Saúde Mental e Vivência no CAPS: Cuidado, Afeto e Liberdade

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Saúde Mental e Vivência no CAPS: Cuidado, Afeto e Liberdade

Meu nome é Ana Carolina Lana, sou acadêmica de medicina da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) no estágio de Saúde Mental do internato. Esse relato visa compartilhar minhas experiências ao conhecer e acompanhar o funcionamento do CAPS – Casa Verde, um centro de atenção psicossocial voltado ao público adulto localizado no bairro da Pitanguinha, em Maceió, Alagoas.

Iniciei minhas visitas ao CAPS – Casa Verde após um período do estágio em que acompanhei pacientes hospitalizados em enfermaria de um hospital psiquiátrico, então, a diferença inicial foi gritante. As diferentes visões da equipe multiprofissional perante “paciente” e “usuário” logo mostraram o cuidado desenvolvido naquele espaço. No Casa Verde, pude conhecer diferentes grupos comandados pela equipe de enfermagem e em parceria com educadores físicos e o que logo se destacou para mim foi o acolhimento promovido por aqueles que comandavam os grupos e o interesse dos usuários pelas atividades. A presença de grupos de educação em saúde, atividade física, autocuidado, dança e rodas de conversa, além da disponibilidade de livros e jogos, revela-se uma importante ferramenta para o cuidado e bem-estar dos usuários. Pude ver também como é organizado o acompanhamento das medicações pela equipe de enfermagem e farmácia, bem como a tentativa de trazer o protagonismo do tratamento para o indivíduo, com informação e conhecimento compartilhados para promoção de autonomia e melhor adesão.

Um ponto que chamou minha atenção, com certeza, foi o espaço de convivência criado no CAPS. Os relatos de usuários que são acompanhados naquele ambiente há anos e escolhem voltar semanalmente, a adesão às atividades em grupo e os relacionamentos desenvolvidos entre todos os presentes deixaram claro o meio acolhedor e receptivo criado ali. Lá me foi explicado também sobre as expectativas da relação entre CAPS e usuários, de modo que seja um ambiente com o suporte suficiente para acolher e integrar cuidado, mas também, que não se torne um ponto de dependência, visando sempre o reganho de autonomia por parte dos indivíduos, bem como seu protagonismo na trajetória de saúde mental. Assim, em minha visão, o CAPS serve como uma rede que tenta unir o afeto, conhecimento, cuidado, tratamento e autonomia centralizados no indivíduo, em contrapartida a modelos com foco no diagnóstico.Junto a minha dupla do estágio, Murilo, aproveitamos que o período de sexta-feira à tarde normalmente apresenta grande adesão por parte dos usuários para desenvolvermos a nossa atividade com o grupo. Assim, antes de iniciar o grupo de dança do CAPS, promovemos um encontro de Educação em Saúde para conversarmos sobre Movimento do Corpo e Atividade Física. Pensamos em desenvolver um encontro sobre essa temática visto a grande animação dos usuários perante o grupo de dança, o recente início do grupo de exercício funcional às segundas-feiras e a importância da atividade física para usuários com comorbidades, como diabetes mellitus e hipertensão.

Assim, durante nosso encontro, promovemos um momento de relaxamento com alongamento e exercícios de respiração, além de conversarmos sobre como movimentamos nosso corpo no cotidiano. Foi compartilhado também as práticas esportivas desenvolvidas por cada indivíduo, bem como o que acham dos grupos de dança e funcional desenvolvidos pela equipe do CAPS, com expectativas de engajamento por parte dos usuários. Por fim, relembramos brincadeiras que os usuários gostavam na época da infância, como futebol, amarelinha, elástico, queimado e demais jogos de rua que eram praticados em grupos de amigos e, mesmo sem perceber, representam uma forma de atividade física proveitosa, de modo a ilustrar que movimentar nosso corpo pode ser feito de forma prazerosa e divertida. Com isso, nossa ação teve como objetivo trazer a ideia de que movimentar o corpo é fundamental para nossa saúde física e mental, além de ser um momento de pausa na correria do dia-a-dia, bem como uma forma de autocuidado e busca de bem-estar.

Após conhecer melhor o trabalho desenvolvido pelo CAPS-Casa Verde, posso afirmar que pude ver como funciona na prática o cuidado em liberdade com pacientes psiquiátricos. As visitas e participações nos grupos foram momentos enriquecedores que me permitiram reafirmar noções de que o cuidado coletivo, as relações interpessoais entre usuários e os laços desenvolvidos com a equipe são fatores fundamentais para uma rede que seja capaz de promover bem-estar. É claro que a realidade e as questões sociais que permeiam cada indivíduo afetam a trajetória de saúde-doença, no entanto, passo a entender o CAPS como uma ferramenta importante que atua nesse cenário em frente aos desafios que ainda persistem para pessoas convivendo com doenças psiquiátricas.