Trabalhadores do SUS cartografam “pontos de produção de saúde mental” na cidade de São Paulo

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É com grande alegria que damos as primeiras notícias do projeto iniciado em junho de 2016, que levou dezenas de gestores e trabalhadores do SUS paulistano a documentarem em vídeo alguns “pontos de produção de saúde mental” identificados nos territórios dessa louca cidade!

Este projeto foi desenvolvido no curso Redes de Produção de Saúde na perspectiva da Inteligência Coletiva, que fez parte do Programa de Educação Permanente Rede SAMPA (Saúde Mental Paulistana), promovido pela Secretaria Municipal de Saúde de SP.

(Veja aqui tudo que já foi publicado sobre esse importante projeto de Educação Permanente na RHS: Rede SAMPA)

 

Qual era a proposta do curso?
Mais que um curso, a proposta era produzir uma intervenção junto ao “coletivo” que se constituiu com o curso, objetivando, justamente, ativá-lo como um coletivo e potencializá-lo para ativar outros coletivos. Para isso, procurou-se gerar processos que favorecessem os encontros, as trocas e os processos criativos, que se abrissem a outros modos de se pensar e produzir a política pública de saúde mental na cidade, ampliando a potência de ação coletiva através de estratégias de rede que contribuam para a emergência de uma inteligência coletiva. A metodologia do curso foi, em grande parte, a própria metodologia “transferida” aos participantes como um ferramental de análise e de interferência na realidade concreta da rede de saúde mental paulistana.

Qual a justificativa para essa abordagem?
O tema das redes na saúde, em sentido amplo, responde a uma série de problemas que vão desde as chamadas “redes frias”, aquelas do gerenciamento formal e funcional de uma dada estrutura e/ou sistema de relações, atividades, serviços, insumos e recursos (físicos, humanos, econômico-financeiro etc.), até as dimensões relacionais e conversacionais implicadas na constituição de “redes quentes”, nas quais os conhecimentos e afetos transitam e onde, de fato, se define o que aumenta ou diminui nossa potência de ação coletiva frente a determinados objetivos e condições concretas.
Os desafios postos pela necessidade de se ativar e aquecer uma rede de produção de saúde tornam fundamental ampliar a compreensão e a capacidade de atuação nessas últimas dimensões relacionais e conversacionais. Aqui, posições, sentidos, valores, atitudes, formas de vida e de cognição inspiram e dão norte à produção e à produtividade da rede, em função de compromissos pactuados e da capacidade para gerar sinergia entre os atores e coletivos implicados. E é esse o modo de se colocar e enfrentar o problema da constituição/ativação das redes na perspectiva da Inteligência Coletiva: trata-se, fundamentalmente, do problema da ampliação da potência de ação coletiva, da potência de ação dos coletivos, da constituição de coletivos inteligentes.
Partindo-se dessa perspectiva, buscou-se instrumentalizar o coletivo de gestores e trabalhadores da Rede de Atenção à Saúde do município de São Paulo para ampliar sua capacidade de análise e intervenção nesse campo e, simultaneamente, fazê-los experimentar em ato suas potências. Isso demandou que se percorresse um caminho teórico-prático, em que novas percepções e sensibilidades se faziam necessárias, assim como uma considerável revisão conceitual, que trouxesse novos sentidos, não apenas da noção de redes, mas também do que podemos entender por saúde e produção de saúde.

Em síntese, quais eram os objetivos do curso?

Como objetivo geral:
Oferecer ferramentas teóricas e práticas sobre os modos de se cartografar e intervir para que as redes de (produção de) saúde mental paulistanas se constituam enquanto redes quentes.

Como objetivos específicos:
1 – Aumentar a capacidade de percepção e análise da dinâmica intensiva das redes, sabendo reconhecer e intervir em seus principais campos problemáticos.
2 – Cartografar itinerários urbanos, identificando os “pontos de produção de saúde mental” na cidade de São Paulo, para além daqueles próprios e específicos da RAPS.
3 – Criar estratégias de ativação de redes de produção de saúde mental na cidade articuladas às RAPS, com o apoio da RAPS.

Como aconteceu essa proposta?
O curso envolveu uma combinação de estratégias para alcançar esses objetivos, como uso de tecnologias de conversação (com destaque para o “worldcafé”), discussões conceituais, debates sobre experiências significativas no campo da saúde e várias “oficinas de mídia tática”, em que foram trabalhadas as produções de narrativas multimídias a serem difundidas nas redes sociais, com o intuito de ativarem processos mais amplos de inteligência coletiva a partir da cartografia produzida coletivamente dos pontos de produção de saúde mental na metrópole paulistana.

O curso aconteceu em duas edições:
 

A primeira ocorreu entre 01/07/2016 a 07/10/2016 e 48 participantes realizaram 28 vídeos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A segunda começou em 04/11/2016 e se encerra amanhã, 17/03/2017, e 48 participantes realizaram 15 vídeos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

96 trabalhadores  que atuam na rede muncipal de saúde de São Paulo produziram 43 vídeos que cartografam “pontos de produção de saúde mental” nos territórios da metrópole!

Para se ter uma ideia do que se produziu neste processo…

1) As duas edições do curso foram abertas com uso da estratégia do worldcafé, que permite uma rápida e prazerosa integração e intensificação das trocas e das conversas junto a um coletivo de pessoas relativamente grande. Os dois vídeos abaixo documentam os worldcafés realizados nas duas edições do curso, mostrando um pouco da dinâmica e muito da riqueza dos debates que se produziram logo nos primeiros encontros de cada edição:

Worldcafé 1 (01/07/2016)

 

Worldcafé 2 (04/11/2017)

 

Curta também o álbum de fotos dos dois worldcafés, clicando AQUI!
(Todas essas fotos maravilhosas foram clicadas pelo Robson Leandro da Silva)
 

2) Aqui a distribuição georreferenciada segundo os locais de trabalho dos participantes da primeira edição do curso. Clicando em cada “alfinetinho” do mapa, você pode saber algumas informações sobre o participante do curso e assistir ao vídeo que realizou:
 

 

Mas isso é apenas uma amostra!
Nos próximos dias, compartilharemos também os vídeo-documentários completos que registram toda a experiência das duas edições do curso e – o mais importante! – os vários registros em vídeo dos “pontos de produção de saúde mental” cartografados em Sampa, que foram produzidos pelos participantes dessa aventura!

(Veja aqui os vídeo-documentários: Documentários apresentam curso-intervenção em que trabalhadores do SUS paulistano cartografaram 43 pontos de produção de saúde mental na megacidade)

 

Para encerrar essas primeiras notícias e expressar um pouco mais o tipo de inspiração que nos guia na busca desses novos modos de se produzir saúde, duas breves citações de um filósofo e de um poeta:

“A potência de vida da multidão, no seu misto de inteligência coletiva, afetação recíproca, produção de laço, capacidade de invenção de novos desejos e novas crenças, de novas associações e novas formas de cooperação, é cada vez mais a fonte primordial de riqueza do próprio capitalismo. Uma economia imaterial que produz sobretudo informação, imagens, serviços, não pode basear-se na força física, no trabalho mecânico, no automatismo burro, na solidão compartimentada. São requisitos dos trabalhadores sua inteligência, sua imaginação, sua criatividade, sua conectividade, sua afetividade – toda uma dimensão subjetiva e extra-econômica antes relegada ao domínio exclusivamente pessoal e privado, no máximo artístico. Como diz Toni Negri, agora é alma do trabalhador que é posta para trabalhar, não mais o corpo, que apenas lhe serve de suporte. Por isso, quando trabalhamos nossa alma se cansa como um corpo, pois não há liberdade suficiente para a alma, assim como não há salário suficiente para o corpo. Em todo caso, que a alma trabalhe significa, nos termos que mencionávamos há pouco, que é a vitalidade cognitiva e afetiva que é solicitada e posta para trabalhar o que se requer de cada um é sua força de invenção, e a força-invenção dos cérebros em rede se torna tendencialmente, na economia atual, a principal fonte do valor.”

Peter Pál Pelbart,  Vida capital: ensaios de biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2003.

Sonhei num sonho
Que via uma cidade invencível diante dos ataques
De todo o resto da terra,
Sonhei que essa era a nova cidade dos Amigos,
Nada ali era maior do que a qualidade do amor robusto, que guiava todo o resto
E era visto a todo momento
Nas ações dos homens daquela cidade
E em todos os olhares e palavras.”

Walt Whitman, Folhas de relva
(poema sugerido pela participante do curso, Eliana Davini)