ACOMPANHANDO O PACIENTE ATÉ O ESPECIALISTA

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          No nosso dia a dia estamos constantemente nos deparando com os encaminhamentos. Algumas vezes por uma necessidade de termos uma segunda opinião e realizar um tratamento mais apropriado para aquele paciente que breve retornará para você, mas algumas vezes, e nem sempre nos damos conta, para nos retirarmos da responsabilidade pelo sujeito adoecido, aquilo que Balint denominava “conluio do anonimato”. Decidi escrever sobre os encaminhamentos a partir de uma vivência pessoal. Aí vai…

          Estava na residência de psiquiatria e naquele ano 4 pacientes do ambulatório adoeceram, necessitando de exames invasivos. “Por acaso”, todos eles me pediram para que eu os acompanhasse durante os exames, realizados no mesmo hospital universitário onde fazia minha formação. Não queriam ir “sozinhos” ao especialista. Na época não entendia bem do quê se tratava esse “sozinhos”, e pensava que minha presença física seria a possibilidade de tirá-los da solidão.

          Muitos anos se passaram e encontro com uma amiga que na época era acadêmica de enfermagem e que também acompanhou um daqueles pacientes “acompanhados” por mim. Disse ela: “Se lembra do Seu Raimundo? Ele morreu algum tempo depois que você saiu do Rio. A irmã dele me contou, e disse que nos últimos momentos só falava no seu nome…”

          Fico pensando então nos vários sentidos da palavra ACOMPANHAR. Acompanhar um paciente é estar junto, ser sua referência, não deixá-lo sozinho. E aprendi também que não se trata exatamente da presença física. Afinal de contas, com Seu Raimundo eu não estava fisicamente ao seu lado, como na época do exame da residência. Mas estava ali, com meu nome, com aquilo que de mim tinha permanecido com ele…