Da Lama ao Caos – Do Caos às Estrelas – Breve relato sobre a loucura.

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“Em uma sociedade mantida pela mentira, qualquer expressão de liberdade é vista como loucura.” – Emma Goldman

Inicio aqui um breve relato, escrito com demasiado peso para leveza que aparece após cada palavra digitada, sobre recentes acontecimentos que envolvem minha história enquanto estudante da área da saúde, militante e usuária do SUS, participante ativa nas discussões de saúde mental e por último mas expressamente significativo, recém diagnosticada com Transtorno Bipolar.

Há aproximadamente dois meses fui diagnosticada com depressão após passar um turbilhão de acontecimentos que causaram muita dor, iniciei o tratamento com sertralina, esperando que fosse melhorar. Uma semana, duas semanas, sem expressão aparente de sofrimento por fora, fui me afundando dentro de mim mesma, pensamentos que corroíam meu cérebro e coração. Três semanas passaram e “bum” aquilo que eu não sentia há tempos eclodiu novamente, uma força que me tomava e me enchia de energia, como se eu pudesse ganhar o mundo todas as noites. Uma semana feliz, uma semana nervosa, uma semana em lágrimas novamente, fui aconselhada pela terapeuta a consultar, o quanto antes, o psiquiatra.

Um temporal passando dentro de mim e a vida não parava. Aulas, trabalhos, congresso, prazos, compromissos familiares… Algo estava começando a dar muito errado. Não queria procurar o CAPS (Centro de Apoio Psicossocial) chamado aqui na cidade de Santos de NAPS (Núcleo de Apoio Psicossocial – nome dado ainda na época da reforma psiquiátrica, que permanece até os dias de hoje), pois estaria me sujeitando a expor “minha loucura” para os colegas de faculdade. Curso Terapia Ocupacional e há colegas do meu ano realizando estágio no equipamento, os mesmos que encontro no ambiente da Universidade em que todos sabem da vida de todos.  Basta um episódio (de agressão, abuso, surto, entre outros) e que pessoas erradas fiquem sabendo para um rótulo se estabelecer. Somando um rótulo e bruscas mudanças de humor que podem gerar ressentimentos nos outros, a Universidade pode virar o pior lugar para se frequentar. Muitos estudantes estão longe de casa, com aquela escassa conta bancária estudantil, então nos ajudamos como podemos. Normalmente procurando em outros que em nos reconhecemos, enfrentamos ao nosso modo, as vezes subindo e outras nos afundando.

Sertralina acabou e o sofrimento permanecia, hora de enfrentar. Procurei o NAPS, enfrentei os colegas naquele espaço e posso dizer que fui acolhida pelo serviço. Pela primeira vez em quatro anos de extrema instabilidade, pisei num chão onde desabei e depois consegui parar em pé. Acolhida pela Terapeuta Ocupacional e atendida em sequência pelo psiquiatra, dei inicio ao meu acompanhamento.

Uma semana com a medicação, me senti melhor, mas os questionamentos não paravam de borbulhar. E então na próxima consulta um “diagnóstico em aberto”, Transtorno Bipolar. Novamente me senti perdida. Como eu, que estudo para acompanhar pessoas com situação de comprometimento da saúde mental estava sendo diagnosticada? Como foi passar num serviço da rede onde posso vir a fazer estágio? Como eu que participei da Semana da Luta Antimanicomial estava me pegando no tabu de me sentir louca? Muitas questões ainda estão em aberto e precisam de um tempo para serem significadas em minha subjetividade mas já há algumas coisas que estou conseguindo resignificar.

Nos serviços, a questão de colegas de Universidade acompanhando e acompanhamento, tem sido tratada  de forma sensível. Isso me estimula a acreditar a importância do que sempre defendi que é a formação em saúde pautada no território, e agora me vendo enquanto território, a importância ficou ainda maior. Muitas vezes apesar de irmos para os serviços, nos vemos alheios aquele mundo, nosso mundo é Academia, porém, o sofrimento não escolhe em qual mundo se manifestar. Acho que esta sendo um processo importante para todos os lados.

Logo que passei pelo NAPS pude compartilhar a experiência com duas colegas que sentiam que precisavam de ajuda. Uma delas já procurou o serviço também e esta iniciando seu plano terapêutico em um equipamento, equiparado ao CAPS – AD (Centro de Apoio Psicossocial – Álcool e Drogas), tão estigmatizado por muitos, até mesmo por nós. A abordagem do acolhimento recebido, no entanto, mostrou que aquele lugar pode ser um ponto de apoio para ela, nessa vastidão que é a vida.

Nietzsche já dizia que “é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante”. Espero que esse caos que é o sofrimento de expressar-me intensamente à loucura dessa sociedade, possa gerar luz, para a minha vida e para os que forem tocados ao se reconhecer da mesma forma.

Compartilho aqui minha experiência e gostaria de ouvir de vocês, relatos pessoais, histórias de conhecidos, enfim que possamos trocar figurinhas e produzir saúde por meio do cuidado no afeto.

Beatriz Vasconcellos.