Rede HumanizaSUS ocupa o VER-SUS SP (edição de inverno de 2016)

11 votos

Car@s amig@s da Rede HumanziaSUS,

Compartilho o texto elaborado pelo Coletivo de Editores/Curadores da RHS para o caderno organizado pelo VER-SUS SP e pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, com a participação da Rede HumanizaSUS e da Associação Paulista de Saúde Pública (APSP), como material de base da vivência que acontecerá entre os dias 31 de Julho a 08 de Agosto de 2016.

Essa edição será pautada na produção social da saúde nos territórios dialogando com os movimentos de moradia e direito a cidade, questões fundamentais que atravessam o SUS e a vida! Na região sul os serviços e temas explorados serão alimentação coletiva, recursos naturais, violência e moradia. No centro, população de rua, LGBT, imigrantes/refugiados e o programa De Braços Abertos.

INSCRIÇÕES ABERTAS PARA O VER-SUS SP 2016/2: Viver a realidade da saúde e moradia em São Paulo. 

Período: 21/07 à 26/07 até 00h. 
Link pré inscrição até 26/07: http://goo.gl/tazlk7
Link inscrição (otics) 23/07 à 26/07 até 00h: http://versus.otics.org/

 

 

 

Rede HumanizaSUS: rede viva na ocupação do ciberespaço

 

Débora Aligieri

Emilia Alves de Sousa

Maria Luiza Carrilho Sardenberg

Patrícia Silva

 

Introdução

 

A Rede HumanizaSUS nasce em 2007 como uma articulação da inteligência coletiva em torno da humanização das práticas de saúde do SUS, e se compõe com outras redes para formar o chamado CiberespaSUS. Esta ocupação do território virtual se dá sob a forma do apoio para produzir mudanças nos modos de fazer saúde, num esforço de inclusão de todos os atores deste campo de práticas. Ágora aberta à conversação sobre políticas públicas de saúde, conta atualmente com mais de 37.000 inscritos, entre gestores, profissionais de saúde, usuários, pesquisadores e qualquer pessoa interessada em debater e aprimorar o SUS.

 

Embora tenha sido inicialmente concebida como um dispositivo ou ferramenta de apoio às práticas de humanização da saúde, a Rede HumanizaSUS foi rapidamente se transformando a partir da abundante troca de experiências exitosas dos trabalhadores, assumindo a característica de espaço do “SUS que dá certo”. Consolidando-se como plataforma de aprofundamento das reflexões sobre as práticas da humanização em saúde, a partir das diretrizes da Política Nacional de Humanização (PNH), passou também a se constituir num espaço etico-estético-político de grande potência na construção da saúde pública brasileira.

 

Mostrar uma outra visão do sistema público de saúde tornou-se uma ferramenta importante na disputa de narrativas e de sentidos que vivemos desde a criação do Sistema Único de Saúde pela Constituição Federal de 1988, num cenário com financiamento de campanhas eleitorais por serviços privados de saúde, que também ocupam os espaços publicitários diretos (através de propagandas) e indiretos (através de notícias sobre as mazelas do SUS) da mídia em geral. Disputa que se faz por intermédio das narrativas do trabalho e do cuidado em saúde, na produção cotidiana de vida.

 

Assim, a RHS é uma rede viva: seu sangue é o fluxo de atividades que circulam entre os territorios geográfico e virtual; seu corpo, o que lhe dá sustentação, é o relacionamento entre as pessoas (dentro e fora dos teclados, e também da própria rede), a partir dos conteúdos postados e das manifestações nos debates e pedidos de apoio; e sua anima se ativa na invenção de inúmeros usos pelas pessoas que dela participam.

 

A ocupação do território virtual na produção de saúde e memória do SUS

 

A potência das redes virtuais se atualiza ao fazer uma dobra no espaço e unir territórios existenciais distantes e heterogêneos. Basta navegar na RHS por algum tempo para constatar a expertise criada na mistura de diversificados modos de ser e de viver, sotaques, cores, nomes, climas e demais diferenças conectadas com afeto e solidariedade. Trata-se de uma ocupação nutrida justamente no respeito às diferenças, contribuindo para o diálogo entre experiências que reiteram os princípios organizadores do SUS e da Política Nacional de Humanização da Atenção e Gestão do SUS.

 

Para fazer esta dobra espacial, muitas estratégias tem sido levadas a cabo na promoção do diálogo entre as práticas regionais dentro da Rede HumanizaSUS:

 

  • relato das experiências nos blogs dos participantes;

 

  • transposição de experiências de um território para outros. Como exemplo, temos “a rede no berço”, experiência de um hospital do Piauí reproduzida em Santa Catarina a partir de um relato publicado na Rede HumanizaSUS;

 

  • utilização de textos publicados na RHS como material de discussão dos conceitos de saúde, trabalho e humanização em rodas de conversa de equipes de saúde e em aulas nos cursos de formação em saúde;

 

  • valorização das competências ampliadas dos usuários, trabalhadores e gestores para o enriquecimento subjetivo destes atores sociais da saúde, evidenciando a saúde como valor de vida em espaços despotencializados pela excessiva exposição às doenças.

 

A imbricação dos espaços gera um movimento que reitera os propósitos da saúde coletiva como uma construção dos sujeitos que a vivenciam. E o caldo cultural presente no movimento valoriza as diferenças em vários contextos. Por exemplo, a Tenda do Conto, dispositivo que emergiu em Natal/RN, foi experimentado no Cariri/CE e Manaus/AM. E, cada um a seu modo, utilizando como ponto de partida um mesmo dispositivo, provoca mudanças nos espaços de saúde no sentido da amplição da clínica, valorização da escuta sensível e da alternância de papéis nas rodas de conversa, favorecendo a horizontalidade das relações no cuidado e gestão da saúde.

 

A conexão com outras redes que compõem o ciberespasus também se constitui como estratégia de defesa do SUS e da saúde construída democraticamente. As experiências se fortalecem na supressão/contração do espaço territorial. As práticas regionais e suas narrativas digitais se ativam reciprocamente. E seus relatos constroem uma memória do SUS, dos coletivos e da vida na contemporaneidade.

 

Curadoria em Rede

 

O território virtual chegou com toda a força de uma revolução nos modos de trabalhar e viver. Todo o campo da produção humana foi tocado por esta invenção que se consolida cada vez mais no mundo contemporâneo. E com a criação desta nova ecologia comunicacional, o trabalho em saúde, uma atividade eminentemente afetiva, ganha contornos mais potentes quando produzido nas trocas no território virtual.

 

“Os recursos computacionais e comunicacionais invadiram não apenas as ‘tecnologias duras’ da saúde como também seu campo de relações e de produção de conhecimento: e-mails, prontuários eletrônicos, sistemas informatizados de financiamento e agendamento de vagas, monitoramento e avaliação de programas de saúde, teleconferências, cursos de ensino à distância e comunidades de práticas, são alguns dos exemplos de que a internet, a informatização e suas possibilidades vieram para ficar e ganhar um espaço cada vez mais expressivo no SUS, em especial, com a chegada de novas gerações de profissionais já familiarizados com a vida no ciberespaço”.

 

Como rede de conversações entre atores os mais variados, a RHS criou e busca intensificar uma ecologia da comunicação marcada pela produção de uma atitude coletiva solidária e afetiva. Nela se fia uma máquina expressiva de uma grande saúde como acervo de todos. Todavia, esta experimentação de uma grande diversidade e volume de conteúdos pede também uma atividade de curadoria. É preciso construir filtros seletivos de informação e troca para dar um contorno navegável e fazê-lo junto com os usuários, num esforço novamente coletivo de criação de um comum entre todos.

 

Um grupo de curadoria foi constituído a partir de usuários mais presentes desde o início da rede. Atualmente, cumprem, entre outras tarefas, a de ativar as relações em diferentes frentes conforme o que se apresenta neste ambiente sempre dinâmico e mutante, num esforço já explicitado anteriormente, de dar visibilidade aos conteúdos afirmativos de vida. Tarefa portanto plena de implicações biopolíticas na ativação de espaços de cidadania e protagonismo democrático.

 

Abaixo elencamos alguns princípios e critérios da curadoria feita pelo coletivo de editores:

 

  • Publicizar a disputa de sentido sobre a humanização e o movimento Humanizasus;

  • Dar visibilidade aos movimentos de mobilização e participação social na construção do SUS a partir da participação direta e indireta da sociedade nos destinos da saúde;

  • Dar relevo aos posts que trazem um maior nível de afetação pelo desejo de lutar pelo direito universal, integral e igualitário à saúde;

  • Identificar ideias e práticas que buscam a produção da alegria dos bons encontros como estratégia de intensificação da vida;

  • Recortar experiências inovadoras, narrativas de vivências e matérias destacadas na WEB sobre a saúde e o SUS;

  • Ressaltar postagens que discutem as novas configurações do trabalho imaterial e afetivo com a saúde no contemporâneo;

  • Ouvir a voz dos usuários do SUS, valorizando todos os tipos de saberes, inclusive os saberes leigos;

  • Acolher e reencantar os novos participantes para a aventura RHS;

  • Destacar eventos, seminários, congressos e publicações sobre a saúde pública e outras dimensões que potencializam as políticas públicas.

 

A curadoria assim se traduz como o trabalho de uma equipe transdisciplinar na atenção e cuidado com os relatos e debates da vida em movimento na(s) rede(s).

 

Contatos Imediatos

 

A transposição dos espaços territoriais e virtuais acompanha o movimento de cada participante na rede. A autonomia da pessoa na construção de suas narrativas sobre o SUS, daquilo que vive, e na interação com as narrativas que a afetam, é o que faz da Rede HumanizaSUS um ambiente colaborativo. Assim, as ferramentas de comunicação da RHS são ofertadas para que o usuário possa publicar seus textos e comentar os de outros de forma independente e, caso encontre alguma dificuldade, consiga solucioná-la por meio de contato direto com o grupo de editores/cuidadores.

 

Ferramenta de apoio no trânsito pelos caminhos da navegação, o formulário de contato da rede se presta a inúmeras funções para os usuários e se pauta pela ecologia da rede-afeto. Mais um canal comunicacional da dobra já descrita anteriormente, tem a finalidade de tirar dúvidas, pedir informações e esclarecimentos sobre o SUS e a PNH, sobre temas compartilhados e/ou para exercer a função de um canal de conversa com a equipe da própria rede, para assuntos que os participantes não querem incluir diretamente em uma postagem e/ou para suporte técnico.

 

Nesse espaço chegam demandas variadas, incluindo pedidos de apoio para a implementação da PNH nos territórios, solicitações de formação e qualificação das equipes de trabalho nas unidades de saúde,  pedidos de envio de cartilhas, cadernos e outros documentos do SUS para estudos e qualificação de trabalhadores e  indicação de conteúdos para pesquisas científicas. Demandas de ajuda para cadastro na rede, orientações para acesso aos serviços do SUS, denúncias de atendimentos desqualificados recebidos no SUS, pedidos de informações sobre eventos científicos na área da humanização, apoio para compartilhamento de experiências bem sucedidas nos territórios de saúde, divulgação de eventos científicos na rede, dentre outras.

 

Desta forma, o formulário de contato funciona não apenas como um canal de comunicação dos usuários com os editores/curadores da RHS, mas também como um espaço de exercício de cogestão, na medida em que envolve uma produção coletiva articulada com vários saberes, um dispositivo de ativação de inteligência coletiva, fomentando a participação e o controle social no SUS.

 

Dispositivo de diálogo na formação em saúde e nos serviços de saúde

 

A RHS, ao acolher a proposição de debates por qualquer cibercidadão – tendo forte relação neste aspecto com a diretriz constitucional da participação da comunidade no SUS (artigo 198, III, da Constituição Federal), entendendo-se por participação social as ações tanto de usuários como de pesquisadores, gestores e trabalhadores da saúde – constituiu-se como campo aberto a experimentações e trocas de vivências. Essas atividades assumem a natureza de dispositivos de construção colaborativa da saúde, a partir da multiplicidade de usos conferidos à rede por seus usuários.

 

Uma dessas experiências é a utlização da rede na formação em saúde, intensificada durante o ano de 2015 com a participação dos alunos de graduação do curso de Gestão em Saúde Coletiva, da Universidade de Brasília. A publicação de posts na RHS sobre os temas abordados em sala de aula, além de permitir a fruição conjunta e pública da experiência do aprender numa rede de afetos – que enriquece a todos como pessoas abertas à “construção daquilo que muitas das vezes buscamos idealizar”, de “casamento da teoria com a prática”, como bem expressou uma das graduandas em seu post – transformou o espaço de uma aula em exercício compartilhado da cidadania e da democracia, ao facilitar a transposição do conhecimento para além dos muros da universidade.

 

A Rede HumanizaSUS já contava anteriormente com a participação dos estudantes de psicologia da Faculdade Integrada de Santa Maria (FISMA), e ainda durante o ano de 2015 acolheu uma turma de psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo.

 

Neste mesmo contexto de formação em saúde em rede estão os relatos publicados na RHS sobre o VER-SUS. Atualmente, conforme dados de julho de 2016: há 35 posts sob a tag “VER-SUS”; a busca com o termo “ver-sus” na RHS apresenta 113 resultados, incluindo posts, comentários e perfis; desses resultados, 14 são perfis em que o usuário da RHS se define como vivente do VER-SUS (e revela como as vivências afetam os estudantes que delas participam, a tal ponto do VER-SUS ser incorporado à sua identidade como pessoa).

 

Ainda em 2015, no dia 09 de dezembro, a rede realizou o webinário “Formação, participação cidadã na saúde e VER-SUS: que conexões?”, debatendo o direito à saúde a partir do exercício democrático de ocupação dos espaços públicos, para a construção da saúde como algo pertinente à sociedade considerada em toda a sua multiplicidade de atores políticos e de condições sociais, relacionando o VER-SUS e demais dispositivos de rede como espaços para a produção de ‘reflexões sobre/práticas para’ um SUS acolhedor das diferentes necessidades em saúde.

 

O ponto em comum entre todas essas experiências mencionadas – Rede HumanizaSUS, os cursos da UnB, da Fisma e da Universidade Federal do Espírito Santo, e VER-SUS – é a construção de narrativas no campo da formação em saúde como práticas políticas, que reforçam a defesa do sistema público de saúde enquanto espaço democrático promotor de justiça social.

 

Conclusão

 

Saúde e vida são ideias indissociáveis entre si. Viver com saúde é poder ocupar os espaços com as experiências que tocam e transformam as pessoas. Compartilhadas em rede, essas vivências e reflexões constituem-se em ferramentas de construção colaborativa de saúde e de transformação social, ao contribuir para o diálogo entre a heterogeneidade das narrativas da vida, que tem características múltiplas. São essas diferenças que fazem da Rede HumanizaSUS uma rede viva, com relações afetivas, na ocupação do ciberespaço.

 

A vida em todos os seus desdobramentos se faz presente em narrativas no espaço virtual, unindo pessoas e regiões na mesma realidade heterogêna, na realidade/fusão dos territórios virtual e geográfico enquanto dobra espacial. A partir da relação entre as pessoas e suas experiências e saberes – entre as muitas e diversas vidas na rede – a Rede HumanizaSUS se torna viva. A relação entre os usuários da RHS é a sua vitalidade, o que lhe dá movimento, o que faz dela uma máquina expressiva na formação e construção – do profissional, do cidadão, do coletivo – em torno de um comum. Em torno da saúde enquanto construção social, enquanto direito da cidadania, enquanto valor universal.

 

Referências:

 

Aligieri, D. Veja como foi o webinário “Formação, participação cidadã na saúde e VER-SUS: que conexões?”. Rede HumanizaSUS [Internet] [acesso em: 2016 Jul 17]. Disponível em: http://www.redehumanizasus.net/93494-veja-como-foi-o-webinario-formacao-participacao-cidada-na-saude-e-ver-sus-que-conexoes#sthash.ajifyvtJ.dpuf

 

Chaves, L. A todos, o meu muito obrigado. Rede HumanizaSUS [Internet] [acesso em: 2016 Jul 17]. Disponível em: http://www.redehumanizasus.net/91068-a-todos-o-meu-muito-obrigado

 

RedeHumanizaSUS [Internet]. Tag GSCUnB [acesso 2016 Jul 17]. Disponível em: http://www.redehumanizasus.net/category/tags/gscunb

 

RedeHumanizaSUS [Internet]. Tag VER-SUS [acesso 2016 Jul 17]. Disponível em: http://www.redehumanizasus.net/taxonomy/term/24874

 

RedeHumanizaSUS [Internet]. Resultados de busca do termo “ver-sus” [acesso 2016 Jul 17]. Disponível em: http://www.redehumanizasus.net/search/node/ver-sus

 

TEIXEIRA, Ricardo Rodrigues et al. Apoio em rede: a Rede HumanizaSUS conectando possibilidades no ciberespaço. Interface (Botucatu) [online]. 2016, vol.20, n.57, pp.337-348, também disponível em: http://www.scielo.br/pdf/icse/v20n57/1807-5762-icse-1807-576220141217.pdf