Debatendo Charlie Hebdo, tabu e laicidade com Flávio Aguiar
Há pouco espaço para aumentar as liberdades laicas aqui em nosso país e na Europa.
Somente com o diálogo e governantes interessados poderíamos progredir na questão.
De qualquer maneira sabe-se que lá já houve muito mais avanços do que aqui.
Escrevi no post anterior sobre o tema:
Muito foi e ainda será escrito sobre os assassinatos de Paris.
E quem escreve se depara com uma questão complexa, multifacetada, multicausal.
E com inúmeras consequências possíveis e imprevisíveis.
Seria bom que uma das consequências fosse o aumento dos debates sobre a laicidade.
Como pretendo continuar agora com o amigo, colunista e escritor Flávio Aguiar.
Em função de um comentário que fiz sobre o tema no seu post:
O terrorismo, a extrema-direita e o suicídio europeu, um continente em explosão
Ele utilizou meu questionamento para escrever:
O Charlie Hebdo, o Islã, os preconceitos discriminatórios e o Estado laico
De início ao fim ele escreve, também, como um bom psiquiatra.
A verdade é que nascemos imaturos a nossa educação vai ou não nos ajudar a amadurecer.
E faz parte do amadurecimento a aceitação do outro, do diferente.
E este processo nem sempre ocorre de forma homogênea.
E é nessas “ilhas” imaturas que conservamos os preconceitos.
E quando não lidamos bem com isto podemos nos deparar com uma Conduta Discriminatória.
Neste trecho do texto, parece que o discriminador e o inimigo do estado laico tem as mesmas características.
E está é uma ideia que defendo há um bom tempo.
Conheço uma pesquisa feita na Alemanha que serviu como reforço desta hipótese.
E talvez o Flávio pudesse entrevistar os autores da mesma.
Sabemos que o proselitismo é uma das características das religiões monoteístas.
Penso que a ostentação pública de seus símbolos religiosos é uma questão delicada.
Mas passa do limite se a motivação é hostilizar o estado laico ou a implantação de uma teocracia.
Como a Suíça interpretou e proibiu a construção de minaretes em 2009.
Mesmo liberando a construção de mesquitas e prática religiosa nas mesmas. É como se os minaretes invadissem o espaço laico.
Ao que parece, na Europa, dentre os monoteístas, os muçulmanos é que tem o estereótipo de teocratas.
E isto acaba sendo reforçado no texto abaixo:
“Eu não sou Charlie. Sou Maomé. É impossível ser os dois”
Por que não quebrar o tabu e colocar a laicidade como uma terceira opção tão importante quanto?
Talvez lá, como aqui, a questão não seja esclarecida/debatida de forma aberta e transparente.
Quando muito discute-se sobre os símbolos religiosos em repartições públicas ou os que as pessoas fazem questão de ostentar.
Se o debate do tema não fosse tabu poderíamos descobrir quando os símbolos são apenas símbolos.
Ou se seriam um tentativa de ataque/desafio/provocação à laicidade do país.
Israel: felizmente há muita oposição dentro e fora do país para evitar mais um estado teocrático no Oriente Médio.
Fonte https://saudepublicada.sul21.com.br/
Data: 16/01/15
Por Telmo Kiguel
Flavio Aguiar em 16 de janeiro de 2015 às 15:39 disse:
Muito interessante o texto e o debate. Envie as coordenadas do pessoal mencionado que eu procurarei por aqui. O tema dos minaretes me parece também interessante. Tanto quanto chocante. A justificativa da proibição dos minaretes é a de que “eles” não pertencem à “nossa” cultura.Ou pelo menos à “nossa”cultura urbana. “Nossa” de quem, cara pálida? Bem, neste caminho, deveríamos proibir os algarismos arábicos. Pelo menos o zero, que foi criado pelos árabes e indianos. É tão estranho à “nossa” cultura que no calendário cristão não existe o ano zero. Jesus Cristo nasceu direto no ano 1. No tempo em que o matemático cristão sistematizou o calendário, ainda não havia zero no Ocidente. Por isto nossos novos séculos e milênios começam no ano que traz o algarismo um, como 2001, nãio nos que terminam na série de zeros, como 2000. Este terminou o século XX, não deu começo ao XXI, apesar do charme do triple zero. Também não saberíamos o que fazer com os campanários das igrejas, nem com os mosaicos, já que o cristianismo proliferou primeiro entre os semitas do Oriente Médio, depois no norte da África, antes de naturalizer-se romano. Zizek, o filósofo esloveno naturalizado paulista pela Boitempo Editorial, lançou uma consideração muito importante. Os terroristas do Charlie Hebdo se tornaram terroristas porque internalizaram o preconceito ocidental segundo o qual eles seriam “de fato” inferiores. Assim a única resposta possível é a violência. Que nada tem de gratuita, e tudo tem de planejada, tanto quanto é possível dizer que uma premeditação possa caber no termo “planejamento”.
O que você, Telmo, acha?