Carta às árvores do Instituto Nise da Silveira

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Foz do Iguaçu, 21 de setembro de 2015.

Amigas árvores,

Desde que as vi, ano passado, no IV Congresso da UPAC e III OcupaNise, algo de impressivo surgiu em mim. Me atrevi a cismar que entre tantas violências ocultas, no Centro Psiquiátrico Pedro II, vocês foram, queridas árvores, as únicas testemunhas. Povoaram minha memória, por bons tempos, suas imagens e a ilusão do quanto aprenderia se soubesse te ouvir, se conseguisse escutar atentamente todas as histórias que vocês presenciaram, ao longo de todos esses anos, neste lugar. Me peguei pensando como faria para reconhecer as sensações, por vocês exaladas, ao conviverem com os mais diferentes afetos. Ao serem as grandes observadoras da crueldade humana, recolhidamente, compreendi, para não sucumbirem, belas árvores, somente com conexões muito fortes. E assim, a partir do nosso primeiro encontro, o formato que eu deveria escolher para melhor compreender e expressar essas fortes conexões me consumiram por meses. É que fiz da minha vida acadêmica um dos caminhos. E, por isso, acreditava, ser essa uma estrada silenciosa. Não que a universidade, seja quieta, ao contrário, queridas árvores, ela discursa bastante. Entretanto, todo esse falatório fornecido acabara confundindo minha audição e, por muitas vezes, minhas amigas, me afastando de seus sons. E, para conseguir escutar vocês, o meu corpo precisava estar em silêncio. O silêncio necessário que todo corpo passa em seu processo de organização. Sabe, árvores, uma vez li um poema que dizia que atuar significa organizar o meu discurso e a minha sensibilidade. Esse mesmo poema recitava a dificuldade de tal processo. “Exige pesquisa permanente”, alertava! Para o discurso, estudos sensíveis. Para a sensibilidade, sentidos estudiosos. É assim que interpreto essa poesia/ética. Mas e aí, amigas, meu corpo demonstra minha não atuação! O que fazer com todo o estudo acumulado?! Como fazer para me organizar?! Só com conexões muito fortes! E essa solução, de certa maneira, foram vocês, indisciplinadas árvores, que me responderam. Isso pode parecer loucura, né!? Mas, em elogio a essa loucura, Roterdã, já no século XVI, escreveu: “verdadeira prudência consiste, visto que somos homens, em não queremos ser mais sábios do que permite a nossa natureza.” Será que são todos loucos os que conseguem te sentir? Diga-me, companheiras, a loucura está presente naqueles que procuram os seus ensinamentos? Como vamos saber até onde vocês permitam que vá a nossa compreensão? Entre tantas leis que movimentam o mundo, quais delas estamos preparados para saber? “Tú sí que sabes tierra, tú sí que sabes” enuncia uma canção. E, hoje, amigas árvores, após reencontra-las no V Congresso da UPAC, percebo que vocês são parte de um aprendizado tão complexo e conectivo como é o corpo humano. Espinosa, após quatro séculos, se faz contemporâneo ao afirmar que não conhecemos as potencialidades do nosso corpo. E, realmente, ainda não sabemos! Na procura desse conhecimento, o homem fragmentou o seu corpo. O dividiu, incessantemente, em tantas partes que atualmente reconecta-las torna-se uma tarefa catártica. Ah, queridas árvores, o homem é tão prepotente que acredita um dia conseguir determinar todas as causas e controlar todos os efeitos. E, assim, nos estruturam. Estruturam vocês, estruturam o meu corpo, estruturam os nossos pensamentos. Tão tolos! Será que eles, árvores, não percebem que o nosso corpo é afetado o tempo todo pela mesma lei que gere vocês e a nós?! Diriam vocês: “Tão menos louco seria o mundo, se os homens aprendessem com as suas loucuras. Com a loucura de parar e só nos ouvir. De ouvir o seu corpo, porque é através dele que a gente transmite a nossa linguagem.” “Espera aí”, me diriam vocês novamente, “Me estruturam?!”. É, de fato, o homem não consegue estruturar vocês, queridas árvores, estruturam a mim, uma simples mulher humana… Queridas amigas árvores do Instituto Nise da Silveira, preciso lhes confessar uma coisa: Foi buscando me desestruturar, fugir da lei dos homens que me lancei no mundo e fui parar no IV OcupaNise. Estava à procura da minha própria cura! Mas diferente do que previa, não foi a ocupação das enfermarias do instituto, nem os atores que celebram a Saúde que, dessa vez, ofereceram as respostas das inquietações que me consumiam. Foram vocês, minhas mais íntimas amigas, que manifestaram essas respostas. Os ensinamentos, da nossa primeira junção, carrego-os comigo. Sim, é possível separar, na teoria e na prática, Saúde e doença. Sim, é possível inclinar-se sobre a Saúde. Inventar a loucura que cura e não a cura da loucura. Sim, o amor é terapêutico. Através do Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde vocês me proporcionaram bons encontros! Mas, agora, em nossa segunda convivência, no V Congresso da UPAC, compreendi que vocês estão, o tempo todo, tentando se comunicar, deixar seus recados, proporcionar suas ligações. Acho que é por isso que suas imagens são tão vivas em mim. Na primeira vez que nos vimos, vocês não conseguiram transmitir todas as mensagens pretendidas. Meu corpo precisava voltar, precisava ser afetado novamente para começar a entender a sua linguagem. Nesse ensejo, foram vocês, minhas amigas, o meu remédio contra a ansiedade. Por meio das suas formas desestruturadas, vocês me apontaram o caminho e ele não é silencioso. Só com conexões fortes! Sabe o porquê, árvores curadoras da alma, porque da mesma forma que a Mulher quem dá nome ao Instituto onde estão alocadas, vocês são rebeldes. Tão rebeldes, que arrebentam as suas próprias estruturas. Tão rebeldes que anunciam, a quem quiser ver, mesmo a Deleuze e a Guattari, que até mesmo árvores são capazes de se desterritorializar para se comunicar. Vocês não são arborescentes, são rizomáticas. Não se contentam em manter-se subterrâneas, necessitam emergir e nos mostrar que até mesmo em seus troncos partem-se linhas. Será que são, árvores do Instituto Nise, os poderes do inconsciente presente neste ambiente que fazem vocês serem tão expressivas?! De afetar e serem afetadas. E que, inclusive as árvores, vivem as suas multiplicidades. Conforme enunciou, árvores queridas, os dois franceses a cima citados “As multiplicidades se definem pelo fora: pelas linhas abstratas, linha de fuga ou de desterritorialização segundo a qual elas mudam de natureza ao se conectarem às outras.” De tanto sentirem, talvez vocês resolveram quebrar também com a ideia de árvore-imagem só para nos transmitirem a mensagem da necessidade de um sistema a-centrado. Só com conexões fortes! Tudo o que vive faz alianças. Ah, minhas amigas árvores, quanta gratidão pelos seus ensinamentos! Obrigada pelos bons encontros e até breve.

Com amor,

Maísa Melara.

 

Texto publicado originalmente no site colaborativo da Universidade Popular de Arte e Ciência (UPAC) 
http://upac.com.br/#/upac