Reforma Psiquiátrica e Saúde Mental no Brasil: uma reflexão sobre o terror demonstrado no filme “Em nome da razão”.

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          No estágio de Psiquiatria tive a oportunidade de refletir e modificar muitos conceitos que eu tinha. No estágio do CEAAD a falta de atividades produtivas e de incentivo a novos afazeres me incomodou bastante, assim como a falta de apoio a reinserção social. O CAPS Casa Verde se mostrou totalmente diferente e me surpreendeu ao desenvolver todas as atividades que no meu pensamento, deveriam ser desenvolvidas no CEAAD. Essas divergências entre instituições são oriundas das políticas que cada um adere, visto que o CEAAD é adepto a política proibicionista e o CAPS a política de redução de danos. A divergência de políticas e de funcionamento está inserido em um contexto político e social, que vem se transformando ao longo dos anos no nosso país.

            No filme “Em nome da razão” podemos perceber a situação em que os pacientes psiquiátricos viviam antes do início da Reforma psiquiátrica, momento em que o modelo era dominantemente hospitalocêntrico. O que aconteceu em Barbacena não foi um fato isolado, apenas mais um dos confinamentos sociais que o país criava, como o caso da Casa de Saúde Anchieta.

            Como podemos ver no filme, os manicômios eram tidos como locais de isolamento de todos aqueles que fugiam do padrão da “normalidade”, fosse o esquizofrênico, o mendigo ou o homossexual. Os pacientes não eram encaminhados para lá a fim de receberem um tratamento, mas sim para serem afastados da sociedade no qual eles não se encaixavam. Era uma sentença de reclusão e abandono, em que a única certeza era a da morte, que chegaria ali mesmo. Os doentes mentais eram tratados como animais, vivendo em condições desumanas, dormindo sobre capim sujo de fezes e urina. Se as medidas farmacológicas não fossem suficientes, a terapia de choque e a lobotomia eram feitas, sem qualquer aprovação das famílias, daqueles que ainda as tinham.

            No início da década de 80, iniciam os movimentos que começam a questionar o sentido e a abordagem dos manicômios. Na década de 90 há a instituição de serviços, como o CAPS, que mudariam a abordagem psiquiátrica, embora isso ainda custasse longos anos. A reforma psiquiátrica havia se iniciado e estava se moldando, porém, a criação dos serviços não desvinculou a verba pública destinada aos hospitais psiquiátricos, visto que eles ainda a dominavam em 97%. Em 2005 a reforma psiquiátrica começa a ganhar mais visibilidade, principalmente com a lei Paulo Delgado. Neste momento, surge um programa “ De volta para casa”, que busca reintegrar socialmente o paciente que viveu a vida toda nos manicômios. A ressocialização começa a ser vista e considerada como importante.

            A história da reforma psiquiátrica foi muito mais complexa do que se imagina e ainda não chegou ao fim. A extinção dos hospitais psiquiátricos ainda é um impasse, porque por mais que a sociedade tenha evoluído, alguns preconceitos ainda permanecem. Muito se fala sobre a importância dos CAPS, residências terapêuticas e dos leitos psiquiátricos em hospitais gerais. Porém, o entendimento da população é de que esses são serviços complementares ao hospital psiquiátrico e não a solução para a extinção.

Muito me questionei sobre a reforma psiquiátrica e a política de redução de danos, não conhecia e não entendia de que forma elas teriam realmente um impacto positivo. Nos dois meses de estágio na psiquiatria, percebi que o doente mental passou a ser sinônimo de improdutivo e é assim que vi eles se sentirem dentro do hospital psiquiátrico. Diferentemente, pude perceber no CAPS como os pacientes podem ser capazes se forem estimulados.

Estimular a criação de instituições como o CAPS e as residências terapêuticas e a extinção dos manicômios é reconhecer que o paciente psiquiátrico é um ser humano como qualquer outro, que deve viver e ter sua função na sociedade. É querer trata-lo para que ele volte a sua rotina e não simplesmente achar que o tratamento é o confinamento.

A passagem pelo CAPS foi um dos momentos do estágio que mais me fizeram refletir, porque eu pude perceber o impacto da ressocialização na vida dos usuários. Ele nos mostra que não é apenas colocar o indivíduo para conviver em sociedade e ponto, é preciso mostra-lo que ele é capaz de produzir, de se cuidar, de cuidar da casa e de ter uma vida normal e digna. É preciso mostra-lo a importância de tomar a medicação, mas também mostrar que a medicação não é o único pilar do tratamento. É preciso entender que eles sofrem com os estigmas da sociedade, que eles sofrem com a confiança da família perdida após uma crise e que eles sofrem por não conseguirem ser quem eram antes. O sofrimento deles muitas vezes é transformado em uma reclusão que o diálogo não é capaz de quebrar. Dai vem a terapia lúdica, vem o teatro, a costura, a brincadeira, a horta, a dança, vem o que o CAPS me ensinou de tão valioso, o corpo também fala, ele também desabafa e sai leve após uma música dançada. O corpo também conta histórias que a boca sozinha não consegue expressar e aí vem a confissão durante uma encenação de teatro.

Ver o filme “Em nome da razão” causa um impacto muito forte, não só pelas imagens, mas o próprio áudio demonstra o sofrimento. Ao ler o texto sobre a Reforma Psiquiátrica e a Saúde Mental no Brasil perpassa na mente quantas cenas de sofrimento não tiveram que acontecer para chegarmos ao cuidado, um pouco mais humanizado, que temos hoje. Muito se evoluiu de lá para cá, não é mera visão, os dados comprovam, mas muito ainda precisa mudar, a reforma psiquiátrica ainda está acontecendo. O consolo que encontrei em meio a tudo isso foi saber que no CAPS Casa Verde os pacientes são tratados como gente e são incentivados, por profissionais que fazem tudo com tanto amor que fazem a gente acreditar que o país ainda tem solução.