Paisagem psicossocial em movimento: Apoio Matricial e Cartografia

8votos

Comecei a ler Deleuze e Guattari há pouco tempo. Sou menos que uma iniciante nessa infinidade de significados um tanto complexos. No entanto, o que desde o início me atraiu é a crítica constante ao modelo de subjetividade que tanto reiteramos na psicologia e, inclusive, fora dela. Dentre essas mudanças de modo de pensar e de fazer pensamento, no caso, a própria ciência, surge um método que acalenta o coração de qualquer pessoa que vê o mundo de forma ampla demais para ser reduzido em metodologias rígidas. A cartografia é mais do que uma maneira de pesquisar, é um olhar que abriga o mundo com toda a nossa inquietude, entendendo que ele não pode ser retido, pois todo rizoma está em constante mudança.

Foi aí, desse interesse já anterior, que me saltou aos olhos o artigo presente no caderno sobre saúde mental do HumanizaSus. O texto “Apoio Matricial: Cartografando seus Efeitos na Rede de Cuidados e no Processo de Desinstitucionalização da Loucura” conversou com minha vontade de saber sobre a cartografia aplicada e sobre processos de cuidado na psicologia da saúde. As autoras Meyrielle Belotti e Maria Cristina Campello Lavrador compartilham conosco a experiência de encontros de matriciamento que aconteceram no município de Cariacica/ES com o intuito de mapear esses encontros para analisar se os efeitos produzidos têm contribuído para a mudança de acolhimento da loucura na rede básica de atenção à saúde.

A primeira questão, portanto, é o que é matriciamento, você sabe? As pesquisadoras nos explicam que o apoio matricial (AM) é uma ferramenta de interlocução da Saúde Mental com a Atenção Básica. É através do diálogo e da horizontalidade que acontece um processo de comunicação entre os profissionais dessas duas áreas que buscam juntos compartilhar saberes e discutir casos de saúde mental presentes no território compreendido. Desse encontro surgem intervenções, o agente comunitário de saúde pode ser por como porta-voz da comunidade e são produzidas práticas de apoio aos sujeitos com sofrimento mental.

No caso proposto por Belotti e Campello (2015) que realizaram os encontros de matriciamento com as equipes, fazendo anotações no diário de campo e encarando a paisagem psicossocial como algo em movimento que se forma conforme o próprio cartógrafo mergulha na experiência e dá passagem aos afetos, foi identificada uma certa relutância das equipes de ESFs para descristalizar práticas instituídas. Presos em protocolos e pautados pela efetividade imediata, os profissionais vivem em constante tensão. Os ACS relatam através do dito e do não-dito uma carência de cuidado para eles próprios. No entanto, o AM se mostrou um dispositivo útil e importante para a reinvenção dos modelos de relação.

Em certo momento do artigo, as autoras trazem a luz o pensamento de Espinosa, filósofo influente para a obra deleuziana. O monismo de Espinosa, não é binário ou dicotômico, não separa o corpo da alma. Essa visão de unicidade, descarta o paradigma cartesiano e compreende que tudo que afeta o corpo afeta a alma, e vice-versa. O corpo, afinal, é essa junção de partículas que afeta outros corpos e é afetado por eles, desse afeto mútuo se define a individualidade do corpo. Os encontros que temos com o Outro produzem afecções, sejam elas de ações ou de paixões. As paixões são nossas “potência de agir” no mundo que nos conectam com o exterior. O que difere uma paixão triste de uma alegre é a qualidade do encontro. Quando alegre nos potencializa, quando triste nos comprime e ameaça nossa própria existência.

Dito isso, a maior potência que podemos atingir é aquela que transforma. Nos deparamos com o estranho e mudamos nossas rotas, finalmente vamos em direção a um devir. Transformar significa criar novos agenciamentos para a mesma vivência, delimitar linhas de fuga que produzem singularidades. O AM se ampara na troca para criar encontros transformadores.

REFERÊNCIAS

BELOTTI, M. ; LAVRADOR, M. C. C. . Apoio Matricial: Cartografando seus Efeitos na Rede de Cuidados e no Processo de Desinstitucionalização da Loucura. In: Liliana da Escóssia; Simone Mainieri Paulon. (Org.). Cadernos HumanizaSUS. 1ed.Brasília: Ministério da Saúde, 2015, v. 5, p. 129-146.