A Humanização e o Lugar da Morte

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Gostaria de iniciar uma discussão que considero muito importante. Tem-se falado esse tempo todo sobre vários aspectos do SUS e de como a PNH atua disparando processos que buscam construir serviços que estejam em consonância com os princípios básicos de cidadania  para o usuário do SUS tal como disposto  na "Carta dos Direitos dos  Usuários da Saúde" (Ministério da Saúde, 2006). Mas os usuários não utilizam os serviços de saúde apenas para conseguirem cura e/ou minimizar sofrimento. É neles que a maioria de nós morre. E o processo de morrer também exige uma assistência humanizada. Assim, pensando o leque de ações e dispositivos preconizados pela PNH e pensando os princípios de cidadania do usuário do SUS, como poderíamos inserir a questão da morte e do morrer no cotidiano dos serviços?

 

De fato, como a morte tem sido acolhida nos serviços de saúde? E com relação aos muitos impactos emocionais e/ou psicossociais que o processo de morrer determina (nos usuários moribundos, suas famílias e nos trabalhadores) como a PNH tem lidado e/ou poderia lidar com eles? Poderíamos apostar em formas de assistência como o "homecare" ou os "hospices" como ações mais humanizadas de se cuidar dos moribundos? A ênfase numa formação que nos torna terapeutas não tem provocado distanásia, dor e sofrimentos desnecessários nos atos de cuidar no fim da vida? Como fica toda a discussão técnica e política em torno dos "cuidados paliativos" na formação dos profissionais de saúde? Como lidar com as necessidades espirituais dos pacientes no final da vida em espaços públicos considerados laicos por definição? Poderíamos engendrar um dispositivo que pensasse o acolhimento humanizado da morte e do morrer nos espaços de saúde?

 

Falar sobre a morte pode oferecer subsídios muito importantes para se ter uma vida melhor já que que a morte sinaliza para o real valor dos momentos, daquilo que apelidamos de rotina, dos gestos de afeto que acabam meio que banalizados, enfim, pensar na morte pode nos fazer questionar sobre o sentido real que estamos dando ao que fazemos e do quanto temos de fato valorizado coisas, pessoas e situações que por definição são sempre singulares.

 

No campo da saúde nos faz colocar no limite a nossa capacidade de cuidar. Já aprendi muita coisa com pessoas moribundas que valeriam por anos de terapia. Mas, muitos de nós querem se afastar das pessoas que estão morrendo porque achamos que "mais nada pode ser feito". Ao antecipar o luto, ou por termos medo das questões pessoais e existenciais que os moribundos nos apresentam, acabamos produzindo o isolamento do paciente pelo medo de sofrer e, assim, criamos sua morte social e simbólica antes que a morte real aconteça.

 

Neste sentido, cuidar paliativamente pode elastecer a vida não apenas em seus aspectos quantitativos mas principalmente qualitativos ao tentar criar uma rede de cuidados que proteja o indivíduo da dor. Temos que romper com a idéia pejorativa da expressão "paliativo" (comumente usada para referir uma solução que não é solução)  e irmos a origem da palavra que significa abrigar e proteger. Mas nosso olhar, tido como terapêutico, pode condenar as pessoas a viverem tratamentos desnecessários, serem tuteladas e torturadas por procedimentos que só aumentam quantitativamente a vida sem a contrapartida de ainda deixar ao indivíduo a mínima capacidade que seja de fruí-la esteticamente. É por isso que já disseram que as pessoas hoje em dia estão morrendo bem equipadas. As UTIs  estão se transformado em Unidades de Ditanásia Intensiva.

 

 Quando a morte chega, só continuamos agindo terapeuticamente porque não fomos preparados para aceitar a morte vendo-a como uma decorrência do viver. Ao negar a passagem adequada (a ortotanásia), estamos querendo nos tornar simbolicamente imortais? Queremos nos transformar em  deuses? Acredito que não! Negar a passagem pode significar escondermos de nós mesmos nossas próprias vulnerabilidades tentando levar aos limites o que a tecnologia e o conhecimento podem fazer.

 

Um grande desafio talvez seja recuperar parte da sabedoria do passado que tentava construir uma "Arte de Morrer". Parte dessa arte se constituiu a partir das tentativas de se criar uma estética da morte que a afastava das imagens horrendas dos anjos vingadores ou dos esqueletos cobertos pelo capuz e com a foice a levar todos para o céu ou o inferno. Neste sentido, o romantismo de Quintana é exemplar ao nos (re)mostrar a morte como uma mulher doce que pacientemente nos espera para o encontro que é certo:

 

A morte é que está morta

 

Ela é aquela Princesa Adormecida

no seu claro jazigo de cristal.

Aquela a quem, um dia – enfim – despertarás…

E o que esperavas ser teu suspiro final

é o teu primeiro beijo nupcial!

– Mas como é que eu te receava tanto

(no teu encantamento lhe dirás)

e como podes ser assim – tão bela?!

Nas tantas buscas, em que me perdi,

vejo que cada amor tinha um pouco de ti…

E ela, sorrindo, compassiva e calma:

– E tu, por que é que me chamavas Morte?

Eu sou, apenas, tua Alma…

(Mario Quintana)

 

Não se trata de construir um gosto mórbido pela vida mas sim de ter sempre a clareza de que o encontro acontecerá. Claro, faremos muito para atrasá-la o tempo que for necessário exercendo com sabedoria nosso "Carpe Diem". Mas se temos de ir, então que o façamos tentando minimizar a dor e o sofrimento. O melhor antídoto contra a dor física são os analgésicos, os sedativos e os anestésicos. O melhor antídoto contra as dores da alma são as companhias solidárias e honestas. Ninguém quer morrer sozinho. Se um dia quisermos a companhia dos outros nesse momento tão crucial, então precisamos desde já estar ao lado daqueles que estão partindo.

 Erasmo Miessa Ruiz