Saúde e Trabalho: Experiências da PNH e a Atenção Básica

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Resenha do artigo –  Saúde e Trabalho: Experiências da PNH e a Atenção Básica

Autores do artigo: Maria Elizabete Barros de Barros, Serafim Barbosa Santos Filho, Fábio Herbert da Silva, Rafael da Silveira Gomes

Autoras da resenha: Simone da Rosa, Vânia Rosso

Caderno HumanizaSUS, Atenção Básica, volume 2.    Resultado de imagem para humanização do trabalho em saúde

O Sistema Único de Saúde (SUS) propôs uma profunda transformação da assistência à saúde no Brasil, reorientando do foco da assistência, que deixa de ser a doença de um indivíduo, e passa ser a família, onde está inserida. Neste processo, a atenção básica foi se fortalecendo, em detrimento dos hospitais e prontoatendimentos, que até então, garantiam, quase que exclusivamente, o acesso aos serviços de saúde. O objeto da assistência, que deixou de ser a doença para ser a saúde e sua promoção.

Essa transformação do modelo de atenção básica à saúde tem como um de seus pontos de destaque e de fundamental importância a organização do trabalho em equipe multiprofissional e exige uma nova organização do trabalho que permita dar conta, não só da saúde dos usuários dos serviços, mas também da saúde dos trabalhadores da saúde, exigindo uma maior amplitude de saberes e diversidade de práticas, visando autonomia dos trabalhadores. Saúde do usuário e saúde do trabalhador devem ser analisados de forma articulada e indissociável.

Assim, as ações em Humanização na atenção básica se constroem a partir de alguns princípios: afirmação e ampliação da autonomia e protagonismo dos sujeitos e coletivos que constituem as equipes de profissionais e a coresponsabilidade nos processos de atenção e gestão em saúde. Visando transformar os processos de trabalho em saúde e também em espaços de valorização do potencial inventivo dos sujeitos que ali trabalham. Os trabalhadores então, não só reagem aos acontecimentos, mas criam formas de se relacionar e regras específicas de divisão do trabalho – criação que implica experimentação constante, evitando-se repetir a tarefa de forma mecânica.

A Política Nacional de Humanização (PNH) fomenta o envolvimento dos trabalhadores na construção de projetos, incentivando a multiplicação de diferentes movimentos e rodas, fortalecendo redes. Então, promover saúde no trabalho na atenção básica é aprimorar a capacidade de compreender e analisar o trabalho de forma a fazer circular a palavra, criando espaços de debates coletivos nas equipes. A meta é afirmar o valor de uso do trabalho em saúde, o trabalho vivo, e reafirmar a potência criadora dos trabalhadores, visando transformação dos processos de trabalho e produzir saúde.

As principais linhas de ação no âmbito da PNH se direcionam no campo do apoio institucional às Unidades Básicas, buscando afirmar a atuação protagônica dos trabalhadores, não somente na análise e intervenção dos seus processos de trabalho, mas também na produção e/ou ressignificação do conhecimento sobre seu trabalho.

Como política pública a PNH é uma política aberta, em construção cotidiana pelos seus autores–atores, convocando os trabalhadores a construir novas formas de produzir intervenções. O diálogo entre diferentes saberes e práticas que subsidiam e orientam o trabalho em equipes multidiciplinares.

No HumanizaSUS busca-se interferir nos processos de gestão do trabalho, trazer ao centro da cena não apenas o trabalhador ou sua categoria, mas as relações que estabelecem com o processo produtivo.

Esse processo se faz a partir de diálogos com os diferentes regimes de saberes de forma a produzir intercessão nos campos disciplinares. O eixo que privilegia-se é a valorização da demandas e dos conhecimentos advindos da experiência, considerando-se a participação dos trabalhadores indispensável. Neste contexto, o  HumanizaSUS procura produzir um debate entre o saber acadêmico e o saber da experiência.

O Programa de Formação em Saúde e Trabalho (PFST) tem como eixo a democratização das relações de trabalho, visando colocar em análise as condições e organização do trabalho de forma a instituir novos modos de ser trabalhador da saúde.

Os dispositivos da PNH,  perspectivam fazer alianças com as possibilidades ilimitadas dos trabalhadores de criarem e recriarem suas próprias relações, o que não significa ignorar a situação de precarização das relações de trabalho no contemporâneo.

Toma-se a ampliação do poder de ação do trabalhador como principal objetivo do método de trabalho no HumanizaSUS, a produção de sujeitos capazes de construir estratégias para enfrentar as situações que se colocam no concreto das experiências das unidades de saúde, confrontando-as com sua própria experiência com a de outros que desempenham as mesmas tarefas, desenvolvendo e exercitando competências. E nesta perspectiva, o principal analista da atividade de trabalho é o próprio trabalhador, e não um especialista, que deve se oferecer apenas como um apoio ao deslocamento do trabalhador para o lugar de analista de sua atividade.

O objetivo da PNH, é fazer investigações sobre os efeitos do trabalho na saúde, uma vez que o mesmo trabalho pode inscrever-se como construção ou destruição da saúde. É preciso fazer análise do trabalho a partir da experiência do trabalho e não do seu resultado. Uma ênfase avaliativo-analítica nesse sentido implica e requer dar visibilidade à dinâmica de renovação das práticas, atos e atitudes nos processos e relações de trabalho, que se dá simultaneamente à transformação dos próprios sujeitos.

A eficácia do sistema de saúde deve se basear no trabalho de cada um, na inteligência e paixão dos trabalhadores quando interpretam as situações que se impõem e não na obediência cega às ordens. Simultaneamente ao investimento na transformação-melhoria das práticas sanitárias e atendimento aos usuários, postula-se também o investimento na transformação dos processos, relações e ambientes de trabalho, visando à promoção da saúde dos trabalhadores.

O PFST vislumbra os momentos de criação, construção e aprendizagem no coletivo e, também, analisando os aspectos geradores de sofrimento, desgaste e adoecimento. Tem como método a participação de cada trabalhador que deverá se tornar multiplicador do processo de formação. Os processos de produção de saúde é algo vinculado à potência do ser humano em atender ao desafio de criar e recriar normas que lhe permitam melhor lidar com um meio que a todo instante se transforma, apresentando sempre desafios com os quais se devem lidar.