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Muito importante a iniciativa de uma rádio indígena. Povos Indígenas uni-vos! Vejam o texto embaixo publicado na revista RADIS, nº 165

 

Rádio indígena online, a Yandê compartilha saberes e desconstrói estereótipos

O líder indígena Ailton Krenak conversa com o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. A compositora Marlui Miranda manda um recado aos ouvintes. O correspondente em Mato Grosso do Sul entrevista o líder Adhiel Terena sobre a 7ª Assembleia do Povo Terena, que aconteceu em maio, em Campo Grande. O som melódico do Projeto Kanorô — com Shaeneihu Yawanawa fazendo uma ode à chuva — invade a tarde. Mas em língua nativa também tem forró, pagode, reggae, heavy metal, black music e “música de sofrência”, como faz questão de avisar Anápuáka Tupinambá, um dos idealizadores da Yandê, a primeira rádio indígena online do Brasil.

Com mais de meio milhão de ouvintes e audiência em 40 países, a Yandê aposta em programação diversificada para divulgar a cultura dos povos indígenas em versão contemporânea, muito além do que contam os livros de história. “Tudo o que a gente conhece sobre os povos originários está batido. A mídia tradicional insiste em apresentar os indígenas como se eles ainda vivessem em 1500”, diz Anápuáka. “O que nossa rádio faz é mostrar como vivemos no presente, fora da imagem mítica e romântica, com toda a pluralidade da nossa cultura e de nossas etnias”. Na grade de programação da rádio, cabe tanto o cotidiano das aldeias quanto a luta por direitos nos contextos urbanos, um debate sobre o Projeto de Emenda à Constituição (PEC)  215 — que ameaça a demarcação de terras indígenas — quanto áudios enviados para a redação com denúncias, músicas, entrevistas, cobertura de eventos.

Para se manter online 24 horas, a Yandê conta com um grupo de 70 colaboradores conectados via WhatsApp, espalhados pelas comunidades indígenas do território nacional, e dois correspondentes — Daiara Tukano, de Brasília, e Vavá Terena, de Mato Grosso do Sul — que sugerem pautas e produzem conteúdo para alimentar a rádio. “O jornalismo segue um formato mais livre. Não há um noticiário fixo e as notícias, em vez de virem blocadas, vão entrando no ar à medida que chegam na redação”, explica Anápuáka, acrescentando que alguns conteúdos são reexibidos em horários alternativos. “A gente consegue ter acesso ao melhor do conteúdo da cultura indígena, que é produzido in loco e enviado das aldeias diretamente para nossa plataforma”, comemora.

 “De todos nós”

Yandê significa “nós”, em tupi. O nome foi escolhido para batizar a rádio porque, segundo Anápuáka, o objetivo é conversar tanto com indígenas quanto com os não-índios. Virou “Yandê – a rádio de todos nós”. Ele diz que, ao praticar uma linguagem midiática diferenciada, respeitando a diversidade étnica dos povos indígenas, a rádio cumpre o papel de compartilhar saberes e conhecimentos desconstruindo certos estereótipos e imagens distorcidas. “Tanto pra nós, realizadores e criadores, quanto para os ouvintes, a Yandê tem dado a oportunidade de refletir sobre uma mudança de paradigmas”, complementa. “A cultura indígena está em constante mutação, reinventando-se o tempo inteiro. O indígena não é mais apenas aquele ser do passado que caçava e pescava na floresta. Ele pode estar ao seu lado no ônibus, dividindo uma sala de aula ou dando aulas”.

A ideia da rádio como um instrumento de comunicação valioso para os povos indígenas vem amadurecendo há muito tempo. Teve como precursora a Webrádio Indígena, também sob a coordenação de Anápuáka, que foi ao ar em 2008, mas não conseguiu se manter por muito tempo. “Tivemos problemas com a tecnologia, só conseguimos transmitir via streaming [transmissão instantânea de aúdio e vídeo] por poucos meses, cometemos erros. Mas tudo isso foi importante para o surgimento da Yandê”, diz. Idealizada e levada adiante por Anápuáka juntamente com Renata Tupinambá e Denilson Baniwa, todos com experiências em comunicação e etnomídia, só em 2013 a rádio ganhou o formato que tem hoje, tornando-se oficialmente a primeira rádio indígena online do país. Com sede em Niterói, Rio de Janeiro, venceu no ano passado o Prêmio de Comunicação Jovem oferecido pelo Ministério da Cultura (MinC). Pode ser acessada pelo site http://radioyande.com/ mas também por outras plataformas a partir de aplicativos móveis. Na página da Yandê, você pode cadastrar o seu email, enviar pautas e receber outras informações por meio do endereço:pautajornalismo@radioyande.com.

Ana Cláudia Peres
 
Fotos da Aldeia Brilho do Sol e Tenondê, em São Paulo