CADERNO “CIÊNCIA E SAÚDE” DO JORNAL O POVO (CE) DESTACOU O PROGRAMA CIRANDAS DA VIDA E AS PRÁTICAS INTEGRATIVAS E POPULARES

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Foto Ilustração: Marcus Campos (O Povo)

 Carlus Campos)  

Cuidado humanizado e integral

Em Fortaleza, algumas práticas integrativas e complementares, como acupuntura e fitoterapia estão disponíveis na rede pública de saúde
Lucinthya Gomes
lucinthya@opovo.com.br
06 Mar 2010 – 21h30min
 
Bisneta de índio, desde criança, Fátima Castro se interessa pela natureza e pelas possibilidades de curar doenças com produtos naturais. “Fui conhecendo e assumindo a prática de cuidar das pessoas. Perguntava aos mais velhos que planta serve para isso, que planta serve para aquilo e fui aprendendo“, recorda. Com o tempo, Fátima foi aprendendo que práticas tradicionais e o próprio conhecimento popular podem ser fortes aliados dos tratamentos médicos convencionais.
Hoje, ela é coordenadora da Oca Terapêutica do Conjunto São Cristóvão. Com métodos que incluem massoterapia, argiloterapia e terapias em grupo, Fátima socorre inúmeros doentes, que sofrem com traumas psicológicos, drogas, alcoolismo, conflitos familiares e até dores físicas, como na coluna. Este atendimento é gratuito, em parceria com a Prefeitura de Fortaleza, e está disponível em outros bairros, como Pirambu, por meio do Projeto 4 Varas, e no Espaço Ekobé, que fica no Campus do Itaperi.
Antes elas eram conhecidas como alternativas, mas, hoje, terapias como homeopatia, uso de plantas medicinais e fitoterapia ou medicina tradicional chinesa (incluindo acupuntura) estão inseridas numa visão diferenciada. São consideradas integrativas e complementares ao tratamento médico convencional e estão amparadas por política nacional. Em Fortaleza, parte destes serviços já está disponível na rede pública de saúde, principalmente na atenção básica. Geralmente, a pessoa interessada não precisa sequer ter um encaminhamento.
SUS
No Brasil, o acesso gratuito às práticas integrativas e complementares no Sistema Único de Saúde (SUS) cresceu nos últimos anos. Para se ter uma ideia, em 2007, foram realizados 97.240 procedimentos de acupuntura e, em 2008, foram 216.616, crescimento de 122%. “Com a institucionalização das práticas não convencionais no SUS, muitos estados e municípios tiveram suas ações fortalecidas. A Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) prioriza a promoção da saúde e promove acesso da população a práticas antes restritas a área privada“, analisa Carmem de Simoni, coordenadora da PNPIC.
Além da prevenção, promoção da saúde e recuperação, a Política propõe o cuidado continuado, humanizado e integral. São abordagens que buscam uma visão ampliada da saúde e da doença, preocupando-se com a promoção global do cuidado humano, estimulando especialmente o auto-cuidado. Tudo isso envolve uma escuta acolhedora e a integração do paciente com o meio ambiente e a sociedade.
 
Práticas holísticas para a comunidade
As práticas integrativas e populares têm o objetivo de fortalecer a humanização que a saúde precisa. As práticas levam o paciente a perceber que é também responsável pelo próprio tratamento
06 Mar 2010 – 21h30min
Foto: Iana Soares
 IaNA SOARES)
Muitas pessoas procuram o serviço de saúde e a patologia não é resolvida de forma medicamentosa. “Elas precisam, às vezes, de diálogo, atenção, cuidado, carinho. A relação das terapias integrativas com a cura está comprovada. As práticas conduzem para o fortalecimento dessa humanização que a saúde precisa“, afirma Elias José da Silva, coordenador do Programa Cirandas da Vida, do Município, responsável pela Política Nacional de Educação Popular e Saúde em Fortaleza, que promove as práticas integrativas populares de saúde.
A ideia é que as práticas holísticas estejam disponíveis não só nos consultórios privados, mas também para as pessoas da periferia. Em diferentes pontos de Fortaleza, a população tem acesso às práticas de massoterapia, argiloterapia, reiki, biodança, fitoterapia e outras. No Movimento de Saúde Mental Comunitária do Bom Jardim, tem uma oca terapêutica, que funciona anexa ao Centro de Atenção Psicossocial (Caps). “Há toda uma relação de clínica, que faz a interação da saúde mental com as práticas. E a terapia comunitária está muito envolvida no processo da saúde mental“, reforça.
Todos os Caps oferecem massoterapia, terapia comunitária, reiki. Como ele mesmo explica, as práticas têm um efeito terapêutico muito forte, até por serem culturas milenares, trazidas por nossos ancestrais. Na oca Ekobé, no Campus do Itaperi, são oferecidas práticas de massoterapia e a técnica do reiki, atendendo a comunidade acadêmica e os visitantes. Já nas ocas terapêuticas, da Granja Portugal e do Conjunto São Cristóvão, tem terapia comunitária, rodas de diálogo, vivência de biodança, farmácia viva (fitoterapia). Só para citar alguns dos locais com estes serviços.
De acordo com Elias, o orçamento aplicado hoje na política de Educação Popular e Saúde é de R$ 420 mil por ano, em Fortaleza. “Foi uma conquista que se deu em 2010, no plano plurianual. Agora temos orçamento específico para o Cirandas da vida, para o fortalecimento dessa política, que faz a medicina dialogar com a população“, afirma, acrescentando que as práticas exigem orientação.
A fitoterapia, por exemplo, não pode ocorrer apenas na visão do senso comum. Precisa haver uma interação da população com as equipes, para que esse medicamento fitoterápico gere o efeito de resolutividade do problema, da cura. “Tudo o que se toma demais pode causar danos e tudo o que se toma de menos pode não surtir o efeito desejado“, ressalta.
Com um atendimento humanizado e uma visão holística, as práticas levam o paciente a perceber que é também responsável pelo próprio tratamento. Além disso, lhe insere num contexto social. “Tem ainda o efeito da pessoa se reconhecer na sua potência, não só na fragilidade. Ela pode ser mais no seu processo de conviver em comunidade“, ressalta.
ONDE ENCONTRAR
> Na Oca Ekobé, no Campus do Itaperi da Uece, há serviços de massoterapia, reiki e biodança. Atende a comunidade acadêmica e visitantes, de segunda a sexta.
> Nas ocas terapêuticas da Granja Portugal (por trás do Centro de Saúde da Família Fernando Diógenes) e do Conjunto São Cristóvão (rua 315, nº 80), há atendimento diariamente. Tem terapia comunitária, rodas de diálogo, vivência de biodança, Farmácia Viva.
> No Movimento de Saúde Mental comunitária do Bom Jardim, também tem uma oca. Funciona anexa ao Caps (r. Bom Jesus,940).
> No projeto 4 varas (rua Profeta Isaías, 456, Pirambu), a comunidade tem uma unidade de saúde funcionando anexa, que estabelece toda uma relação com a estratégia de saúde da família, encaminhando o atendimento para a oca terapêutica.
E-Mais
> De acordo com Elias, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), do Ministério da Saúde, acaba não contemplando todas as práticas. “Em Fortaleza, nós falamos de práticas populares, em vez de complementares. A gente amplia, porque gosta de valorizar muito o saber que vem do povo, do saber popular“.
> Na prática, o Cirandas da Vida não fragmenta arte, nem educação popular, nem as práticas integrativas. “A gente faz a junção desses conhecimentos, dialogando com a gestão. Por exemplo, a gente trabalha a arte que não é utilitária, mas sim promoção de saúde“, explica.
> Em breve, será inaugurado um espaço de atendimento das práticas integrativas no Hospital Gonzaguinha do conjunto José Walter.
> Na oca Ekobé, no Campus do Itaperi, o dia começa com uma grande ciranda. Primeiro os profissionais vivenciam um momento de cuidado. Cada um, passa pela roda de cuidadores e recebe um toque, uma massagem, atenção. Ao final, recebe um abraço.
> Segundo Vera Dantas, do setor de Educação Permanente em Saúde, da Prefeitura, na história da humanidade, a cura está relacionada à espiritualidade das pessoas. Mas com o passar dos anos, começou-se a pensar nas dimensões do espírito humano e da ciência. A doença passou a ser o órgão.
> “Há um conflito entre a doença ser só o órgão e ou uma visão mais completa do corpo. Mas, na verdade, essas duas visões se complementam sem conflito“, garante Vera Dantas. 
 
Acolhimento e autoestima
06 Mar 2010 – 21h30min
O que as pessoas mais procuram na Oca Terapêutica do Conjunto São Cristóvão é a massoterapia. “Às vezes, nossas dores são resultado do cansaço, do estresse“, afirma a coordenadora, Fátima Castro. Por isso, os pacientes são orientados a participarem das outras terapias. Na oca, tem terapia comunitária, fitoterapia, argiloterapia, banho de ofurô, conversa individual e até rezadeiras. A religiosidade também é levada em conta. O local tem representante católico, evangélico e mãe de santo.
“Eu acho que, dessa forma, os pacientes se sentem mais amados, mais acolhidos e assim se descobrem, percebem que têm de se amar, elevam a autoestima“, afirma. Cerca de 70% das pessoas que procuram a oca são mulheres. Ao final do atendimento, a pessoa pode ainda receber uma muda de planta que pode ajudar no problema de saúde e já recebe a indicação de como preparar e tomar.
De acordo com Elias José da Silva, coordenador do Programa Cirandas da Vida, do Município, o grande desafio é fazer com que os profissionais das unidades de saúde assumam também o compromisso de encaminhar os usuários para o tratamento terapêutico. “Essa visão tem evoluído, mas, às vezes, a unidade tem muita gente esperando atendimento da fila por consultas e podia já encaminhar para cá, para que a pessoa receba um acompanhamento. Muitas vezes a pessoa tem necessidade de ser ouvida“, disse Elias. 
 
"Às vezes, a pessoa precisa de um abraço, apenas"
06 Mar 2010 – 21h43min
Para o coordenador geral do projeto 4 Varas, no Pirambu, Marcelo Abdala, a terapia comunitária é mais uma ferramenta do cuidado complementar do ser humano. O saber científico é tão importante quanto o saber popular, que inclui rezadeiras e raizeiras, legitimadas pela comunidade. “Aqui, a gente agrega saberes. Há a necessidade do medicamento, do remédio, mas o saber popular é milenar e também é importante“, ressalta.
Usuários dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), da Prefeitura, são encaminhados ao projeto 4 Varas. Participam das massoterapias, do resgate da autoestima e terapia comunitária. Ao lado do projeto tem um posto do Programa Saúde da Família. O espaço conta ainda com Farmácia Viva, teatro e escolinha para as crianças da comunidade, no turno em que não estão na escola. Na Oca de Saúde Comunitária tem banho com ervas, massagem com argila, rezadeira.
No projeto, o homem é compreendido como um todo, não só do ponto de vista corporal. Ele tem corpo, tem mente, espírito e faz parte de um contexto social. As técnicas utilizadas trabalham o resgate da autoestima. A terapia comunitária está relacionada ao cuidado mútuo. “Todo mundo sofre, perde, sente dor. A pessoa é acolhida em sua fala. Ninguém julga e ninguém pode dar conselho. Cada um ajuda e é ajudado contando sua própria história“.
Lá, não se cuidam as patologias, mas sim o sofrimento. Para Abdala, é importante ter estes espaços de acolhimento, valorização da vida. “O Ministério da Saúde está formando terapeutas comunitários. É uma conquista, pois você esvazia as filas dos postos, não passa só o medicamento. Às vezes, a pessoa precisa de um abraço, apenas“, argumenta.
O serviço é aberto ao público. “A gente só pede a contribuição de R$ 20 para a massoterapia que é feita junto com o resgate da autoestima. Mas se não tiver dinheiro, a pessoa não deixa de ser atendida“, garante.
 

 

 Carlus Campos)
Foto Ilustração de Carlus Campos (O POVO)
 

 

Foto ilustração: Carlus Campos (O Povo)