Capacitar para atuar humanamente

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Autores da resenha: Anne Lara de Menezes e Christiano Paulo Kloss

Caderno Humaniza SUS (2012), volume 1 – Grupo de Trabalho em Humanização: Tecendo Redes Para Superar o Sofrimento Psíquico, das psicólogas Josemari Fagundes Moura e Judete Ferrari, trazem um conjuntos de ideias sobre o atendimento humanizado ao usuário da rede SUS, com sofrimento psíquico, combatendo veemente, os hospitais psiquiátricos ou manicômios, como popularmente é conhecido.

As psicólogas destacam a valia do trabalho interdisciplinar, feito por meio de uma organização de profissionais da saúde, que qualifica e humaniza os usuários da Rede Pública de Saúde, através do Sistema Único de Saúde (SUS), promovendo o tratamento do sofrimento psíquico. Por meio de práticas que visaram a melhoria do atendimento, a qualificação e estímulo ao funcionário, além do fortalecimento de redes de serviços com vistas à participação e responsabilidade com a resolutividade e atendimento de qualidade.

O processo de humanização requer engajamento dos participantes e uma atenção especial para o processo de construção constante de inclusão das pessoas que estão situadas nestes contextos. Diz respeito a um aprimoramento dos profissionais, buscando capacitá-los e conscientizá-los da importância dos papeis que representam na transformação social. Formando redes de apoio para lidarem com as demandas do dia a dia, por meio de equipes que visem a promoção de autonomia e cidadania das pessoas ali presentes. Dessa forma, podem ir além do processo tradicional de readaptação, para uma promoção consistente da reinserção dos indivíduos para a comunidade.

As trabalhadoras e pesquisadoras mostram, durante os relatos, seu encantamento pela boa prática, apresentando um atendimento especializado que supra as necessidades dos usuários. Sustentam as bibliografias apresentadas, e o leitor facilmente se convence de que o atendimento humanizado é uma das melhores formas de tratamento, mesmo com as dificuldades expostas no percurso da pesquisa, devido a “desresponsabilização” de diversas equipes. Por isso, se fez necessário trabalhar um novo conceito de tratamento com saúde mental.

O Processo contínuo de busca por atendimento digno, qualificado, diferenciado, efetivo e resolutivo ao paciente realizado pelo Grupo de Trabalho em Humanização (GTH), é indispensável para o progresso no tratamento. Liberto de preconceitos e do artificialismo, a redução de danos se mostrou satisfatória durante o período da pesquisa. Os acompanhantes terapêuticos atuaram semanalmente, em uma escala de trinta horas com participação em capacitações. Foi disponibilizado suporte ao usuário e familiares que serviram de “ponte” com o sistema SAIS Mental, servindo como referência para articular a continuidade do tratamento.

Embora o trabalho exercido pelo GTH   não pareça ser tão original quanto aparenta ser para o grande público (pois as mesmas concepções aparecem em muitos teóricos ao longo dos anos), tem o mérito de reunir, usuários dos municípios de Alegrete, Manoel Vianna, Rosário do Sul e São Francisco de   Assis (interior do Rio Grande do Sul), na Santa Casa de Caridade de Alegrete, oriundos de uma realidade mais simples, muitas vezes vítimas dos métodos tradicionais.

O curso de humanização da atenção e gestão do SUS, foi uma tarefa que surtiu bons resultados, visando a qualificação dos profissionais e promovendo melhorias de saúde e bem-estar das pessoas. Possibilitou aos participantes, repensar as condutas exercidas nos campos de trabalho, além de instigar a busca por mudanças que podem ser implementadas e do questionamento dos conceitos que antes não eram discutidos, para fortalecer o protagonismo individual e coletivo das pessoas. Dada a importância do mesmo, é possível notar a falta de um curso como esse em outros contextos e estados, onde por vezes, a ausência de esclarecimento e diálogo (dentre outras coisas) enfraquecem as relações pessoais e afetam o curso do tratamento.

Ademais, é imprescindível que se crie espaços de escuta e reconhecimento do saber das pessoas que passam por momentos de crise, o saber “médico-científico” por vezes assume o papel principal da resolução dos problemas psicossociais, mas só ele acaba não sendo o suficiente, visto que há mais informações no contexto em que essas pessoas estão situadas do que dentro das paredes dos hospitais e, que um tratamento que se preocupe com todas essas lacunas e presta um esclarecimento profilático a comunidade, ameniza e capacita a população a lidar com muitas desavenças, ante que se tornem problemas maiores.

Referência

MOURA, Josemari Fagundes; FERRARI, Judete. Grupo de trabalho em humanização: tecendo redes para superar sofrimento psíquico. Disponível em: < http://redehumanizasus.net/wp-content/uploads/2017/09/Cadernos-HumanizaSUS-Volume-1-Formac%CC%A7a%CC%83o-e-Intervenc%CC%A7o%CC%83es-1.pdf>. p. 203-217, acesso em: 30 mar. 2018.