Contribuições da antropologia para a elaboração de um cuidado para as populações indígenas

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        Olá, meu nome é Flávia, sou aluna do curso de Psicologia da instituição FISMA e do curso de Farmácia da UFSM, inspirada pela leitura do artigo Contribuições da antropologia para pensar a saúde, em consonância com a leitura do artigo que foi publicado no caderno humaniza SUS, volume 2, Saúde Indígena: Distancias que aproximam…, proponho uma reflexão acerca de alguns pontos que os textos trazem.

          Na tentativa de tornar possível a “civilização” aos povos indígenas,  órgãos como o Serviço de proteção ao Índio(SPI) é criado em 1910, é também necessário ressaltar que as populações indígenas ficaram sob a tutela das missões jesuíticas, com intuito principalmente de catequizar os índios, mas não só isso, o contato com o homem branco influenciou, sob a forma do índio ser e estar no mundo.

           Seria inocência de nossa parte pensar políticas criadas inicialmente no século XIX, que estavam de fato preocupadas com uma “minoria”, já é sabido que os homens brancos estavam mais interessados em usurpar a terra que pertenciam a esses povos, e torna-las produtivas a seus olhos do que proteger e propiciar que a cultura indígena continuasse a se desenvolver. Renato Russo, com a música Índios já havia deflagrado, de forma implícita, subjetiva e  criticado a supremacia e a imposição dos povos europeus sob povos primitivos, quando cantou: “Nos deram espelhos e vimos um mundo doente”. Citação que faz referência ao escambo, uma forma de troca realizada entre índios e homens europeus que remonta a história do Brasil. É visto que ainda nesse período questões como diversidades culturais não eram pensadas. 

         No entanto, a Antropologia Clássica já refutava a predominância do pensamento de que os colonizadores europeus tendiam a exercer uma superioridade mental e de raça na sociedade ocidental em detrimento dos povos primitivos.  Veja bem, vai ser somente no final do século XX, que surgem Conferencias Nacionais, com o propósito de repensar a saúde indígena, ancoradas pelas ciências sociais, principalmente a Antropologia e mobilizadas a partir de um cenário que se consolidava com a reforma sanitária e implantação do SUS.

         Dessa forma, uma das questões que estava em pauta na 1° Conferência Nacional de proteção à saúde indígena de 1986, diz respeito a cidades em que existia uma minoria indígena, se essas populações também seriam beneficiadas pelo sistema do SUS. Esse movimento ainda era muito insipiente e isolado eram poucos pesquisadores comprometidos com as questões da saúde indígena no país. É criado somente em 1999, O subsistema de Atenção à saúde dos povos indígenas, por meio da lei n° 9.836/99 conhecida como Lei Arouca. O qual garante acesso à atenção integral a saúde, e que abrange a diversidade social, cultural, geográfica, histórica e política. No entanto, se faz necessário refletir como é possível desenvolver um cuidado que não seja impositivo sobre os diferentes ?

Como fazer para que as disciplinas clínicas que lidam com pessoas doentes, pretendendo achar soluções para causa de seu sofrimento físico, integrem o fato da essência da pessoa humana, ir muito além de seu corpo biológico, – sendo ela um ser que pensa, imagina, simboliza, vive de afetos, e de fantasmas quanto de alimentos materiais? Como fazer com que aqueles especialistas cuja atuação se dirige aos indivíduos – seja para cura-los seja para educa-los – admitam o fato de cada pessoa ser inserida em redes, estruturas, formas de pensamento coletivas que até certo ponto marcam e orientam seu comportamento? – (Rainault, 2002 p.43)

         A antropologia ajuda nós a pensar sobre uma ótica diferente, posto que o homem para a ciência antropológica indiferente dele estar inserido em uma comunidade super desenvolvida, ou em um corpo social mais primitivo, de qualquer maneira ele tem um potencial para observar, pensar e criar a partir da relação que elabora com o mundo e com os outros.  Sendo assim, Lévi Strauss, antropólogo infere que a partir de uma análise metódica percebeu semelhança na forma como se constitui o pensamento científico e como se dá o conhecimento mítico, e que só há uma forma comum de operação da mente humana. É no mínimo interessante pensar dessa forma, mesmo que cause certo estranhamento, posto que estamos favoráveis acreditar em nossa técnica, em nosso modelo de conhecimento ao  desfazer e subestimar outras realidades.

        Ainda vai elaborar grande conhecimento acerca da cultura, podendo afirmar que o caráter de abrangência das visões dominantes geralmente está ligada a classes dominantes, ainda que as classes encontrem sempre em situação de aculturação reciproca. Bem como, partimos do pressuposto que a formação na área saúde deve estar em profundo conexão com a dimensão cultural, reconhecendo está como parte constitutiva da identidade de qualquer indivíduo.

            É possível perceber as contribuições da antropologia para produzir cuidado de forma a respeitar a cultura, o cotidiano, as crenças dos outros povos, é inegável as diferenças de contexto, que se estabelecem sobre os diferentes aspectos nas comunidades indígenas referentes a concepção de corpo, de adoecimento, de tratamento, e até mesmo de cura, contudo se faz necessário a escuta qualificada e o diálogo, o “lidar com o outro”, deixando para trás aquela forma de cuidado alicerçado em um modelo biomédico, vertical, centrado na pessoa do médico, reducionista, pois só vê as questões biológicas, negligenciado o entorno social, as vivencias, o imaginário que é próprio do ser.

            Desse modo, se faz necessário pensar a   saúde a fim de reduzir essa distância que é peculiar entre profissionais da área saúde e os indígenas, almejando construir vínculos, produzir qualidade de vida,  e que as relações engajadas em saúde promovam cada vez mais autonomia e equidade aos povos indígenas,  evidenciando a importância de  uma postura corresponsável no que concerne o espaço de cuidado, a técnica aplicada, ao se valer de outras áreas do conhecimento caracterizando a interdisciplinariedade como ferramenta diferenciada para promover reflexões sobre os diferentes desafios e dilemas relacionados a saúde  dos povos indígenas sem jamais subestimar a singularidade, e suas características socioculturais, sendo possível sempre por meio de um diálogo.

MINAYO, Maria Cecília de S. Contribuições da Antropologia para pensar e fazer saúde em, Tratado de Saúde Coletiva. São Paulo-Rio de Janeiro, 2006-2009. p. 189-218.

MENDONÇA, Sofia Beatriz. M; Saúde Indígena: Distancias que aproximam…; Disponível em:<http://redehumanizasus.net/wp-content/uploads/2017/09/Cadernos-HumanizaSUS-Volume-2-Atenc%CC%A7a%CC%83o-Ba%CC%81sica-1.pdf >

Acesso em 24 de setembro de 2018.