POLÍTICAS PÚBLICAS, ARTES PÚBLICAS, INSURREIÇÃO PÚBLICA

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POR AMIR HADDAD

 

Políticas Públicas, Artes Públicas Insurreição pública em meio às situações vividas no momento, às reflexões de um homem de Teatro!

SEGUE ABAIXO A CARTA DO  DIRETOR AMIR HADDAD.

Políticas Públicas, Artes Públicas
Insurreição pública

Respirar por um canudo. Técnica de sobrevivência subaquática por mim usada durante a ditadura militar para não chamar a atenção, mas também para não morrer afogado. Assim, com oxigenação ainda que precária, consegui não parar de trabalhar e não me deixei cooptar. Não foi preciso. Havia visto em muitos filmes de Hollywood o herói astuto escapar de seu perseguidor assassino usando este subterfúgio. Ficar imóvel, em silencio debaixo d’água enquanto o inimigo passa. Respirando por um canudo.

O retorno à superfície foi lento e cuidadoso. Os pulmões foram aos poucos respirando os ares da liberdade. Algumas asfixias, alguns sufocos na vida brasileira, mas nada que pudesse impedir finalmente uma oxigenação de qualidade. Respirar a plenos pulmões só no período FHC e total oxigenação aeróbica na era Lula. Trabalho nas ruas há 33 anos. O descaso da era Collor pela cultura deixou espaços vazios na vida cultural do País que me permitiram avançar por toda a era FHC, até o melancólico final de seu segundo mandato.

O início da era Lula trouxe novas esperanças e novos horizontes. Era a primeira vez que havia alternância verdadeira de poder na vida pública brasileira, democrática, republicana. Me animei, mas também temi. Nosso principal espetáculo, meu e do Tá na Rua, durante o mandato do presidente Lula foi “Dar não dói, o que dói é resistir” Contava em praça pública a história do golpe militar, da implantação da ditadura, e de como os artistas brasileiros mais importantes, tinham enfrentado a difícil situação. Era sobre a resistência da vida cultural à tentativa de achatamento dela, pelo controle dos meios de comunicação, quaisquer que fossem!

Nosso oficio, os artistas, os criadores, repousa sobre a doação, generosidade. Assim dar faz parte da atividade artística, e é fonte de prazer e não de dor. Dores só a da criação!! Mas quando por um problema qualquer este gesto amoroso é atacado você precisa se defender e o prazer se transforma em dor. Resistir dói; é o contrario do ato amoroso.

O espetáculo era sobre isso e sobre os males de uma ditadura, mas era também para alertar as pessoas do que tinha se passado, já que até aquele momento pouco se falava sobre o assunto, principalmente no teatro e no cinema.

Queríamos lembrar para que não voltasse a acontecer, principalmente naquele momento em que um operário se elegia presidente de um país democrático do ocidente, na América Latina.

O espetáculo servia também para nós todos, como exercício de democracia e liberdade, para que finalmente nos habituássemos à nova realidade. Não se volta à tona depois de anos submerso sem um necessário tempo de readaptação à vida na superfície. Achávamos que isso era importante para nós e para o país, que poderíamos viver novas e surpreendentes possibilidades.

A conquista do voto direto, mais vinte anos de democracia plena e vida política e cultural estável, com as dificuldades naturais de um regime republicano atribulado, nos ensinaria a sonhar com novas Utopias, já com o cérebro oxigenado por camadas de ares democráticos, respiradas em plena atmosfera de liberdade. O sonho cresceu, o cérebro bem oxigenado iluminou nossas praticas. A liberdade nos ensinou a sonhar com uma vida pública de mais qualidade. Começamos a pensar Arte Pública.

Arte Pública é aquela que não se vende e nem se compra, e que se realiza em contato direto do artista e/ou sua obra com a população, em qualquer lugar e sem discriminação de nenhuma espécie.

É uma ideia muito antiga, pois a arte sempre foi produção de obra pública, feita por particular. Nasce pública, pois é essa a sua vocação. Só se privatiza nos últimos séculos, especialmente em nosso tempos, com o conceito da chamada “economia de mercado”.

Mas apesar de sua ancestralidade, sua importância, pra nós obvia, a arte publica não tem nem o respeito, nem o olhar das pessoas que costumam ver tudo que é publico como ruim.

Arte Pública, banheiro público, saúde publica, educação publica, repartição pública, segurança publica, espaço público. A ressonância ou reverberação pejorativa são evidentes e inconfundíveis. Até o investimento público procura atender sempre os interesses privados e serviços públicos de extrema importância são “regularmente” privatizados. O investimento público a fundo perdido para o bem da coletividade é sempre mal visto. Nossas antenas não estão voltadas para o que o é público, e sim para o que é privado.
Só vale dinheiro ou merece dinheiro o que rende dinheiro.

Por isso também é uma ideia muito nova, pois vai na contramão das tendências mercadológicas. Na verdade é um antídoto contra esta dolorosa forma de “privatização” da produção artística. Apesar das políticas de inclusão cultural deste governo, maiores que outros, o conceito de Arte Pública nunca foi objeto de reflexão de seus gestores, nem faz parte da formulação de políticas culturais de nenhum governo. De “esquerda” ou de “direita”. Arte Pública é uma produção histórica da vida cultural brasileira, de baixo para cima e de dentro para fora. É histórico, não é ideológico!

Só podemos perceber a historia em movimento se pudermos viver e conviver em plena liberdade econômica, política e social. Nos atrevemos a pensar muito adiante, porque vivemos em um regime de plena liberdade artística e política.
Só a liberdade nos permitiu chegar aonde chegamos, com o movimento de Arte Pública no Brasil. E é por estas liberdades que eu temo quando vejo as ruas por onde eu trabalho ocupada por multidões na mais que justa reivindicação de seus direitos, públicos às vezes, ou privados outras vezes.

Não é mais o Teatro ou as Artes públicas que no momento invadem os espaços públicos, mas a própria população. Às vezes em ordem outras vezes em caos. As artérias da cidade por onde avançávamos oxigenando seu sangue, agora se encontram sob grande pressão e correndo o risco de provocar obstruções ou derrames cardiovasculares capazes de produzir sequelas irreparáveis na vida publica. Precisamos zelar pela saúde da vida pública, avançar em nossas conquistas e níveis de organização, e esperar que dentro do mais curto espaço de tempo as artes públicas possam voltar as ruas da cidade, e ajudá-la a recuperar, já em grau superior, o equilíbrio necessário para a construção de uma “Polis” onde a necessidade humana de viver em coletividade esteja contemplada, estimulando convívio, urbanidade, horizontalização nas relações. Sem discriminações.

Que o desequilíbrio momentâneo se transforme em novo equilíbrio das forças sociais, sem predomínio de grupos ou “facções” para que a harmonia se estabeleça e a convivência urbana ganhe qualidade. Afinal, não é isso a política? A organização da Polis?

Organização que se faz além dos indivíduos, para os indivíduos, por pessoas por eles escolhidas para tal função a partir da delegação de poderes a elas para que resolvam os problemas que dizem respeito a todos enquanto resolvemos os nossos cotidianos; Ás vezes, quase sempre, aqueles a quem delegamos estes poderes, cheios de boas ou más intenções, não conseguem estabelecer padrões de políticas publicas que possam agradar a todos. Portanto não se tornam merecedores de nossa gratidão nem de nossa admiração, nem de nosso respeito, como na ditadura por exemplo. Para corrigir esta chamada distorção o ser humano inventou o voto. Com a derrubada da ditadura o brasileiro recuperou sua capacidade de escolher da melhor maneira possível o seu destino.

Esta conquista é essencial. Nenhum poder usurpado poderá ser respeitado, assim como nenhum poder outorgado através do voto poderá ser revogado, a não ser por intermédio de eleições regularmente realizadas como é o caso do Brasil. As exceções estão previstas em lei.

Desejamos crer que as atuais reivindicações tenham em seu cerne o impulso de generosidade publica que caracteriza a natureza das artes em geral. Tudo para todos. E que tudo isto possa fazer o país avançar em direção a um mundo de entendimento e justiça social onde os privilégios não massacrem os direitos da livre cidadania. O Brasil está se reconstruindo, ainda melhor, graças ás liberdades conquistadas nas últimas décadas. Somente a liberdade poderá nos conduzir a um mundo melhor. Se a perdermos estaremos condenados a uma insuportável obscuridade e seremos obrigados a ficar submersos respirando por canudos para o resto da vida.

Os melhores anos de minha vida eu passei submerso respirando por canudos. Não quero agora depois de tantas conquistas públicas, passar o que me resta de vida atormentado por estas questões. Quero pensar adiante, muito adiante. O futuro só acontece no presente.

Estamos cheios de força para propor, para dar. O que dói será ter que resistir.
Olho vivo!!!

Amir Haddad.
28.06.2013

Fonte: http://www.tanarua.art.br/2011/politicas-publicas-artes-publicas-insurreicao-publica