Descascando batatas, desvendando o sentido do trabalho!

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As reflexões propostas por Marcelo Dias em seu post: Academia e Trabalho de Ponta: Casa Grande e Senzala?

Academia e Trabalho de Ponta: Casa Grande e Senzala?

sobre o trabalho em saúde e a reflexão sobre este fazer como produtor de conhecimento, me fez lembrar de uma vivência que conto e reconto em minha trajetória com grupos de saúde e a humanização das relações de trabalho.

Trabalhando como nutricionista e coordenando o serviço de alimentação e nutrição, certa vez me deparei com um problema corriqueiro: estragou o descascador de batatas. Isto fez com que a equipe de trabalhadores do setor de cozinha tivesse que passar a dedicar grande parte de seu tempo a descascar batatas manualmente. Isto significou ter vários sacos de batata, com 60 kilos cada, para descascar com certa frequência. Percebi então que a quantidade bruta necessária era cada vez maior, ou seja, estava havendo um grande desperdício deste alimento por causa do trabalho manual. Como a perda era mesmo muito grande resolvi realizar uma reunião com o grupo para conversarmos sobre o problema e também informá-los que as providências para o conserto do maquinário já haviam sido providenciadas. Porém, como se tratava de uma instituição pública, este seria um processo lento e sem prazo definido. Na reunião, surgiu a sugestão de adaptação do cardápio para diminuir a utilização do produto, porém ainda seguia sendo necessária uma quantidade considerável de batatas para serem descascadas. Então perguntei ao grupo: sabem para que servem as batatas no cardápio? Alguns até sabiam que preparação seria executada, mas não todo o caminho até o seu consumidor, pacientes internados no hospital e funcionários de plantão em diversos turnos de trabalho.

Resolvemos fazer um acompanhamento deste o que chamamos de pré-preparo, preparo e fornecimento da alimentação ao usuário. Cada um da equipe fez este acompanhamento um dia da semana. Ao final deste processo fizemos uma nova reunião. E cada um teve oportunidade de contar suas impressões sobre o resultado de seu trabalho. A visão do todo do processo fez com que cada trabalhador resignificasse a importância do que parecia um trabalho monótono e repetitivo. O relato mais interessante que recordo foi que a batata descascada virou sopa para a dieta de um vizinho que havia infartado e estava se recuperando na UTI. Isto foi muito impactante no grupo, pois passaram a ver o trabalho não como um amontoado de tarefas coordenadas, mas o preparo de alimentos que contribuiriam com a recuperação da saúde de muitas pessoas.

Isto nos faz pensar muito que o mundo do trabalho assume características mais afetuosas quando somos capazes de incluir as dimensões sociais e criativas em detrimento de fazê-lo mera tarefa, etapas fragmentadas.

Sempre costumava acabar por aí meu relato, até que em uma roda uma das pessoas pediu a palavra e perguntou: a pergunta que não quer calar: afinal o descascador foi consertado ou não? Depois de risos de todos, confirmei que, embora tenha demorado cerca de um mês, o descascador voltou a funcionar, e que depois desta vivência passamos a expor todas as etapas do trabalho para toda a equipe, para que cada um soubesse qual a finalidade da tarefa que estava executando. Não sei ao certo qual resultado isto teve para toda a equipe de trabalho, mas posso dizer que para mim, como nutricionista iniciante isto foi transformador.