem em buscar saber se a consciência de um determinado sentido é única ou se ela pode ser plural. Dependendo da medida em que a consciência estiver livre das amarras do tempo, estaríamos em condição de produzir sentido para os eventos que são, eles mesmos, absolutos e causados uns pelos outros.

A questão é como os paradoxos cognitivos se resolvem na realidade. É possível fazer ou captar uma onda que flua acima da velocidade da luz, invertendo a seta do tempo e levando informação do presente ao passado?

O paradoxo do avô é a clássica inconsistência do sentido que demarca os limites de nossa percepção do mundo. Como acreditamos que decidimos e que a escolha dá origem a um universo que não existia (e que, convenientemente desaparece quando se torna passado) não sabemos como resolver cognitivamente situações em que o passado ressurge como cenário de tomadas de decisão. Se volto ao passado e mato meu avô, como posso ter nascido para voltar ao passado e matar meu avô?

A resposta para esse paradoxo não existe no universo de nossa cognição. O universo, ou Deus, simplesmente impedem a viagem no tempo, de modo a evitar a ruptura de nosso consenso tácito sobre a realidade. Podemos até aceitar que possamos viajar no tempo, desde que não seja possível mudar nada que já tenha acontecido.

Outra interpretação permite que em cada nova escolha que faço no passado, a alternativa escolhida gere um novo universo. Assim, não veríamos viajantes do tempo por que sua presença sempre se dá em universos alternativos ao nosso. Uma, entre infinitas possibilidades, cada universo seguiria seu curso como se ninguém tivesse vindo ao passado para modifica-lo.

Como nossos antepassados sentiam que a terra era plana, sentimos que o futuro ainda não existe e que o passado desapareceu. Seremos menos humanos se conseguirmos nos divorciar dessa ontologia? Poderemos superar essa noção do ser limitada ao presente?

A própria noção de morte é determinada pela ideia de desaparecimento da consciência presente. Aos 44 anos tenho a impressão de que partes inteiras de minha vivência estão perdidas para sempre. Meus esquecimentos são como o recheio do resumo de uma série de eventos que ainda servem a restituição de minha identidade em cada instante. Figuras de hábitos e instintos, sutilmente aderidos a costura de memórias que me definem, são insignificantes diante da imensidão de instantes esquecidos. A morte pode ser a plena perda de toda a lembrança que edifica o precário prédio de memórias lineares que identifico como sendo eu mesmo.

É nesse sentido que um tigre enjaulado já está na eternidade. Fora do tempo, ele vive instantes que não podem (des)acontecer e farão parte da história do universo para sempre. Somos nós, os efêmeros mortais auto conscientes, que perdemos a eternidade a cada momento que passa. Não podemos deter o esquecimento contínuo até que a consciência finalmente se apague. Mas pode a consciência se apagar de fato? Pode um determinado arranjo das ondas/partículas desaparecer?

Outra humanidade deverá poder responder a essas indagações. Mas se ela existir, seu embrião está inscrito em nosso destino. Humanizar-se, nesse sentido, é acolher o além que já habita o espírito humano e nossas almas singulares.

Feliz encontro com 2015! Ele já é. E está na espera como acontecimento a ser vivenciado.