Em cartaz: No reclame da liberdade, o novo lugar da loucura!

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MOVIMENTOS SOCIAIS EM SAÚDE E ESTRATÉGIAS DE PRODUÇÃO DE SENTIDOS:
no reclame da liberdade, o novo lugar da loucura

Autora: Wanda Luiza Peregrino do Espírito Santo

Resumo:

A presente pesquisa tem como eixo principal a análise dos materiais de divulgação do Movimento Nacional de Luta Antimanicomial, mais especificamente dos cartazes comemorativos do Dia Nacional de Luta Antimanicomial. Considerando que, no Brasil, o Movimento da Reforma Psiquiátrica surgiu na década de 1970, a partir de graves denúncias contra o sistema nacional de assistência psiquiátrica, a pesquisa incluiu cartazes que circularam desde o ano de 1978, com o propósito de compreender mudanças na produção de sentidos ocorridas a partir do II Congresso de Trabalhadores de Saúde Mental, realizado na cidade de Bauru, São Paulo, em 1987, marco histórico no qual teve início o Movimento Nacional de Luta Antimanicomial. Com base nos enunciados dos cartazes, buscamos compreender como as vozes que têm transformado as práticas e as concepções sobre a loucura organizam seu discurso e disputam sentidos no espaço público. Neste sentido, contextualizamos o momento sócio-histórico-discursivo das peças de comunicação analisadas; identificamos a relação possível entre as mudanças nos eixos de debate ao longo dos anos e as temáticas dos materiais; identificamos, compreendemos e compararmos os dispositivos de enunciação dos cartazes analisados, tendo como contraponto sua dimensão temporal e geográfica; identificamos e analisamos as disputas de sentidos entre os diferentes discursos que se manifestam nos cartazes. Como eixo teórico, optamos pela Semiologia dos Discursos Sociais, com sua premissa central de que discursos são produzidos socialmente e seu caminho metodológico, a Análise Social de Discursos. O corpus extenso de análise da pesquisa foi formado pelos materiais de divulgação sobre a Reforma Psiquiátrica brasileira. No corpus específico foram privilegiados cartazes comemorativos do Dia Nacional de Luta Antimanicomial, selecionando-se os produzidos a partir do ano de 1978 até o ano de 2013. Foram analisados documentos históricos relativos aos contextos político e institucional de sua produção e circulação. Destacamos os seguintes resultados: nos cartazes analisados, não obtivemos evidências de diferenças significativas no modo de apropriação local das diretrizes nacionais. Este foi um dos pontos de partida da pesquisa, considerando-se o âmbito nacional do movimento, que tem núcleos em todas as regiões do Brasil. Uma de nossas perguntas de pesquisa era se e como diferenças regionais produzem diferenciações no discurso antimanicomial. De um modo geral, essa hipótese não se confirmou, embora tenha sido possível observar um outro padrão de diferenciação. Nos diversos momentos históricos nos deparamos com o que é possível ser dito e o que é não dizível naquele contexto: os cartazes analisados buscam reverter um discurso cristalizado mas, apesar de sinalizarem que é necessário mudar alguma situação, os argumentos são os possíveis na sociedade de cada época. As mudanças ocorridas nos eixos de debate ao longo do tempo influíram claramente nas temáticas dos cartazes.

Palavras-chave: Reforma Psiquiátrica. Comunicação. Análise Social de Discurso.

 

 

O cartaz 13 (retratado acima) chegou para nós em resposta a um dos muitos e-mails enviados. Foi encaminhado por um trabalhador em saúde mental de Joinville com inserção nos Conselhos Municipais de Saúde e Cultura. Ele gerencia um site com enfoque no Caps III de Joinville (http://www.folhadelirio.com.br/index.php?q=_rea%20de%20atua_o) e nos conta que, no período que antecedeu o dia 18 de Maio, ocorriam embates entre a gestão municipal e os servidores públicos. Naquele momento, os servidores se encontravam em estado de greve, o que refletiu, de acordo com sua percepção, certa desarticulação dos serviços substitutivos. As circunstâncias inviabilizaram a impressão de materiais gráficos específicos. (página 122)

OBS: A autora acabou me promovendo á trabalhador de saúde mental, talvez porque nos emails trocados que temos, assinei com minha titulação acadêmica de Tecnólogo em Gestão Hospitalar, ou também por ter reconhecido como trabalhoso gerenciar a Folha de Lírio: O Jornal Virtual da Saúde Mental que nessa época possui site próprio.

No site da Rede Humaniza SUS (http://www.redehumanizasus.net/taxonomy/term/1704), encontramos registros dos acontecimentos de 2013 relacionados ao Dia Nacional de Luta Antimanicomial.

OBS: Acredito que a autora tenha conferido algumas informações sobre o Núcleo de Luta Antimanicomial de Joinville e da pesquisa dos Sujeitos em Movimentos através de uma postagem aqui da RHS (página 123):

Sujeitos em Movimentos: Uma Análise Crítica da Reforma Psiquiátrica Brasileira na Perspectiva dos Experientes

 

O cartaz de Joinville tem como enunciador o Núcleo Nise da Silveira e o seu evento é realizado sem nenhum apoio. Como nos foi explicado por e-mail o momento era de embate entre os trabalhadores de saúde mental e a Prefeitura. (página 136)

 

 

A fundação do núcleo data de 2008, realizada por entidades não governamentais, trabalhadores de saúde mental, estudantes, usuários e familiares dos serviços de saúde mental. O movimento reúne os que lutam “Por uma sociedade sem manicômios”, por um novo modo de lidar com o sofrimento psíquico e almejam a ampliação de espaços de saúde e socioculturais que acolham a diversidade. A sua bandeira de luta é “Saúde Mental: Samu sim, Polícia não!” (página 123)

 

 

O cartaz, de aparência simples e escrita confusa, sugere ser o resultado de um esforço do núcleo  para não deixar passar em branco o Dia Nacional de Luta Antimanicomial. Com base nas informações anteriores sobre a desarticulação dos serviços substitutivos ocasionados pela greve e a ordem de corte de gastos, podemos considerar que a produção procurou se adequar às condições do momento. O cartaz não tem apoio e, portanto, concluímos que foi realizado e impresso por conta própria. (página 124).

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Sugiro a leitura desta tese que traz as análises de cartazes alusivos ao movimento Antimanicomial em várias localidades do Brasil, claro que nesta postagem eu enfatizei Joinville, pois como seria diferente se é este meu lugar de fala?

Tese disponível aqui

Aproveito a amplitude da RHS para dizer á Drª Wanda, autora desta tese que os membros do Núcleo de Luta Antimanicomial Nise da Silveira de Joinville (agora inativo), gostaram do registro dessa importante parte da nossa história. E para mim particularmente foi honroso ter meu nome citado nos agradecimentos!