pouca perspicácia ou muito desperdício

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( … ) “Cismei que adoecia e procurei o médico.
Ele não perspicaz.
Auscultou, profissional, minhas cavidades
e prescreveu ginástica, redução de calorias, vida calma.
Doía tudo. Aqui dói, doutor, aqui também.
É certo que o senhor nunca deglutiu pedras,
mas, afianço-lhe, mesmo a água que bebo
é indigesta coisa sólida no meu bucho.
Ele precavê-se, intimidado pela minha fluência,
pelo manuseio intimorato que dispenso às palavras.
Dependendo da atividade intelectual,
da sensibilidade de cada um,
tais sintomas ocorrem, minha senhora.
E mostra as garras defensivo,
mais uns grãos de enfado.
Eu não estava doente. E estava muito.
O medo de morrer, habitualmente grande,
trinta vezes aumentado.
comecei a rezar no registro dos náufragos:
Perdoa-me, senhor. Lembra-te de que és meu Pai.
Como gostaria de nascer de novo
e começar tudo generosamente.
Olha pelos filhos que deixarei,
por meu marido que talvez não se case mais
Onde achará, neste lugar pequeno, outra mulher que
lhe ofereça tantos motivos para mortificar-se?
Passeava na casa, amargando a saudade prévia dos seus cantos.
Doia tudo, até que,
até que nada, não dói mais.
Recolhi-me ao corriqueiro estatuto
de comer, dormir, lavar-me,
recuperando o saudável desejo que se fodam bem
determinadas pessoas em suas empresas.
continuo passando a língua no molar obturado,
esgostosa, porque senão sou eu a cuidar da cozinha,
uma lata de óleo é a conta de dois dias.
Confesso-vos; quando comecei a escrever
o que eu queria era fazer teatro.” ( … )


 


Adélia Prado – Miserere . p 91 Poesia Reunida