Quarta-feira à tarde: Relato do meu estágio no CAPS

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Meu nome é Adhna Lira, sou estudante do Internato em Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Alagoas. Neste relato, compartilho algumas das experiências e reflexões construídas durante o meu estágio no CAPS Dr. Rostan Silvestre, localizado no bairro da Jatiúca, em Maceió, Alagoas.

 

Antes de passar pelo CAPS, eu já conhecia, pelo menos de nome, o funcionamento de um Centro de Atenção Psicossocial. Já tinha uma ideia geral de que ali eram realizadas consultas, acompanhamento psiquiátrico, grupos e algumas atividades terapêuticas. Era, porém, um conhecimento bastante superficial. Eu sabia o que era o CAPS, mas não sabia exatamente quem eram as pessoas que estavam ali. Eu me perguntava: “Que tipo de pessoa tem tempo livre numa quarta-feira à tarde para ir a um grupo dde meditação?”. Hoje, a pergunta me parece quase absurda, mas foi justamente convivendo com aquelas pessoas que percebi o quanto ela carregava de preconceito, ainda que inconsciente.

Na primeira semana do rodízio de CAPS e emergência, comecei pela emergência psiquiátrica do Hospital Escola Portugal Ramalho. Logo nos primeiros momentos, uma paciente que seria internada voluntariamente perguntou à médica: “Dra., eu não vou pro SOP, né?”. Eu não sabia o que era SOP e tampouco entendia por que ela estava tão preocupada em não ir para lá. Pouco depois, descobri que sua preocupação era estar em um ambiente em que os pacientes ficavam contidos fisicamente na maca.

Eu ainda estava começando a conhecer a psiquiatria e, naquele momento, percebi uma contradição que talvez seja uma das mais difíceis de compreender nessa área: um lugar pode existir para cuidar e, ao mesmo tempo, ser vivenciado pelo paciente como um lugar do qual ele precisa se proteger. A contenção pode ser necessária em determinadas situações de risco, mas ouvir o medo de uma paciente diante dessa possibilidade me fez perceber que segurança e cuidado não podem ser pensados apenas do ponto de vista de quem presta assistência. É preciso também compreender como aquele cuidado é experimentado por quem o recebe.

Depois disso, fui para o CAPS. Eu não sabia exatamente o que esperar, a estrutura ainda estava retomando algumas atividades gradualmente após episódios de furto, então a experiência não correspondia necessariamente à imagem que eu tinha. E talvez isso tenha sido importante também: percebi que o cuidado em saúde mental não acontece em condições perfeitas, ele acontece dentro das possibilidades concretas que existem, com limitações de estrutura, de recursos, de equipe e de funcionamento, mas também com muita criatividade e esforço para manter o serviço vivo.

No primeiro acolhimento, uma das primeiras coisas que me chamou atenção foi a forma como os pacientes chegavam naquele espaço. Não era simplesmente alguém entrando em um serviço para “ser atendido”. Havia histórias que já começavam antes da porta de entrada, pessoas que chegavam acompanhadas por familiares, algumas sozinhas, algumas desconfiadas, algumas muito falantes, outras praticamente sem conseguir falar sobre o que estava acontecendo. E, antes de qualquer diagnóstico ou prescrição, era necessário entender por que aquela pessoa estava ali e o que havia acontecido para que ela chegasse naquele ponto. Escutar não é apenas uma etapa anterior ao atendimento, escutar é parte do próprio tratamento.

Aprendi também que o paciente não chega ao CAPS apenas com uma doença. Ele chega com uma história. E essa história frequentemente envolve perdas, conflitos familiares, desemprego, abandono, pobreza, violência, uso de substâncias, rompimento de vínculos e uma sucessão de situações em que sua condição de saúde mental passou a ocupar o lugar de toda a sua identidade.

Uma das coisas que mais me marcou foi perceber a importância das atividades coletivas. No começo, eu poderia facilmente ter enxergado um grupo de meditação, alongamento, horta, artesanato, auriculoterapia ou outra atividade como algo secundário diante de uma consulta médica ou de uma prescrição. Ao longo do estágio, passei a entender que essas atividades também produzem cuidado. Elas criam rotina, vínculo, autonomia e pertencimento. Permitem que o paciente seja visto fazendo alguma coisa, e não apenas sendo avaliado por seus sintomas.

Foi aí que finalmente encontrei a resposta para a minha antiga pergunta: que tipo de pessoa vai a um grupo de meditação numa quarta-feira à tarde?

Pessoas que, muitas vezes, foram abandonadas pela família, perderam parte do seu círculo social, passaram anos sendo vistas apenas através do diagnóstico e, em diferentes momentos de suas vidas, foram ignoradas pelo Estado e pela própria sociedade. Pessoas que ainda querem conversar, aprender alguma coisa, fazer uma atividade, cuidar da aparência, rir de alguma coisa, reclamar de alguma coisa, fazer planos e simplesmente passar algumas horas em um lugar onde são esperadas.

Essa percepção mudou também a forma como passei a enxergar a autonomia. No ambiente hospitalar, estamos muito acostumados a pensar em termos de doença, risco, conduta e resolução. No CAPS, aprendi que nem sempre o objetivo é “resolver” uma pessoa ou eliminar completamente um sintoma, o objetivo principal é ajudar aquela pessoa a construir uma vida possível apesar da doença. Isso pode significar retomar uma atividade, reconstruir um vínculo familiar, conseguir sair de casa sozinha ou simplesmente ter um compromisso para cumprir na quarta-feira seguinte. Para algumas pessoas, aquele grupo poderia representar uma das poucas oportunidades da semana de sair de casa, conversar com alguém, ser reconhecida pelo próprio nome e ocupar um espaço em que sua existência não estivesse resumida ao seu diagnóstico.

O diagnóstico explica algumas coisas, mas nunca explica uma pessoa inteira. Conhecer alguém como “esquizofrênico”, “bipolar” ou “dependente químico” pode ser útil clinicamente, mas torna-se perigoso quando o diagnóstico passa a ser a principal maneira pela qual enxergamos aquele indivíduo. Eu pude observar pessoas com diagnósticos semelhantes apresentando histórias, personalidades, capacidades e necessidades completamente diferentes.

Também passei a compreender melhor a importância do vínculo. Uma consulta pode ter uma boa prescrição e ainda assim fracassar se o paciente não confia em quem está diante dele. No CAPS, o cuidado acontece ao longo do tempo e envolve profissionais diferentes, atividades diferentes e, principalmente, relações. O paciente precisa encontrar naquele serviço algum grau de continuidade e previsibilidade. Cuidar de alguém não é apenas fazer alguma coisa por essa pessoa, é também construir um espaço no qual ela consiga participar do próprio cuidado.

Ao final do estágio, percebi que minha ideia inicial sobre quem frequentaria um CAPS dizia muito mais sobre a minha própria ignorância do que sobre os pacientes. Eu imaginava pessoas que tinham tempo livre de sobra e passei a enxergar pessoas que estavam tentando reconstruir uma rotina, talvez a vida. Aprendi a olhar um pouco mais devagar. A perguntar antes de concluir. A entender que aquilo que parece pequeno para quem está de fora pode ser enorme para quem está vivendo aquela realidade. Aprendi que saúde não se resume à ausência de sintomas e que cuidado não se resume à consulta, ao diagnóstico ou à medicação. Antes de serem pacientes, aquelas pessoas continuam sendo pessoas. Com histórias, preferências, vínculos, frustrações, capacidades, desejos e contradições. Pode ser uma conclusão simples, mas acredito que seja uma das coisas mais importantes que levarei comigo.