PAPOTERAPIA

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(Trabalho inscrito na IV Mostra Nacional de Práticas na Atenção Básica/Saúde da Família: http://www.atencaobasica.org.br/comunidades/iv-mostra-eixo-tematico-11/papoterapia#comment-10518)

 

Em 2012, começamos uma experiência grupal que chamamos Papoterapia. A ideia foi criar um espaço de acolhimento de pessoas em sofrimento mental ou que queriam um espaço de convivência e partilha de suas experiências de vida. O grupo foi idealizado por uma enfermeira, uma recepcionista e por mim (psicólogo) e, em pouco tempo, por meio de oficinas, dinâmicas e rodas de conversa, pudemos observar a formação de uma mini-rede de apoio e escuta, gerando reflexão, mudança e até uma tarde festiva!

:: Qual foi a experiência desenvolvida? Sobre o que foi? ::

Na Atenção Primária à Saúde, encontra-se uma grande demanda por práticas de prevenção de adoecimento e promoção de saúde para além do trabalho clínico tradicional e integrando toda a equipe multiprofissional. O grupo de Papoterapia foi pensado por uma enfermeira, uma recepcionista e um psicólogo, como um espaço de convivência onde as pessoas da comunidade possam falar de si e ouvir o outro, formando uma rede de apoio para além da mera atividade grupal. Com o espaço fornecido por uma instituição assistencial local, desenvolvemos atividades como dinâmicas grupais, oficinas e rodas de conversa, proporcionando, a pessoas em situação de sofrimento psíquico, um espaço de partilha e escuta. As sugestões e organização das atividades partem dos facilitadores do grupo, de outros profissionais que participam pontualmente do grupo e da população do território, tendo em vista a autonomia das pessoas envolvidas, o que consideramos um dos fatores promotores de saúde mental. Pudemos, em poucos encontros, coletar relatos de usuários que utilizaram o espaço do grupo como desabafo para as aflições diárias, espaço de escuta e acolhimento do sofrimento que passam e expressão de habilidades, como as rodas de cantoria e uma "tarde da tapioca", com protagonismo de usuários daquela comunidade. Também observamos pessoas que não relataram estar em sofrimento, mas que frequentam o grupo em busca de um local de convivência, o que elas disseram ser prazeroso. Pudemos também acompanhar um adolescente, que há tempos não saía de sua casa, participando e cantando nas atividades do grupo, apresentando melhora significativa no auto-cuidado do primeiro ao segundo encontro.

:: Como funciona(ou) a experiência? ::

A ideia da experiência partiu de uma das enfermeiras da UBS, que já tinha realizado experiência parecida em outro município e achou que seria interessante para este território, a partir da necessidade que percebeu de oferecermos algum tipo de atividade para usuários do serviço que tinham queixas difusas, pontuais ou crônicas, de sofrimento mental. Para realizarmos o grupo, a enfermeira e eu (psicólogo) tivemos de remodelar a agenda de atividades e a recepcionista teve que ser liberada de suas funções no horário da atividade. Para viabilizar a Papoterapia, fizemos conversas com as quatro equipes, no sentido de dialogar sobre a proposta do grupo e realizarmos os convites; esta etapa durou, aproximadamente, um mês. As equipes entenderam a proposta e rapidamente começaram a pensar usuários que se beneficiariam de tal atividade. Fizemos uma parceria com uma organização municipal para utilização do espaço físico.

 

:: Desafios para o desenvolvimento ::

Os desafios da realização da Papoterapia foram a organização das atividades de cada encontro, principalmente na criação e pesquisa de dinâmicas de grupo, assunto no qual a enfermeira mostrou-se bastante municiada. Também, na realização da "tarde da tapioca", procuramos parceiros para conseguir os insumos para a produção dos comes e bebes; nesse sentido, contamos com a colaboração de cada pessoa do grupo, que trouxe um ou mais ingredientes.

:: Quais as novidades? ::

No decorrer da Papoterapia, percebemos que a maioria dos usuários que participava das atividades não tinha histórico de seu sofrimento mental organizado – a maioria contava, apenas, com evoluções esparsas nos prontuários. Desenvolvemos uma breve entrevista para conhecermos a pessoa e poder avaliar preliminarmente a viabilidade da participação no grupo, pensando que a Papoterapia foi desenhada na perspectiva de cuidado a sofrimento mental leve; casos de crises graves ou sofrimento mental intenso tomaram outros caminhos: discussão com a equipe, atendimento individual com psicólogo para aprofundar a escuta, encaminhamento para serviços especializados etc. O que foi mais desafiador foi a perspectiva de trabalhar o sofrimento mental de outra maneira, na forma de grupo, o que, na rediscussão dos casos com as equipes, fez mudar um pouco a perspectiva destas quanto à questão do cuidado em saúde mental.