Movimentar o corpo como terapia e Grupo família garantindo Cidadania: Experiência acadêmica no CAPSi
Meu nome é Fernanda Lamenha Ferreira, estudante do nono período do curso de Medicina da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Durante o estágio de Saúde Mental do Internato Médico, tive a oportunidade de vivenciar atividades no Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi) Dr. Luiz da Rocha Cerqueira. Essa experiência representou um importante momento de aprendizado, não apenas sobre os aspectos clínicos relacionados à saúde mental de crianças e adolescentes, mas também sobre o papel transformador das práticas terapêuticas coletivas na promoção da saúde, da cidadania e da inclusão social das famílias atendidas pelo serviço.
Ao longo do estágio, foi possível compreender que o cuidado em saúde mental ultrapassa os limites do atendimento individualizado e exige uma abordagem integral, interdisciplinar e humanizada. Nesse contexto, o CAPSi se mostrou um espaço de acolhimento, escuta e construção de vínculos, onde usuários e familiares são reconhecidos como protagonistas do processo terapêutico. A convivência com profissionais de diferentes áreas permitiu observar a importância do trabalho em equipe para a elaboração de estratégias de cuidado capazes de atender às necessidades biopsicossociais dos pacientes e de seus familiares.
Entre as atividades desenvolvidas, as terapias em família se destacaram como ferramentas fundamentais para a educação em saúde e para o fortalecimento da cidadania. Esses encontros proporcionavam momentos de diálogo, compartilhamento de experiências e troca de conhecimentos entre os familiares e a equipe multiprofissional. Por meio das discussões, os participantes eram orientados sobre aspectos relacionados ao desenvolvimento infantil, manejo de comportamentos, adesão ao tratamento e direitos sociais, favorecendo uma maior compreensão sobre as condições de saúde mental e reduzindo estigmas frequentemente associados a esses transtornos.
Além da transmissão de informações, as terapias familiares possibilitavam a construção de uma rede de apoio entre os próprios participantes. Ao perceberem que outras famílias enfrentavam desafios semelhantes, muitos cuidadores demonstravam sentimentos de acolhimento e pertencimento. Essa troca de vivências fortalecia a autonomia das famílias e contribuía para o desenvolvimento de habilidades que lhes permitiam participar de forma mais ativa das decisões relacionadas ao cuidado de seus filhos. Dessa maneira, a educação em saúde ocorria de forma dialógica e participativa, promovendo o empoderamento dos usuários e de seus familiares.
Outro aspecto relevante observado foi a contribuição dessas atividades para a promoção da cidadania. Ao discutir direitos, acesso aos serviços públicos, inclusão escolar e participação social, as terapias familiares auxiliavam as famílias a reconhecerem seu papel como sujeitos de direitos. Muitas vezes, o sofrimento psíquico e as dificuldades enfrentadas pelos usuários acabam gerando isolamento social e exclusão. Nesse sentido, o trabalho desenvolvido pelo CAPSi atua como instrumento de inclusão, fortalecendo o exercício da cidadania e estimulando a participação ativa das famílias na comunidade.
Também merecem destaque as atividades terapêuticas baseadas na movimentação do corpo e na prática de exercícios físicos. Durante o estágio, foi possível observar como essas intervenções vão muito além dos benefícios fisiológicos tradicionalmente associados à atividade física. As dinâmicas corporais, jogos cooperativos e exercícios em grupo constituíam importantes recursos terapêuticos para o desenvolvimento de competências socioemocionais essenciais para crianças e adolescentes.
Essas atividades favoreciam o desenvolvimento da liderança, uma vez que muitos participantes eram incentivados a assumir responsabilidades, conduzir tarefas e auxiliar colegas durante as dinâmicas. Ao mesmo tempo, estimulavam o trabalho em equipe, pois exigiam cooperação, respeito às diferenças e busca conjunta por objetivos comuns. A vivência prática desses valores permitia que os usuários desenvolvessem habilidades que poderiam ser transferidas para outros contextos de sua vida, como a escola, a família e os grupos sociais dos quais participam.
A comunicação também era amplamente trabalhada durante as atividades corporais. Por meio dos jogos e exercícios, os participantes precisavam expressar ideias, ouvir orientações, dialogar com colegas e resolver situações em conjunto. Essas experiências favoreciam o aprimoramento das habilidades comunicativas e contribuíam para a construção de relações interpessoais mais saudáveis. Para muitas crianças e adolescentes acompanhados pelo serviço, que frequentemente apresentam dificuldades de interação social, essas oportunidades representavam importantes momentos de aprendizagem e desenvolvimento.
Outro benefício observado foi o fortalecimento da autoestima. Ao conseguirem realizar atividades, superar desafios e perceber sua evolução ao longo do tempo, os usuários demonstravam maior confiança em suas capacidades. O reconhecimento de suas conquistas pelos profissionais e pelos colegas reforçava sentimentos de competência e valorização pessoal, elementos fundamentais para o bem-estar emocional e para a construção de uma identidade positiva.
Além disso, as práticas corporais mostraram-se relevantes para o desenvolvimento do autocontrole e da regulação emocional. Durante as atividades, os participantes eram constantemente estimulados a lidar com frustrações, respeitar limites, controlar impulsos e administrar emoções como ansiedade, medo e irritação. Essas experiências favoreciam a aquisição de estratégias mais adaptativas para o enfrentamento de situações desafiadoras, contribuindo para uma melhor qualidade de vida e para o fortalecimento da saúde mental.
A experiência vivenciada no CAPSi Dr. Luiz da Rocha Cerqueira permitiu compreender, de forma concreta, os princípios da atenção psicossocial e a importância das práticas terapêuticas coletivas na promoção da saúde mental. As terapias familiares demonstraram ser poderosos instrumentos de educação em saúde, fortalecimento de vínculos e promoção da cidadania, enquanto as atividades baseadas na movimentação do corpo evidenciaram seu potencial para o desenvolvimento de habilidades sociais, emocionais e comportamentais. Dessa forma, o estágio contribuiu significativamente para minha formação médica, ampliando minha compreensão sobre o cuidado integral em saúde mental e reforçando a importância de práticas humanizadas, interdisciplinares e centradas nas necessidades dos usuários e de suas famílias.
Por Sérgio Aragaki
Fernanda,
Muito importante o seu relato. Mostra que, mesmo com um estágio tão curto no CAPS muito do cuidado propiciado no local pode ser acessado, compreendido, aprendido.
É fundamental isso que você destaca: para o trabalho com crianças e adolescentes é imprescindível também um trabalho junto às famílias.
Saberem que têm direitos reconhece e age no sentido da efetivação da cidadania, mesmo com tantos entraves para que isso ocorra.
Continuamos na Luta Antimanicomial.
AbraSUS!