Quando o retorno da dor se configura num modo de ser

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Nós não conseguimos viver apenas para afirmar a vida. Não sabemos esquecer aquilo que, não tendo nos destruído, deveria apenas nos fazer mais fortes. Vivemos para atribuir valor, na forma de sentido e significado, a vida.

Sentido significa direção, finalidade. Significado trata do valor de uma trajetória já traçada na forma de uma série de acontecimentos.

Há 30 anos cuido de pessoas que sofreram traumas, abusos, torturas, injúrias, negligência e abandono.

Aprendi muito no dia a dia de cuidado intensivo, escuta e formação de vínculo e no estudo intenso e diligente das mais variadas abordagens do sofrimento psíquico intenso, agudo e crônico.

O maior e mais importante aprendizado diz respeito aos limites do que conhecemos e das muitas questões que surgem a cada nova descoberta.

A psicose pode ser definida em muitos termos teóricos e técnicos. É alvo de investigação em inúmeros campos da ciência, da psicanálise, psiquiatra, inúmeras filosofias e mesmo dos avanços recentes da neurociência. Todas oferecem uma abordagem de maior ou menor grau explicativo.

Mas a convivência permite observar os padrões a partir de uma perspectiva muito pessoal. Vi se repetir um fenômeno no curso dos atos das pessoas que tiveram a alma e o espírito quebrado pelos sofrimentos impostos ou involuntários, mas continuados.

Essas pessoas sobrevivem durante a fase ativa do sofrimento. Depois, no espaço e no tempo do cuidado, elas mergulham de formas subjetivas e objetivas na repetição do estado de amargura.

Parece que quando o ser humano está sob proteção, aliviado do fardo de forçar a si mesmo a persistir na existência, ele se dá conta do que lhe foi negado.

Então, sob cuidado e proteção, cercado de afeto e carinho, a dor retorna como uma sentença, afiada como uma adaga, para dizer: você viveu a dor e ela te define.

A saída se torna uma porta falsa que parece fazer o sofredor confrontar sua história como destino. O sofredor desaprende a experiência da alegria. Então, a própria alegria é o gatilho para um auto julgamento que afirma a sentença.

Nós podemos ajudar o sofredor psíquico intenso a ter bons momentos. Mas ainda estamos impotentes para fazer a vida ser vivida para fortalecer a vida e não para confirmar ou negar uma valoração.

Muito do que denominamos como moral é o veneno implícito em grande parte dos sofrimentos psíquicos. Ela desloca o gesto de viver para dar lugar ao ato de julgar e valorar a tudo, a todos e a si mesmo.