Relato de Experiência no Caps Dr. Rostan Silvestre – Um olhar sobre a saúde mental

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Meu nome é Bianca Meotti dos Santos, sou interna de Medicina da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e, neste relato, compartilho minhas experiências no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Dr. Rostan Silvestre. Essa vivência foi importante para minha formação acadêmica e pessoal, permitindo-me conhecer melhor o funcionamento do serviço e refletir sobre o cuidado em saúde mental e a importância das relações humanas.

Espaço interno do Caps dr. Rostan Silvestre, destinado ao acolhimento, a práticas e ao cuidado em saúde mental

Desde o primeiro dia, fui muito bem recebida pelos profissionais, que me apresentaram o ambiente e compartilharam informações sobre a rotina do serviço. Logo no início, acompanhei uma roda de apresentação sobre bordados, na qual conheci um livro com trabalhos produzidos por mulheres usuárias de outro CAPS. A atividade me chamou a atenção por mostrar como o artesanato pode expressar sentimentos, compartilhar histórias e aproximar pessoas por meio de uma produção coletiva.

Ainda naquela tarde, participei de uma visita domiciliar, experiência que me permitiu conhecer outra dimensão da atuação do CAPS. Até então, não sabia que o serviço também realizava esse tipo de acompanhamento. A visita foi feita por uma psiquiatra e uma assistente social a uma pessoa que ainda não era usuária do serviço. Durante o encontro, pude observar como as profissionais conduziram o diálogo com respeito, ética e sensibilidade, buscando compreender a realidade daquela pessoa e as dificuldades que enfrentava.

Mais do que realizar uma entrevista, elas procuraram estabelecer uma relação de confiança, sem julgamentos, considerando as vulnerabilidades apresentadas e buscando possibilidades para ajudá-la. Também procuraram incentivar sua aproximação do CAPS, de modo que ela pudesse conhecer as atividades e encontrar naquele espaço uma oportunidade de acolhimento e apoio. A postura das profissionais me marcou, pois demonstrou que o cuidado não se resume a oferecer orientações, mas envolve compreender o contexto de vida de cada pessoa e construir, junto com ela, caminhos possíveis.

Essa experiência me fez perceber que o trabalho em saúde mental ultrapassa os limites físicos da instituição. Muitas vezes, é necessário ir ao encontro das pessoas, reconhecer as barreiras que dificultam seu acesso e criar oportunidades para que se sintam acolhidas. Considero esse momento um dos mais importantes da minha passagem pelo CAPS, tanto pelo aprendizado profissional quanto pela reflexão sobre a responsabilidade humana envolvida no cuidado.

Durante os dias seguintes, participei de oficinas e conheci os trabalhos artesanais do Seu Biu, por quem desenvolvi grande admiração. Ele é um verdadeiro ser de luz, um artista que carrega consigo muitas vivências, conhecimentos e ensinamentos, compartilhados de maneira generosa com todos ao seu redor. Ele me mostrou também as plantas de que cuida e a horta, onde cultiva pimentas e manjericão.

Horta com muda de plantas cultivadas no Caps Dr. Rostan Silvestre

Além de produzir lindos artesanatos, realiza oficinas nas quais ensina os usuários a confeccionar luminárias utilizando cocos e outros materiais que poderiam ser descartados. Achei especialmente interessante perceber como seu trabalho une criatividade, reaproveitamento de materiais e cuidado com o meio ambiente, transformando aquilo que seria descartado em objetos cheios de beleza e significado. Mais do que ensinar técnicas artesanais, Seu Biu transmite saberes e demonstra, por meio de suas atitudes, como é possível criar, cuidar e compartilhar ao mesmo tempo.

Entre as atividades, as oficinas de bordado tiveram um significado especial para mim. Eu não sabia bordar, mas Nina teve paciência para me ensinar e me ajudou a participar de diferentes práticas. Sua maneira atenciosa de conduzir as atividades tornou aquelas tardes muito agradáveis, tanto para mim quanto para os demais usuários. Nina foi uma pessoa muito querida nesses dias, e sou grata pela disponibilidade e pelo carinho com que compartilhou seus conhecimentos.

Ao participar das oficinas, comecei a perceber como o bordado influenciava o ambiente e a maneira como nos sentíamos. Muitas vezes, chegávamos agitados pela correria do cotidiano, com a mente ocupada por preocupações e tarefas. Entretanto, quando começávamos a bordar, o ritmo parecia mudar. A concentração aumentava, as conversas aconteciam de maneira mais tranquila e o ambiente se tornava mais sereno. Era como se uma corrente de paz percorresse a roda e, pouco a pouco, acalmasse também os pensamentos.

Essa observação me fez refletir sobre a importância das atividades manuais no cuidado em saúde mental. O bordado oferecia um momento de pausa, criatividade e convivência, no qual era possível aprender, conversar, rir e compartilhar experiências.

Também tive a oportunidade de pintar com os usuários, em momentos descontraídos de troca e interação. Essas atividades me permitiram conhecer as pessoas para além de suas condições de saúde e compreender como a convivência pode favorecer vínculos e proporcionar experiências significativas.

O CAPS me apresentou uma perspectiva diferente do internato, marcada pela leveza, pelo encontro e pela humanidade. Na formação médica, estamos frequentemente envolvidos com diagnósticos, exames e condutas, mas nem sempre percebemos a importância de simplesmente estar presente, olhar nos olhos e ouvir com atenção. Lembrei-me, nesse contexto, de uma reflexão atribuída à poetisa Cora Coralina: “Não sei… se a vida é curta ou longa demais para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido se não tocarmos o coração das pessoas”. Essa ideia ganhou um significado especial durante minha experiência, pois percebi como pequenos gestos podem fazer diferença na vida de alguém.

Um dos momentos mais marcantes aconteceu no último dia em que participei da oficina de bordados. Algumas semanas antes, eu havia acompanhado a visita domiciliar à pessoa que ainda não frequentava o CAPS. Naquele primeiro encontro, vi as profissionais buscando compreender sua realidade e encontrar maneiras de aproximá-la do serviço. Ao retornar para a oficina, tive a alegria de encontrá-la participando das atividades. Ela compartilhou o quanto havia gostado da experiência, relatou que a participação lhe fizera bem e demonstrou interesse em frequentar o CAPS com maior regularidade.

Fiquei muito feliz ao presenciar aquele momento. Foi possível relacionar a visita domiciliar às atividades realizadas no serviço e compreender, de maneira concreta, como essas ações se complementam. O cuidado não termina quando a equipe deixa a casa da pessoa, assim como não se limita a uma consulta ou a uma atividade específica. Ele se constrói ao longo do tempo, por meio do acolhimento, do acompanhamento e das oportunidades de convivência. Ver aquela pessoa participando e demonstrando vontade de retornar me fez perceber a importância desse trabalho para a população. Foi emocionante observar como uma tentativa de aproximação poderia representar o início de um vínculo com o serviço.

Grupo de Bordados

No último dia, também pude experimentar os quitutes preparados pelo Seu Biu, que estavam muito gostosos. Foi um momento simples e agradável, que tornou a despedida ainda mais especial. Ao recordar minha passagem pelo CAPS, percebo que foram justamente esses encontros, as conversas, os ensinamentos e as pequenas experiências cotidianas que deram sentido ao estágio.

Considero essa vivência uma das experiências mais enriquecedoras da minha formação até aqui. Sou muito grata aos profissionais e usuários que me receberam e compartilharam comigo seus conhecimentos e suas histórias. Aprendi que o cuidado em saúde mental exige competência técnica, mas também escuta, respeito, disponibilidade e compreensão das particularidades de cada pessoa. As oficinas, a visita domiciliar e os momentos de convivência ampliaram minha percepção sobre as diferentes formas de cuidar e sobre a importância de uma assistência que valorize a autonomia e a dignidade dos usuários.

Na Medicina, aprendemos a tratar doenças, aliviar sofrimentos e ajudar as pessoas. Entretanto, por vezes, esquecemos o quanto essas experiências também podem nos transformar. No CAPS, aprendi que o cuidado pode estar em uma conversa, em uma visita realizada com sensibilidade, em um bordado compartilhado ou na paciência de alguém que nos ensina algo novo. São gestos simples, mas capazes de tornar os encontros significativos.

Despeço-me dessa experiência com muita gratidão e com saudades de Nina, do Seu Biu, das oficinas, dos bordados e das conversas que fizeram parte desses dias. Confesso que fiquei com vontade de continuar frequentando o serviço, pois foi um espaço no qual aprendi muito e me senti acolhida.

Espero levar esses aprendizados para minha trajetória profissional e me tornar uma médica capaz de enxergar cada pessoa para além de seu diagnóstico, reconhecendo sua história, suas dificuldades e suas potencialidades. Acima de tudo, desejo preservar a sensibilidade de compreender que cuidar também significa fazer com que alguém se sinta ouvido, respeitado e acolhido.