Deus à imagem e semelhança do homem

6 votos

Considero que a teologia da maioria das religiões, especialmente as diversas interpretações das metáforas bíblicas, são ressentidas em relação a existência e rebeldes em relação a possibilidade da existência de uma entidade criadora do universo. A tentativa de antropomorfizar uma causa para o universo e enclausurar a eternidade numa sucessão infinita dos eventos vitais é uma negação daquilo que a vida é de modo evidente.

Hoje podemos observar que o fenômeno da vida é intrínseco ao devir da morte. Uma coisa não pode existir sem a outra. A forma e o modo como as partículas elementares vão interagindo e se combinando em seus movimentos no tecido do espaço-tempo exige que a vida se expanda através de sua reprodução. E sem a morte não há reprodução da vida. Mesmo o padrão dos fenômenos físicos ocorre em ciclos de início e fim.

A inatividade é essencial para arranjos persistentes das partículas elementares. Podemos fazer esses arranjos persistirem por um tempo maior, no caso do cuidado com nossa saúde. Mas, estamos destinados a uma eternidade inativa.

Não é que um Deus antropomórfico conceda a uns o gozo da eternidade e a outros a da danação eterna. O fato é que a vida afirmativa é melhor, mesmo que o destino dela seja igual ao daquelas vidas ressentidas que negam o que as evidências ensinam.

Há um limite para o que sabemos. Grande parte do cenário da existência permanece incognoscível para nossas mentes.

Mas é óbvio que nossa existência se inscreve na história de um universo de que tem cerca 15 bilhões de anos ou que é eterno, o ponto não é esse. O caso é que nossos corpos e mentes são constituídos por átomos formados pelas partículas remanescentes desse evento que é o horizonte mais distante que podemos vislumbrar.

Além disso, não sabemos qual a natureza pré existente desse universo  em que existimos. O tempo e o espaço, que são características essenciais do pensamento, da consciência e do raciocínio, só podem ser considerados, em termos de evidências, na ciência. Depois disso a filosofia e a religião podem fundamentar  todo tipo de crença independente de qualquer evidência.

Mas nem um dogma é legítimo ou absoluto, a não ser como narrativa metafórica  para a existência de um indivíduo ou de grupo de crentes. Dogma é o pilar de uma crença que independe de evidência ou método. Um dogma não tem nenhuma relação com o que costumamos chamar de verdade ou fato. No máximo, o dogma constitui-se num fato que não prova nenhum fato. Nem o próprio fato do dogma. Mas ele se fundamenta na necessidade humana de estabelecer uma explicação causal para os acontecimentos e fenômenos observáveis.

O fato é que a vida implica na interação constante. Seu fim é a passagem ao estado de não acontecimento. Portanto, que deixa de estar destinado a um final. Não para que outro estado vital se inicie. Mas sim,  para que a estabilidade de uma inoperância se eternize, pelo menos durante a existência, seja ela infinita ou não, do próprio universo.

Desse modo eu seguirei vivo no código genético de um filho, ou de qualquer outro no ser humano de minha linhagem ancestral. Essa é a parte de minha vida que compõe a vida da espécie. A pessoa que eu sou, minhas diversas identidades e características passam a eternidade no momento em que minha vida acaba.

Parece que não nos damos conta de que a nossa morte também morre conosco. Vida e morte, como processos vitais acabam simultaneamente para um indivíduo, tanto quanto para uma espécie. A partir daí as partículas elementares voltam ao ambiente.

O ser entra na eternidade da ociosidade e suas partes na estabilidade das reações de acordo com o tempo das transformações químicas. Tudo, quando o processo de viver e morrer se encerra, permanece na condição eterna dos elementos que surgiram na grande expansão – que é o horizonte visível de nossas observações e cálculos científicos a respeito da existência.

Então, a eternidade dos entes que compõem a vida fazem parte de uma condição universal, enquanto a vida é que tem se mostrado eventual e finita.

Especular sobre se existe vida após a vida, como se faz nos textos das revelações divinas, não faz sentido. É mais uma característica que consiste em se revoltar e negar a existência como a vivenciamos.

É mais simples, ainda que complexo, afirmar a vida como ela se apresenta e buscar fortalecê-la aceitando o mistério até aqui insondável do significado do espaço-tempo.

Não podemos formular um pensamento cognoscível para inatividade duradoura do ser que cessa sua vida e sua morte, sem deixar de ser um evento real que está inscrito nas profundezas do tempo cósmico, físico, biológico, da espécie humana e de cada ser humano.

Esse curso de pensamento nos liberta de uma divindade antropomórfica, sem interditar qualquer metáfora ou credo.

Para isso precisamos respeitar, sem dogmas, o mistério que a existência representa. Talvez seja interessante deixar de lado o tempo como elemento de explicação, para percebermos que o tempo está no universo e não fora dele. Para ele também ainda falta, portanto, uma definição precisa.

Devemos ter a coragem de reconhecer que o mistério deste mundo está além dos limites do espaço-tempo, além da ideia ingênua das causas e consequências e da questão do que veio primeiro.

O Deus impessoal e imanente de Espinosa está em sinergia com essas evidências científicas que citei neste texto. Por isso, não há uma religião de Espinosa.

Assim, como Nietzsche não matou Deus, mas sim percebeu que o homem estava deixando o Deus antropomórfico ser esquecido para que a ciência pudesse criar, paradoxalmente, as ferramentas tecnológicas para proporcionar a  longevidade da espécie humana ou para o seu auto extermínio.

O Deus antropomórfico, portanto, ressurge neste início de século, nas formas do neoconservadorismo e do neofascismo, como a impulsividade humana para renunciar ao desafio do mistério e realizar o fim de seu mundo como sintoma de sua renúncia a existência.

A ciência nos trouxe o perigo das mudanças climáticas, das guerras nucleares e suas diversas formas de combinação. Mas é a única ferramenta de que dispomos, ao lado da filosofia e da metafísica, para não operarmos a autodestruição da civilização e talvez da própria espécie humana.