PASSEIO PELA RHS, PASSEIO PELA VIDA, REFLEXÕES ACERCA DE: QUANDO UM CEGO ENSINA A VER.

16 votos

cego-460x180.jpg

 

Dentro do ônibus, me dirigindo para o trabalho, transitando pela Avenida Brasil, um dos principais corredores viários do Rio de Janeiro, me deparo com uma cena que, salvo sua semelhança com algum tipo de anedota pedagógica, é tão mais estarrecedora por ser real e vir ao encontro de alguém que tem escrito por aqui na RHS sobre a importância da abertura à comunicação democrática como um dos principais meios de exercício da cidadania e, dentro dela, da real cogestão daquilo que, como trabalhadores, também ajudamos a construir: a realidade dos serviços de saúde.

Intrigantemente, estava lendo um post de um dos alunos da UNB, refletindo sobre a aula acerca da Clínica Ampliada, no qual enfatizava sua compreensão do Acolhimento como um dos importantes elementos constituintes da clínica (http://www.redehumanizasus.net/92091-acolhimento).

A voz de um cidadão com deficiência visual interrompe minha vigil sonolência do real com um sonoro e potente “Bom dia meus amigos!”, o qual, no entanto, embora o ônibus estivesse relativamente cheio, ficou sem resposta.

O cidadão insiste, então, falando em alto e bom som: “meus amigos para receber é preciso dar, vamos abençoar o dia dos companheiros? Bom dia!”. Novo silêncio se fez então.

“Gente eu vou soltar na passarela 9. Estamos perto?”.  Sem resposta, ele brada: “motorista, por favor, eu vou soltar na passarela 9”. Nenhuma resposta. Ele começa então a dizer que trabalha vendendo guloseimas no ônibus, mas que estava sem dinheiro para comprar produtos e que agradeceria se alguém pudesse ajudar, terminando com a frase “entrei aqui querendo soltar na passarela 9, mas acho que vou acabar lá com os pescadores”, referindo-se ao ponto final do ônibus, próximo ao mar.

Como eu não sabia onde ficava a passarela 9 e àquela altura, já angustiado, começava a me irritar com o silêncio, me preparava já para falar, quando nova frase, desta vez bombástica irrompe na voz do cidadão-cego:

“Meu Deus, você deu voz aos galos, aos passarinhos, aos cães! Como está difícil ouvir a voz humana!”. Atônito, chego a me assustar quando uma senhora ao meu lado grita: “Moço é na próxima parada que o senhor tem que soltar”.

Para um apoiador em humanização, acostumado a ouvir frequentemente os trabalhadores de saúde diagnosticarem os problemas de comunicação como sendo o mais deletério, dentre tantos que afetam o trabalhar, fiquei perplexo ao constatar a completa falta de solidariedade e gentileza praticada ali. A alma de psicólogo havia sido pescada.

Atentei em torno e percebi que, em sua maioria, eu e os companheiros de viagem estávamos conectados aos nossos ordenadores eletrônicos e, como zumbis do real, estávamos mais presentes para a presente ausência do meio virtual do que realmente presentes aos movimentos da vida em nosso entorno. Nossos corpos eram, portanto, apenas centrais de recebimento de comandos eletrônicos numa sensibilidade sem partilha, porque o sensível vívido se esmaecera nas ondas frias, ainda que afetantes, de uma sensibilidade por demais individual, individualista e individualizante. Mortos-vivos, portanto, zumbis da partilha do sensível imediato. Teriam também os afetos sido capturados em caixas de ressonância sem voz própria?

“Como está difícil ouvir a voz humana”! Era um ritornelo como facada na alma e um carinho de arame farpado em todos os poros da pele, alertando todos os meus sentidos, retirando-me da minha catalepsia zumbi em tudo programada numa formatação subjetiva encapsulada em si mesma.

Aonde espaço para a partilha do sensível? Rancière puxava-me a orelha.

Pobreza de experiência e o fim das narrativas! Apontava Walter Benjamin.

Não passaria a Clínica Ampliada – reverberações do que lia – pela urgente necessidade de vidas ampliadas? Vidas sensíveis aos ruídos e demandas da partilha do sensível imediato e não só mediatizado pelo virtual, que nos tornava a todos nós, naquele transporte coletivo, mais cego do que o deficiente visual que bradava aos berros sua necessidade de vivo E vendo mais do que todos os videntes, lamentava a mudez de nossa falta de visão e de nossa deficiência de vida partilhável.

Encaixotamos, enfim, nossas vidas a comandos outros que não ao do viver intensamente?

Zumbis servis aos comandos eletrônicos? Mortos-vivos encaixotados em certezas absolutas? Marionetes em nossos mundinhos fechados e lacrados, pré-fabricados em nossos protocolos de comandos hegemônicos? Máquinas de respostas prontas e convenientes sem responsividade? Conectados sem conexão com o vivo?

Não passariam, então, nossas deficiências nos serviços de saúde também por esta espécie de deficiência com a vida, na qual mergulhados e tendo que responder a ela, em suas demandas, em suas necessidades, estaríamos todos plugados em outra dimensão, sem partilha do sensível?

Não seria então o objetivo de uma Clínica Ampliada exatamente este, de nos desconectarmos de nossos comandos formatados de conexão com o mundo e, numa partilha do sensível, corrermos os riscos de conexão com a dimensão viva para a qual não temos todas as respostas, nos tornando inseguros?

Mas como ser inseguro num mundo de competição? Como demonstrar fraqueza num mundo que exalta os fortes, os ‘sabidos’, os que têm respostas para todas as perguntas, ainda que sem capacidade de fazê-las? Máquinas reativas com respostas programadas, mas sem responsividade! Serviços de telemarketing.

“Como está difícil ouvir a voz humana”!

Dou-me conta de que também o sinto muitas vezes, também muitas vezes a voz que pronuncio não é humana, mas eco da caixa de ressonância que, na pobreza de experiência, faz morrer a capacidade de narrar e narrar-se, sendo apenas máquina de informar e não de comunicar, tornar comum na ação de falar, porque esta exige uma participação intensiva e não extensiva, monólogo entediante de um zumbi conectado a palavras de ordem, ainda que sem sentido.

Está certo o Cigano Calon (http://www.redehumanizasus.net/92028-porque-do-nomadismo-cigano) quando, aguerrido, me devolve toda a minha empáfia, arrogância e prepotência e, com propriedade, me pedindo desculpas, diz que minha fala prejudica seu povo e, ironicamente, com inteligência, diz que tem muito a aprender comigo sobre os ciganos, numa espécie de: Acorda zumbi!

Estão certos os nãos pacientes quando não aderem a um tratamento que não os ouve e legisla por eles a vida que deve ser seguida e protegida, inclusive de sua própria vida (http://www.redehumanizasus.net/92046-a-justa-dose-da-medida).

Estão certos todos que, recusando-se a serem conectados, se desplugam de um comando hegemônico solapador de autonomia. Estão certos os vivos que se recusam a virar zumbis.

Pobreza de experiência se cura, acho eu, não com zumbis, mais com zumbidos, com ruídos e com rugidos. Pobreza de experiências se cura com partilha do sensível, única possibilidade de vida política.

Pobreza de experiências, enfim, se cura com narrativas e, como disse Gustavo Nunes: “Uma delas, das mais importantes, é a valorização de pensamentos e modos de vida colaborativos e solidários. Neles, mais vale contribuir com uma narrativa própria e singular da vida e das experiências do que colar e filiar nas narratividades em disputa por alguma suposta ou real hegemonia” (http://www.redehumanizasus.net/92039-gestao-administracao-e-processos-de-trabalho-a-rhs-como-sala-de-aula-da-unb-e-encontros-incidentais-entre-fluxos-de-rhs-na).

Incitar e estimular a experiência e sua partilha, como fez Gustavo Nunes (http://www.redehumanizasus.net/91790-alo-alo-rhs-boas-vindas-a-uma-nova-turma-de-gestao-em-saude-coletiva-unb) e, em seu rastro, como faz agora Fábio Hebert (http://www.redehumanizasus.net/92072-a-experiencia-de-compartilhar-experiencias-de-sus), inovando nos processos de formação, é estimular a polifonia em que a voz humana se diga como humana e não como transmissão afônica de um monólogo endurecido que, ao final, não nos deixa nem mesmo ter comunicação conosco.

Cogestão e Clínica Ampliada, na acepção de vidas intensivas em ampliação, parece ser a resposta para aquilo que o único que não era cego naquele ônibus, embora fosse um completo deficiente visual, bradou:

É dando que se recebe, é partilhando e abençoando na responsividade viva que podemos enfim desdizer: “Como está difícil ouvir a voz humana”!

Obrigado companheiro de viagem, pois, ainda que cego, você contribuiu para que eu pudesse enxergar melhor!

Obrigado companheiros vivos da RHS que, embora rede virtual, inova na sua proposta e sabe bem dar confluência ao zumbido que nos retira de nosso silêncio conveniente.

Ao debate minha gente. À polifonia de vozes humanas inseguras, incertas, mas vivas e vívidas em sua expressão singular!

 

BENJAMIN, Walter. Experiência e Pobreza – Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Prefácio de Jeanne Marie Gagnebin. São Paulo: Brasiliense, p. 114-119, (1987).

RANCIÈRE, Jacques. A Partilha do Sensível. Estética e Política. São Paulo: Editora 34, 2ª ed., 2009.