A arte de humanizar. HUMANIZASUS

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O texto retrata em formato de CRÔNICA a experiência de um profissional de saúde que num dia de dor, procurou seu próprio local de trabalho (serviço hospitalar) para ser atendido, porém, não foi acolhido, passou por um momento que já mais imaginaria.

Foi humilhado e decidiu escrever o que segue:

Primeira parte:

Num dia o estrelato lhe põe em voga.

Os aplausos e a luz disputam um espaço pra lhe cortejar.

Mesmo as vaias, são bem vindas. Afinal, o importante é ser sempre lembrado.

O fracasso é solitário, já dizia John Kennedy.

O sucesso é sempre coletivo, possui muitos pais.

Todos querem ser lembrados. Mesmo os que nunca existiram.

De repente, tudo o que se conectava e era aceito, é posto a prova.

Ali, só, diante de Deus e do humano, todas as técnicas apreendidas são postas em xeque.

 

Abrem-se os olhos, e se apresenta um sorriso maroto, ao mesmo tempo, voz embargada: demonstrando solicitude e dor.

Do outro lado, a esperar: olhos desconfiados, corpo rígido, armamentos a postos e uma das mãos protegendo a fortaleza, com seus portões e grilhões.

O olhar já diz o que pensa o guardião da fortaleza (- lá vem pedir.. mais um…)

 

Pois é. Mais um!

Mais um para pedir… Mais um pra dizer e outro para ouvir, do guardião do paraíso de Deus, mais um simples: -não!

 

Façamos um parêntese para compreender o relato:

Advertem os historiadores que uma maneira de entender os acontecimentos contemporâneos é conhecer o passado. Pois, a vida humana em sociedade​ é um mix de repetição com pontuais inovações e reinvenções.

Por isso, em muitas vezes, o presente remonta as estruturas do passado.

 

Seguindo este princípio, se verificava, nas histórias medievais, que forasteiros e principalmente, os doentes, percorriam muitas estradas, passavam por muitos montes, à procura de hospedaria nas abadias e monastérios, anexados aos reinos pelo clero.

A partir de Constantino, o clero, ganhou liberdade para oferecer cuidados aos cristãos e pagãos.

Os povos, por sua vez, com muitas máculas, suplicavam pelos novos conhecimentos de Galeno e da medicina de Avicena. Entretanto, faltavam locais e gente sábia e dominadora destas ciências, das artes medicinais, alquímicas ou do próprio curandeirismo, rechaçado, a época, pelo Cristianismo.

 

Os reinos possuíam grandes estruturas, que os  circundavam com fortalezas, criadas pela plebe e feitas para proteger seus habitantes de toda investida maléfica.

 

Toda fortaleza, que bem protegida, tinha seus soldados, que guardavam o reino. Os soldados e as sentinelas faziam a guarida das portarias das cidadelas, das torres e dos fortes. As cidadelas compunham o reino, total ou parcialmente, fazendo “triagens” para evitar que o mal o atingisse.

 

Quando os forasteiros e doentes – ou moribundos, como eram chamados- chegavam a estas cidades e pediam para entrar e se hospedarem, dependia dos soldados e sentinelas, conceder ou não a liberação para guarida.

 

Às vezes, para ter entrada garantida, se trocavam objetos, animais e moedas de valor. Porém​, por vezes, o não era a única resposta.

 

Em reinos mais sofisticados e organizados, havia um segundo personagem que fazia esta avaliação de liberar ou não, pelo menos, uma noite em local seco e quente.

Os que conseguiam, portanto, sortudos passariam por alquimistas ou curandeiros enquanto estavam hospedados nas estalagens ou nas abadias.

 

Este segundo personagem, era acima da guarda das cidadelas, torres e fortes. Este tinha igual valor quando comparados aos conselheiros e assistentes da corte real. Pois, afinal, havia sido treinado pela própria corte para esta função.

Tratava-se do Capitão–mor, Guardião–mor ou General do reino, entre outras denominações.

 

Pois bem, o Capitão-Mor, sem pestanejar, decidia se a dor continuaria com o doente, ou se ao menos, seria amenizada.

Quando este capitão decidia pelo não. A guarda seguia em sua proteção para​ garantir sua decisão.

 

De repente, na estória, aqui representada, um doente, ferreiro de ofício, pede clemência ao Mor da guarda.

O Capitão, com cara pálida, gélida e sem expressões, para de fronte ao plebeu, forasteiro e adoentado, fixa seus olhos vibrantes como de azeitonas pretas. Aproxima-se, cravejado. Seu pisar, anuncia pra que vem.

Todos o olham, todos o aguardam, pois, é a última esperança para entrar no reino.

Todavia, estar em sua frente já era um insulto. Quanto mais lhe requerer.

 

Chorar, sorrir, cair ou fingir. Nada! Nada atingiria seu coração pulsante de sangue, que freneticamente, faziam as veias saltarem de seu pescoço. Suas palavras se manifestavam, antes mesmo de sair da boca.

 

Os guardiões-mor e soldados, ao longo dos anos, desenvolveram a habilidade da “intransponibilidade”. Sim, era o simples fenômeno de serem instransponíveis. Nada os abalavam.

A principal hipótese era atribuída às vestimentas e armaduras que os ornavam.  Pois, utilizam muitas camadas de roupas, a primeira, era feita de malha de linho ou de algodão, depois, viam os acolchoados, por vezes, o couro, além da cota de malha de fios de aço e a própria armadura de metal. Tudo isso os protegia. Neste caso, a proteção não era só de armas reais, que contundentes poderiam feri-lo, mas, também eram intransponíveis das armas do toque humano.

Pois é, muitos soldados sofriam de “excesso de couraça”. O medo do “toque humano” fazia com que eles buscassem proteção. De certo, ninguém pode atingir o coração de outrem, afinal é um ponto letal.

 

O capitão-mor, – por nome Ater de Adrianus, cuja origem vem de Adria, onde havia muitas águas e suas praias eram de areias escuras- diante do ferreiro intruso, doente, por má sorte, se aproxima e ouve por obséquio. Mas, como catapulta manganela, o guardião estava armado e pronto para lançar projéteis contra paredes. O projétil fora o não. Atingiu de fronte o ferreiro.

O ferreiro viu cair seu sorriso, seu orgulho se fora e novamente chegou ao fracasso.

O fracasso é solitário.

 

O ferreiro, servidor, súplica e argumenta. Mas, com feudalismo exemplar, Mor diz novamente não.

Aciona sua guarda com um simples olhar, de baixo pra cima. Do centro para a direita. Os dois olhos sinalizavam à sentinela que a negativa fora dada. Poderia ser quem fosse independente de sua condição.

O veredito fora dado, não por juiz, não pelo conselho, não pelo clero, nem pela corte real. Mas, o veredito daquele capitão-mor, general, comandante da guarda. Simplesmente, simbolizava tudo e todas as coisas, órgãos e pessoas que compunham a corte real. Portanto, em nome de todas as coisas e pessoas, o seu julgo deveria ser obedecido, em nome da realeza e assim todos deviam seguir.

 

O forasteiro e doente nada podia fazer. Deveria escolher em seguir seu caminho até outro reino ou vilarejo, que pudesse ter compaixão de seu dolo? Será que haveria outro local que pudesse lhe dar guarida? E se o próximo reino viesse a emitir o mesmo veredito do primeiro?

A dúvida assombrava, deveria fazer a escolha de partir naquele instante ou se preparar, lá fora mesmo, pelo adoecimento, esperando que, ao menos, o dia não esfriasse mais, que a dor não aumentasse e a fome não apresentasse suas garras.

 

Ou …

Aguardar que dos altos céus viesse à misericórdia.

 

leia mais…   http://www.redehumanizasus.net/96105-a-arte-de-humanizar-do-ferreiro-segunda-parte

 

Continua…