Eu também sou VIDA

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Fonte: https://www.ma.gov.br/cuidados-paliativos-e-geriatria-e-tema-de-capacitacao-para-profissionais-da-saude/

Clínica lotada, muitos pacientes, estes de diferentes níveis de complexidade assistencial, dois enfermeiros por turno, poucos técnicos de enfermagem, muita papelada a ser preenchida, muitos pacientes para serem encaminhados para realização de exames, hemodiálise, radioterapia, quimioterapia. Enfim, mais um dia “comum” na vida dos profissionais de saúde de um hospital que lida com pacientes de média e alta complexidade e atende suas intercorrências agudas. Do outro lado, uma pessoa, um indivíduo, com um nome, dono de uma história única, que com certeza vivencia um dos piores momentos de sua trajetória, que é um pai/mãe, filho/filha, tio/tia,avó/avô de alguém,, que agora encontra-se vivendo seus últimos dias, suas últimas horas de vida e tem uma família que chora e que nesse momento, é incapaz de entender que a morte faz parte do ciclo de vida e nem sempre existe um tratamento curativo.

Agora apenas imagine essa cena, pois ela é real e acontece bem mais do que possamos ser capazes de compreender e tente se posicionar de um lado a partir do que também acontece mais do que podemos pressupor. Você, como profissional de saúde, x pacientes para prestar assistência e, dentre eles existem pessoas com doenças tratáveis e passíveis de cura e também aqueles que inserido no panorama médico foram classificados como paliativos e que o objetivo da sua assistência é proporcionar qualidade de vida nos seus últimos momentos de vida, isto é, uma morte digna. Então, você visualiza sua escala de pacientes e decide prestar todos os cuidados para aqueles “classificados como curáveis” e deixa por último, para o final do seu plantão, os cuidados para “os não curáveis”.

Nesse momento, você não é mais o profissional, agora incorpore o papel de familiar, você é o neto (a), filho (a), esposo (a)…, está no papel de acompanhante, também está sofrendo, sabe que cedo ou tarde terá que lidar com a perda de uma pessoa amada e durante o período que você está ali do lado do seu familiar, percebe de repente que todos os pacientes que estavam ali receberam cuidados, tais como, banho no leito, higiene bucal, reposicionamento, medicação e por algum motivo, o seu familiar ainda não.

A partir do exposto é importante analisarmos o documento publicado recentemente. Em 31 de outubro de 2018 foi lançada uma resolução (nº41/2018) que dispõe sobre as diretrizes para a organização dos cuidados paliativos, isso não quer dizer que os cuidados paliativos só começariam a existir a partir daí, mas que agora teriam algo concreto para regulamentá-los no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS),no Brasil. A resolução considera cuidados paliativos como “na assistência promovida por uma equipe multidisciplinar, que objetiva a melhoria na qualidade de vida do paciente e seus familiares, diante de uma doença que ameace a vida, por meio da prevenção e do alívio do sofrimento, da identificação precoce, avaliação impecável e tratamento de dor e demais sintomas físicos, sociais, psicológicos e espirituais”.

Dessa forma, o/a profissional de saúde estaria de acordo com os princípios estabelecidos pela bioética, seguindo a linha principialista de autonomia, não-maleficência, beneficência e justiça? estaria de acordo com a resolução? estaria agindo de acordo com os seus próprios princípios? ou apenas estaria agindo assim pela sobrecarga de serviço? Nesse caso, em específico, há uma grave problemática entre crenças próprias e bioética, onde o que eu determino como quem merece mais ou menos os cuidados, ou quem é vida e quem é morte interfere nas minhas ações e, consequentemente nos direitos do recebedor de cuidados.

Portanto, trata-se de mais uma complexa discussão, dentre muitas, que surgem diariamente no meio em que é ofertada uma assistência em saúde, nesse caso, no âmbito hospitalar, sobre “quem é prioridade?”, “quem decide quem é prioridade?”, “existem recursos humanos suficientes para a demanda?”. Por isso, a importância de ter a sensibilidade de se colocar na pele do outro, tentar se imaginar no cenário.

A cena retratada acima traz a reflexão de uma residente multiprofissional que tentou se imaginar nos diferentes “personagens”, como profissional, familiar ou até mesmo paciente. Contudo, além de se perguntar”e se fosse comigo?” é necessário respeitar os direitos do indivíduo em receber cuidados e ter sua integridade resguardada até após a sua morte.