Academia e Trabalho de Ponta: Casa Grande e Senzala?

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Em seu livro A Elite do Atraso, Jessé Souza nos fala do quanto repetimos em nossa sociedade a relação descrita  de forma primorosa nos escritos de Gilberto Freyre, onde a relação senhor-escravo poderia ser denominada como uma relação espírito-corpo. Onde a atual classe média tenta manter a todo custo o poder através do patrimônio do conhecimento.

Tenho me questionado se tal relação não estaria hoje se repetindo, com exceções é claro, na relação academia-trabalho de ponta, onde a distância de mantém tanto por responsabilidade dos acadêmicos quanto dos profissionais dos serviços, os quais de certa maneira acreditam que só poderiam contribuir na produção com seu corpo. Vivencio na minha prática o quanto muitos trabalhadores têm dificuldades para saírem da inércia e começarem a se questionar sobre suas práticas, sonho de Paulo Freire… Da mesma forma, noto trabalhadores do SUS por exemplo, que se questionam e querem compartilhar seus conhecimentos e se vêem discriminados tanto pela academia quanto pelos próprios colegas.

Essa relação de poder descrita anteriormente é visível inclusive nos congressos e encontros, mesmo naqueles que se propõem a diminuir a distância entre academia, trabalhadores e usuários. Isso aparece claramente nos encontros onde vemos acadêmicos que se reúnem nos auditórios da “Casa Grande” e os trabalhadores que se reúnem nas rodas de conversa da “Senzala” com pouco público acadêmico presente.

Enfim, um compartilhamento de minha angústia, mas também me dando conta que vários profissionais da academia e trabalhadores do SUS estão iniciando um processo de questionamento e busca de respostas e percebendo que as duas ‘classes” têm muito a ganhar uma com a outra.