“Das estradas esburacadas de barro…” Uma roda de conversa sobre Educação permanente com alunos de psicologia.

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Este post descreve a realização da nossa primeira roda de conversa com os alunos de psicologia do CESMAC de duas diferentes ênfases de estágio específico, educação e saúde. Post dedicado a atividade realizada para a disciplina Humanização na Saúde, ofertada pelo professor Sérgio Aragaki no mestrado profissional da FAMED/UFAL.  Mas, antes de falarmos sobre a roda, é importante uma ressalva introdutória. Esta disciplina é cuidadosamente pensada para que os alunos possam ir além do conhecimento teórico sobre a humanização – da ambiência da sala, as pactuações acerca da metodologia da aula, o acolhimento as discussões do texto e dos diferentes olhares, o estímulo ao aprofundamento e costura das leituras na área com as práticas, nos lembram continuamente sobre a importância de viver a humanização e não apenas “aprender” referenciais que contribuam para ações de cuidado humanizado em saúde. Essa é uma grande sacada.        

Então embalados com essa vivência enquanto alunas, lembramos de um texto do psicanalista e escritor Rubem Alves quando este escreveu que se  “…fosse ensinar a uma criança a arte da jardinagem, não começaria com as lições das pás, enxadas e tesouras de podar. Levaria a passear por parques e jardins, mostraria flores e árvores, falaria sobre suas maravilhosas simetrias e perfumes; levaria a livraria para que ela visse, nos livros de arte, jardins de outras partes do mundo. Aí, seduzida pela beleza dos jardins, ela me pediria para ensinar-lhe as lições das pás, enxadas e tesouras de podar” (ALVES, 1994). Motivadas e querendo despertar a curiosidade e motivação dos alunos de psicologia, iniciamos nossa primeira roda de conversa com a temática da Educação Permanente (E.P). A escola deste tema traduziu-se pela leitura da demanda do alunos, por sua importância nessa fase da graduação. O grupo das diferentes ênfases foi reunido  para conversar sobre E.P.

No primeiro momento, após pactuarmos coletivamente sobre as regras do funcionamento da roda, utilizamos um roteiro de perguntas disparadoras para sensibilizarmos quanto a discussão e levantar o que os alunos sabiam sobre E.P. Esta foi muito associada a Educação Continuada – sobretudo expressa como “atualizações” como capacitações pontuais; ao aperfeiçoamento técnico e científico, destacando-se a necessidade de uma busca desde a graduação, que visa a melhoria na oferta do cuidado a saúde e em outros campos, mas muito associado ainda ao usuário do serviço, não extrapolando-se para os processos de gestão e de saúde do trabalhador. Apesar de alguns frisarem não conhecer esta Política Nacional, muitos acertadamente destacaram a importância da desconstrução, de uma práxis que motive novas ressignificações de sua atuação e de conhecimentos contextualizados com as práticas desenvolvidas.

A ideia desse primeiro momento foi reunir as palavras chave dos alunos despertando sua curiosidade acerca do tema, com as seguintes questões norteadoras: 1. O que vocês entendem por Educação Permanente (EP)? 2. Vocês percebem o desenvolvimento de Educação Permanente nos campos de estágios? (Exemplifique); 3.Como a Educação Permanente pode contribuir para o processo de trabalho? 4.Qual a relação da EP com a gestão no trabalho em Saúde e na Educação? Para então realizarmos um segundo momento para descortinar o tema, aprofundar, regado a prazerosa e leve discussões, com um lanche compartilhado por todos os envolvidos.     Um dos pontos altos foi a avaliação geral que as duas turmas fizeram sobre a metodologia da roda e a importância de sua realização reunindo diferentes ênfases de estágio (saúde e educação), gerando ideias inclusive da necessidade de ampliar esta metodologia com outros temas e com alunos de diversas áreas do conhecimento, ampliando assim as reflexões e produções do grupo. Um ambiente inclusive onde se pode aprofundar a perspectiva da interdisciplinaridade.

Quanto ao título, este deve-se a fala de uma das alunas, que relatou que compreendia a E.P como uma longa estrada de barro, com buracos, nos quais o aluno e futuro profissional vai identificando as lacunas e preenchendo de acordo com as necessidades que a prática e as relações vão demandando. E para encerrar, trazemos mais uma fala de outra participante, sobre as implicações enquanto aluna com o processo da E.P, ela refletiu sobre a importância de se aprender a lidar com a imprevisibilidade, aprender a se encantar, a se surpreender, que em outras palavras nos convida para uma desnaturalização das práticas, do prescritivo e a um belo convite para que possamos sair de nossas zonas de conforto e (re)agir.

CARDOSO, Ivana Macedo. ” Rodas de educação permanente” na atenção básica de saúde: analisando contribuições. Saúde e Sociedade, 2012, 21.suppl. 1: 18-28.

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 198, de 13 de fevereiro de 2004. Institui a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde. Diário Oficial da União , Brasília, DF, 2004. Seção 1.

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 1996 de 20 de agosto de 2007. Dispõe sobre as diretrizes para a implementação da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 22 ago. 2007. Seção 1.

ALVES, Rubem. A alegria de ensinar. 3ª edição. ARS Poética Editora ltda, 1994.“Das estradas esburacadas de barro…” Uma roda de conversa sobre Educação permanente com alunos de psicologia.