Musicoterapia, TEA e saúde mental infantil

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Cuidar da saúde mental é importante em todas as fases da vida, mas quando se fala em prevenção, deve-se destacar a importância desse cuidado desde a infância.

A infância é um período importante para o desenvolvimento humano. É uma fase repleta de mudanças, descobertas e aprendizados que influenciarão a vida adulta.

Atualmente tem se observado uma grande variedade de problemas relacionados à saúde mental infantil. Advindos do avanço tecnológico, do aumento de pesquisas, do maior acesso à informação, ou ainda dos interesses da indústria farmacêutica, diagnosticar os transtornos mentais na infância se tornou muito mais comum. Estudos internacionais indicam que entre 10% e 15% das crianças e adolescentes no mundo possuem algum tipo de problema relacionado a saúde mental. Esses transtornos se caracterizam em sua maioria pelos transtornos globais do desenvolvimento, que incluem o TEA (Transtorno do Espectro Autista) e os transtornos relacionados à conduta e comportamento, como o TDA e TDH.

Várias pesquisas têm demonstrado que a presença de transtornos mentais na infância e na adolescência implicam em prejuízos importantes para o desenvolvimento do indivíduo e para sua vida adulta.

Pensando nessa demanda, ou ainda em driblar a lógica patologizante, e medicalizante que surge muitas vezes a partir dos diagnósticos, a Musicoterapia se mostra como uma alternativa, uma modalidade de intervenção na esfera da saúde mental infantil, atuando na prevenção e promoção de saúde de todas as crianças, gerando benefícios.

A Musicoterapia é uma especialidade da área da saúde que utiliza os elementos sonoro-musicais (ritmo, melodia, harmonia) para fins terapêuticos. No contexto da saúde mental infantil, a Musicoterapia pode ser definida como:

uma técnica de terapia que recorre à música com objetivo de fomentar as potencialidades da criança, através da aplicação de métodos e técnicas específicas, que auxiliam a desinibir-se e a envolver-se socialmente, proporcionando-lhe posteriormente uma enorme abertura para novas aprendizagens. A Musicoterapia pode ser um importante veículo para a sua estimulação e integração plenas destas crianças, uma vez que desenvolve as suas competências sociais, assim como outras capacidades inerentes (Paredes, 2012, para. 1 ).

A grande maioria das crianças que possuem TEA, tem dificuldades em expressar sentimentos e interagir socialmente, o que pode causar diversos problemas emocionais e comportamentais, gerando: agressividade, agitação, intolerância, frustração, isolamento, introspecção, entre outros problemas. Nesse sentido, o aspecto criativo da prática musicoterapêutica é um ponto a se destacar, conforme salienta Brandalise (2001, apud Paredes 2012 p. 54),

A ausência de tentativas instintivas de compartilhar prazer, interesses ou realizações com outras pessoas, é de fato muitas vezes superada através das interações musicais do paciente com o terapeuta. A experiência criativa com a música cria alterações, permitindo que alguns comportamentos permanentes do sujeito se modifiquem dentro do modelo terapêutico e que por sua vez, esta experiência de mudança seja diferida para outras situações de sua vida pessoal.

A musicoterapia tem se destacado no atendimento de crianças com TEA, por facilitar a abertura de canais de comunicação, verbais e não verbais, através de experiências musicais. Diversos estudos apontam que indivíduos com TEA compreendem e expressam melhor a comunicação não verbal na presença da música (Gattino, 2012).

Uma criança dificilmente não gostará de música, já que ela está presente em todas as culturas, e os sons permeiam a vida do ser humano desde o período fetal. No entanto, crianças com TEA podem ter hipo ou hiper sensibilidade aos sons, ruídos e música. Assim, a exposição dosada e direcionada aos elementos sonoros que ocorre na Musicoterapia trazem muitos benefícios, pois fazem com que a criança consiga encontrar caminhos para se auto-regular, lidando melhor com o excesso de estímulos que pode ocorrer em muitos ambientes.

São várias as áreas da saúde que usam a música como um recurso terapêutico, principalmente com crianças, porém a Musicoterapia se destaca por ser facilitada por um profissional especializado no manejo da música em terapia, e pelo carácter lúdico, que dá espaço a outras maneiras de expressão não apenas verbais para que as crianças se sintam acolhidas e capazes de se expressar espontaneamente, sem medo de serem julgadas, ou reprimidas por não acompanharem o padrão imposto socialmente.

Os objetivos da Musicoterapia são traçados através das experiências musicais, que podem ser de improvisação, composição, audição, jogos e brincadeiras musicais, visando estimular a expressão das crianças, a criatividade evocando a imaginação, além de estimular a atenção, memória e a percepção auditiva. Quando feita em conjunto com outras crianças, proporciona a identificação e o treino de habilidades sociais, enriquecendo o processo terapêutico.

Mas antes de pensar que a Musicoterapia para a criança com TEA é necessária por tratar das suas necessidades relacionadas a disfunção sensorial, as dificuldades de comunicação e interação social, e ao desenvolvimento global como um todo, deve-se compreender que a terapia é importante para ela, assim como é para qualquer outra criança, e que o cuidado em saúde mental na infância é uma maneira de tornar a vida mais leve para o indivíduo.

Uma criança com TEA, é uma criança que rompe com os padrões da normalidade, e muitas vezes, o seu sofrimento pode estar ligado a dificuldade externa de lidar com o diferente. E se muitas vezes ela não consegue falar sobre seus sentimentos, talvez consiga cantar, dançar, tocar… se expressar, se conhecer, e se cuidar para enfrentar o mundo a sua volta.

Usar a música como recurso para cuidar da saúde mental infantil, seja para crianças com TEA, com outro diagnóstico, ou para aquelas que não tem nenhum, é uma das atribuições da Musicoterapia, que atuando preventivamente, contribuirá para que existam adultos mais seguros e equilibrados, mais  conscientes de si mesmos e do seu entorno, mais saudáveis… e porque não dizer, mais musicais também.