O bem de todo mal

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Extraído do diário de bordo do curso “Método para rir l dos maus encontros” com Luiz Fuganti da Escola Nômade de Filosofia

A existência decorre do encontro de uma totalidade intrincada e complexa. O surgimento da vida e, muito tempo depois, da humanidade é o desenlace de um movimento incessante, de uma passagem contínua que produz diferenciação no contexto de um devir abundante, inundado de virtualidade e potência.

Essa possibilidade em movimento é o que chamamos de potência de variar, de um eterno vir a ser. Em algum momento sofremos uma queda e uma redução dessa potência em nós. Ficamos desacoplados da riqueza do acontecimento. Renunciamos ao aqui e agora, perdemos o presente.

Sempre fomos lembrados da permanente presença dos maus encontros na história da nossa espécie. A falta ou excesso das chuvas, o sucesso de um predador, quando experimentamos a condição de caça, a queda de um asteroide, o avanço das águas em um tsunami, e muito mais…

Nós, trabalhadores da saúde, reiteradamente nos deparamos com a dor, com o inusitado, com a morte lenta ou súbita, inesperada e imprevisível.  A humanidade primitiva parece não ter pensado no mau como o reino do descuido, da imprudência ou da culpa. Eles não viviam sob a ilusão do controle absoluto e da hipótese do livre arbítrio. Talvez não estivessem permanentemente ocupados em julgar e culpar a tudo e a todos.

De algum modo, ao passo em que fomos, coletivamente, afastando a aleatoriedade e imprevisibilidade, através de nossa arte e tecnologia, começamos a nos ressentir da dor e a amaldiçoar os maus encontros. É muito provável que a agricultura – que nos permitiu um uso racionalizado da vida na criação de excedentes de produção e uma ampliação da dimensão do tempo – tenha iniciado a nossa perda do presente e a fuga em direção ao vazio do ideal. O problema em se abraçar o ideal em detrimento do real é que passamos a desdenhar do acontecimento.

Tudo que havia de precioso na potência de ser afetado pela dor, para usar as palavras de Espinosa, se perde num movimento em que a paixão pelo ideal esvazia o presente e o acontecimento. Uma espécie debita sua existência em um passado de incontáveis becos sem saída. Derrotas em processos de adaptação são o mais próximo que podemos identificar com uma mãe ancestral.

Esse imenso comum que integra bons e maus encontros deu lugar, desde a antiguidade,  passando pela modernidade até a contemporaneidade, a uma existência amputada, rebaixada em sua potência de existir.

Nossa ansiedade, angústia e depressão não decorrem do mal. Devem-se, antes, a nosso ressentimento para com a existência. Que é o pior uso podemos fazer dos maus encontros.

As fricções dos encontros que abominamos, como dolorosos, na verdade fazem parte de nossa potencial de distanciamento, uma face da capacidade de variar e criar. Por isso, mesmo os mais poderosos e ricos dos humanos, num mundo onde os corpos estão afastados do que podem, ainda são miseráveis em existência e acontecimentos.