CORONAVÍRUS, CULTURA, MEDICALIZAÇÃO E NECROPOLÍTICA

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Uma das coisas mais complexas desse 2020 (e olha que a concorrência é grande) é dar uma visitada no desenrolar do coronavírus no mundo, a partir do Brasil. Se eu tivesse mais empatia pela humanidade, daria um ótimo tema para a tese.
Sim, esse é um textão de mais uma pessoa formada em epidemiologia e virologia pelo Facebook. Então faz sua skincare com álcool de cereais orgânicos misturado com gel de cabelo vegano e vem comigo.
O tribunal da internet já julgou como crime de lesa humanidade o indivíduo que comeu a ‘sopa de morcego’ feita com o animal comprado no mercado de Wuhan, na China. Aliás, não se sabe se por morcego ou pelo pangolin, mas provavelmente o COVID-19 vem de uma transmissão animal-humano. A partir dessa suspeita, vídeos de como chineses enlatam corpos de prisioneiros para consumo humano também chegaram ao meu whatsapp. Não sei se são os meus 38 anos, ou por ter crescido em bairros onde a cabeça do frango e do porco ficavam expostos para garantir a procedência da carne, mas cenas de violência animal não me chocam mais. Vamos nos lembrar de Alex Atalla e do Rodrigo Hilbert, sim amigues, a carne animal vem de bichos vivos que são degolados, mortos, cortados. Fim.
Fim da discussão sobre violência animal, (in)justificável a depender do ponto de vista, mas não da xenofobia que subiu a níveis alarmantes. A caça aos amarelos, que se deu pela proibição do uso de elevadores sociais em prédios de São Paulo, ou nas ruas, com pessoas fugindo para não pegar a Doença de Chinês, apareceu em relatos pela webosfera. E perpassou até mesmo posts dizendo ser castigo divino enviado pela ‘mãe natureza’ aos povos que comiam seus filhes. De fato, não era o medo da doença, voltamos ao séc. XIX e as discussões sobre o perigo amarelo no Brasil. Não se pode deixar um estranho tão exótico comandar a economia mundial sem nenhum tipo de ‘bem-feito-castigo-divino’ ou desvio moral. Afinal, a história nos lembra que quando se trata de relações comerciais interculturais, o que é diferente tem que ser aniquilado e subjugado. [E quem aqui não leu uma teoria da conspiração sobre China e Rússia estarem jogando contra a economia mundial com o COVID-19?].
Mas como o tempo é uma espiral, foi preciso um whitewashing nesse vírus para que ele se tornasse mais vírus/agente etiológico e menos condição moral de chineses-que-comem-animais-estranhos. Whitewashing é quando elementos culturais específicos são embranquecidos, pode parecer estranho, mas foi quando o vírus aterrissou na Itália, fez fechar museus e chorar a Ilze Scamparini que ele viralizou no Brasil. E deixou de ser um castigo divino, para se tornar doença.
Mas afinal, o que mudou nesse processo de whitewhasing? No caso brasileiro, Foucault deve estar se deliciando com as aventuras dos epidemiologistas e notórios saberes, mundo afora, e na circulação desse discurso no Brasil, acerca do papel do conhecimento ‘científico’ na tomada de decisão. Esse filósofo francês lembra que é na associação do conhecimento médico-sanitário com as políticas públicas que surge a medicalização das cidades. Foi quando os médicos convenceram que tinham o que dizer sobre a forma de territorialização e setorialização das cidades que o seu conhecimento foi levado a sério. Vamos lembrar que na França do séc. XVIII a urbanização surgia com o discurso sanitário, onde deveriam ser depositados os mortos, o esgoto, o açougue, o lixo entre outros espaços considerados poluídos e separá-los dos saudáveis. Diz ele que na Inglaterra no séc. XIX, na Revolução Industrial, que surge na Inglaterra uma medicina social voltada para os pobres, que não deveriam morrer, até porque o capitalismo precisava do corpo dos pobres para trabalharem para os ricos.
Ou seja, foi só quando aconteceu essa aclimatização via Itália, que a mídia começou a chamar os arautos do conhecimento médico para a cena. Ao invés de perguntarem, mas veio de comer morcego, as perguntas mudaram para, como a gente para isso? Epidemiologistas à la Isaiah Berlin discutiam em rede nacional a liberdade positiva e negativa.
Passados dois séculos, podemos afirmar que a medicina social ainda persiste com modelos híbridos de conhecimento científico, sendo muito pouco explicativo, mas causalístico-probabilístico, quando aterrissa com seres humanos e modelagens mais complexas. Onde um elemento A provavelmente deve gerar ação B, se dentro de um cenário C. Não existe ciência da saúde, a não ser enquanto um somatório de técnicas e procedimentos importados de outras ciências, como a matemática, biologia, química e ciências sociais. Basta lembrarmos do sequenciamento genético realizado em tempo recorde no Brasil, mas que diferente do laboratório da ficção do Doctor House, ele não resulta em nenhum novo medicamento momentos depois. Então, quando falamos de epidemiologia, e das porcentagens, estamos falando dessas probabilidades, que podem ou não acontecer, já que uma coisa são os dados, outras são as análises realizadas sobre eles. Mas isso pode ser discutido inclusive em outro momento, já que a epidemiologia cultural e crítica é um campo de grandes tensões.
E porque isso é importante ao caso brasileiro? Porque o Brasil tem muitos profissionais e pesquisadores que trabalham vertentes da epidemiologia, e que tem, por isso mesmo, aberto a caixa de pandora das controvérsias relacionadas a ela. Pesquisadores divergem do momento em que os procedimentos de contenção de contato devem ter início, e inclusive o que significa contenção de contato. Como bem ilustra a discussão que corre entre os diversos epidemiologistas (1) .
Importante ressaltar que a contenção de contato vem desde a discussão do impedimento de aglomeração de pessoas e suspensão de aulas, mas não do trabalho de 8 horas diárias (como ocorreu no Distrito Federal), até mesmo o impedimento da circulação de pessoas como na China e Itália.
Para quem é da epidemiologia de novas doenças e ativistas dos direitos humanos isso ressoa em discussões bem complexas. No início do HIV na ilha de Cuba o governo local teve a brilhante ideia de deixar os portadores da infecção viral morando em sanatórios, fora do contato com a população em geral (2).
O pior, e obviamente, esse tipo de restrição de locomoção conteve os casos de HIV. Mas do ponto de vista bioético traz questões seríssimas. Isso é viver ou sobreviver?
Mas porque essa tem que ser uma questão central na aclimatização do coronavírus no Brasil?
É sabido que desde 2013 o Brasil não vive seus melhores desempenhos da democracia, e o que o coronavírus em sua versão brasileira parece anunciar é mais um capítulo do projeto de necropolítica.
Poucos são os que vão se lembrar das últimas pandemias anunciadas pela Organização Mundial da Saúde, na de 2016, do Zika Vírus, que abalou o cenário internacional, mas parece não ter gerado tanta comoção. Em uma pesquisa realizada hoje são 4.100.000 resultados que surgem no Google, em pesquisas em português sobre o termo, confrontados com os 8.390.000.000 resultados sobre o coronavírus, dentro dos mesmos parâmetros.
Mas o que pode justificar a disparidade desse resultado? Ao contrário do Coronavírus, o Zika não sofreu um processo de embranquecimento, ele foi territorializado nas camadas socioeconomicamente mais baixas da população, com grande comprometimento social das crianças que nascem com microcefalia, e parecem imprimir em gerações de famílias quase uma naturalização da pobreza (3). Em outras palavras, o perigo do Zika, para a classe média, era de que o funcionário contraísse e deixasse de trabalhar. Diferente do coronavírus que vem como souvenir de uma viagem, digamos, de visita ao Trump.
E é provável que com o Coronavírus padrão semelhante possa se instalar.
O porquê? Não é preciso ser nenhum expert para saber que doenças ocasionadas por vírus que geram sintomas de gripe tem maiores agravos em pessoas com a imunidade baixa. Imunidade baixa leia-se, você tem cômodos ventilados e iluminados? Acesso a água e esgoto tratado? Alimentação ‘limpa’, pouco industrializada e sem ultraprocessados? 8 horas de sono? Não usa medicamento de uso contínuo?
Um quadro de imunidade estável pode ser observado na entrevista do secretário que trouxe o coronavírus para o Brasil, retrato de várias residências brasileiras (8).
Seu avô e avó, idoso comprometido e com doença crônica, tem quarto separado? Tem um banheiro separado? Você tem espaço para lavar todos os dias as roupas com água e sabão? Acesso a máquina de lavar roupa?
Ou como já foi discutido em outro lugar: o que vai acontecer quando o coronavírus chegar na favela? (6)
Já aparecem nas redes sociais pessoas que se perguntam: restrição de locomoção, pra quem? Auto-quarentena de quem?
A pergunta não é se serão necessárias essas ações de restrição de contato, mas quando e como.
Sobretudo como, já que como se nota com os casos de zika, o ficar em casa se cuidando significa contaminar bairros e vielas.
Como lembrei acima, via Foucault, a medicina social além de dividir os espaços urbanos, ajudou no processo de medicalização de corpos, ou seja, além de instituir o que é um espaço saudável determinou o que devemos fazer com o nosso corpo nesse espaço: trabalhar.
Lívia Zaruty, uma youtuber com quem raramente concordo, postou sua situação como moradora na Itália, as relações de trabalho são descontinuadas à medida em que se anunciam a contenção de circulação, e ela está sem emprego (4).
Por lá, assim como aqui, muitos jovens ganham seu dinheiro em trabalhos cujo contratos são precários, ou ainda, empreendedores sem nenhuma seguridade social: Uber, Rapi, Microempreendedor Individual, Pessoa Jurídica, entre outros.
Para eles, a restrição de locomoção significa renda zero. E podemos até imaginar formas de burlá-las. Mas não se esqueçam, para quem viveu em 2013, sabemos que restrição de locomoção, compulsória, para o povo, significa a institucionalização da Lei de Garantia de Ordem, LGO, e de meses sitiados pelos militares que deixavam apenas aqueles que iam trabalhar formalmente andar pelas ruas. Eram repreendidas as festas, os encontros, o riso, a vida. (7)
Então, aos que não podem trabalhar, o que resta: deixar morrer.
O Brasil teve um grande golpe em seu financiamento de saúde, logo em fevereiro, com vários secretários de saúde se perguntando onde iriam cortar recursos. Sim, a vigilância foi um dos alvos, e com isso o controle sanitário e de endemias.
Estamos no meio de um surto de dengue, que tem tradicional pico em Abril, junto com a previsão do coronavírus. O que deixa nosso primeiro semestre de 2020 ainda mais triste (5), sobretudo para quem mora em regiões ‘não saudáveis’.
O relato dos médicos italianos que precisam decidir atender um idoso ou jovem que precisam do mesmo respirador na UTI tocam nossos corações, resta saber se no Brasil, quando chegarmos nesse patamar, o mesmo dilema irá tratar todos da mesma forma, independente da raça, religião e classe social.

Se você conseguiu chegar aqui com forças para viver e com ódio para lutar lembre-se da agenda de luta individual e coletiva:

1. Não há como garantir assistência e monitoramento sem financiamento, então a derrubada da EC 95 é pauta central de qualquer um que queira chegar ao fim de 2020 sem nenhum óbito na família por conta do coronavírus.
2. O coronavírus é transmitido por gotículas, e não aerossóis, então higiene constante é muito mais eficaz do que deixar os ambientes extremamente aberto e ventilado, até porque, o vírus pode ficar sobre objetos e superfícies por dias, vivinho. Então lavar as mãos e higienizar as superfícies é importante.
https://www.paho.org/bra/index.php…
3. Se quiser desinfetar as superfícies, segue instruções em inglês https://www.cdc.gov/…/20…/prepare/cleaning-disinfection.html
4. Controle e triagem no fluxo e fronteira: só escrevi isso porque as atitudes do presidente e a autorização de cruzeiros em atracar na costa foi algo muito bizarro
5. Exija que sua empresa não suspenda o contrato de terceirizados
6. Exija o planejamento coordenado para a suspensão ou substituição de atividades
7. É possível fazer álcool 70° a partir do álcool comum, basta seguir regras básicas de química e proporção https://brasilescola.uol.com.br/…/como-fazer-alcool-70-para…
8. Cenário internacional para seguir https://experience.arcgis.com/…/685d0ace521648f8a5beeeee1b9…
9. Mapa da John Hopkins https://coronavirus.jhu.edu/map.html
10. Lembre-se mesmo uma vez ‘curado’ do coronavírus, a literatura mostra que é possível recontaminação, https://g1.globo.com/…/mulher-pega-coronavirus-pela-2a-vez-…

Referências

(1) https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51850382
https://www.facebook.com/AssociacaoProEpi/videos/838160666649703/
(2) https://brasil.elpais.com/…/internac…/1496445483_702089.html
(3) https://noticias.r7.com/…/zika-ainda-e-risco-para-gravidas-…
(4) https://www.youtube.com/watch?v=lsY6V8ze2lE
(5) https://brasil.elpais.com/…/dengue-coloca-o-brasil-na-mira-…
(6) https://projetocolabora.com.br/…/e-quando-o-coronavirus-ch…/
(7) http://g1.globo.com/…/forcas-armadas-assumem-ocupacao-de-15…
(8) https://noticias.band.uol.com.br/…/secretario-com-covid-19-…

Imagem: Novel Coronavirus SARS-CoV-2 (National Institute of Health) https://flic.kr/p/2ixANkU