Encontro de escuta e trocas: movimentos e coletivos pensando sobre SUS e Saúde.

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Dias atrás, na Faculdade de Saúde Pública da USP, aconteceu o Encontro Regional da Rede Unida em São Paulo sob o tema “Escuta de movimentos e coletivos: o que pensam vocês sobre SUS e Saúde?”. E como forma de contar para as pessoas que não puderem participar do encontro, na sexta (27/03), resolvemos escrever este texto. Resolvemos, no sentido de, partilhar experiências, ampliar olhares, caminharmos juntos com os problemas do SUS e da Saúde. Resolvemos, ainda, em revisitar nossas próprias reflexões e incômodos acerca das escutas coletivas. O resolvemos-em-nós, não parte apenas de mim, mas de encontros que foram produzidos naquela manhã de sexta.

Estavam, reunidos, alunos de graduação, docentes, residentes, militantes, pós-graduandos/as, gestores e pessoas interessadas pela discussão ali abordada. Sobre os movimentos e coletivos estavam presentes a Associação Paulista de Saúde Pública (APSP), VERSUS/São Paulo, Fórum Contra o Genocídio do Povo Preto, Margens Clínicas, Prefeitura de Santo André, Coletivo de Editores da Rede HumanizaSUS e importantes parceiros que constroem o SUS diariamente em sua micropolítica.

Porque escutar movimentos e coletivos? Não é mais fácil falar?

A proposta do encontro foi de compor escutas para dar voz a todas as vozes, compartilhar saberes, produzir conhecimento e intervenção, ou seja, um encontro vivo de questões que tocam os corpos, provocam desassossegos à medida que vivemos o SUS e a Saúde.

 “Eu acho que deveríamos ler apenas aqueles livros que conseguem nos ferir, que nos apunhala. Se o livro que lemos não nos acorda com um golpe na cabeça, por que estamos lendo, então? […] Nós precisamos dos livros que nos afetam como um desastre, que nos tormenta profundamente, como a morte de alguém que amamos mais do que nós mesmos, como ser jogado em uma floresta longe de todos, como um suicídio. Um livro deveria ser o machado para o mar congelado dentro de nós. Isso é o que eu acredito. “ Franz Kafka.

O SUS, hoje, é atravessado por interesses que nos ferem e nos apunhalam. A grande mídia, por exemplo, tem visão pouco generosa sobre o SUS e constrói na cabeça das pessoas o imaginário de um “SUS monstro”, com unidades de saúde precárias, grandes filas de espera, falta de medicamentos e de médicos, pacientes em corredores de hospitais a beira da morte. A mídia faz um desserviço ao SUS por mostrar sistemas de saúde municipais estraçalhados. Somos em 5.570 cidades pelo Brasil, e cada município carrega em si, sistemas de saúde diferentes: exitosos, em construção, não exitosos, passando por mudanças, reinventando vidas e desejos de cada pessoa. É importante discutir a regulação democrática da mídia, a que temos hoje vem provocando enormes desvios ao SUS.

Se antes, as epidemias infectocontagiosas eram um problema de saúde pública. A sociedade contemporânea produz novas doenças. Saímos da concepção biológica das patologias e entramos em um cenário de civilização e doença. Construímos meios de transporte, pontes entre os continentes, mas, esquecemos de instrumentos para garantir a cooperação pacifica entre as nações. Faço esse ballet todo (rs) para dizer que os homicídios representam 36,5% das causas de morte, por fatores externos, de adolescentes no País. Estes, adolescentes, são pobres, negros e periféricos. O racismo e o genocídio de jovens negros são problemas de saúde pública. E quando falo que as epidemias infectocontagiosas eram um problema de saúde antigamente, atualmente enfrentamos epidemias de caráter político, social, econômico, de cor, raça e etnia.

Miguel, que representava o Fórum Contra o Genocídio do Povo Preto e estudante de Saúde Pública, colocou em pauta a relevância dos debates sobre a saúde fazer sentido para as pessoas. Foi buscando na sua comunidade, movimentos que fizessem sentido para produção de vida e encontrando sentido para as reflexões de saúde na Universidade.

Assim como, compreender as relações sociais é um fator importante para o processo saúde-doença: produzir subjetividade, potência e vida. Se torna necessário, lutar por um modelo universal, que esteja próximo dos sujeitos, que atue nos territórios, que incorpore a singularidade de cada espaço-tempo numa clínica ampliada. Se faz necessário e urgente, lutar por um modelo de saúde e sociedade que priorize a intersetorialidade nas políticas públicas para resolução de problemas contemporâneos.

Vivemos uma intensa disputa por modelos de sociedade, as falas no Congresso, os gritos nas ruas e os ecos da mídia, nesse mesmo cenário, a Rede Unida buscou criar espaços para promover escuta.  Ouvir, talvez seja o maior ato de resistência dentro desse projeto de saúde.

Durante as falas compartilhadas nesse Encontro, apareceram questões como a judicialização da saúde, importância de fortalecer e empoderar a representatividade dos Conselhos Municipais, formação de estudantes e trabalhadores para o SUS, capitalismo financeirizado na saúde. Ficou claro que o papel de todos os atores da sociedade, na gestão, na sociedade civil, na militância, ou outra posição, tem grande peso na construção do SUS.

Há uma colocação feita que merece ser enfatizada: “precisamos pensar global e agir local”.

Continuando e construindo as agendas estratégicas e participativas do SUS

Por conta da 15ª Conferência, as agendas de participação social do SUS não param e lançamos o convite para estarmos juntos nos próximos encontros:

– Caminhada em defesa da saúde pública, dia 7/abril concentração às 9h na Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 188 – Centro – SP (em frente a Secretaria Estadual de Saúde).

– 7ª Conferência Estadual de Saúde de São Paulo, dias 22, 23 e 24 de julho de 2015.

Mais informações:
http://www.saude.sp.gov.br/conselho-estadual-de-saude/homepage/destaques/ces-realiza-7-conferencia-estadual-de-saude-de-sao-paulo

Seguimos acreditando, assim como, Kafka. 

Resolvemos-em-nós

Allan. Sanitarista em formação. VERSUS/SP

Beatriz. Terapeuta Ocupacional em formação. VERSUS/SP

Debora. Advogada. Ativadora do convite em construir esta síntese.