FRUSTRAÇÃO DE SURDOS PROTETIZADOS PELO NEGADO DIREITO DE OUVIR E SE COMUNICAR.

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Grande parte da população brasileira foi recentemente envolvida em episódio de muitas emoções vivenciadas por crianças, adolescentes e adultos, com histórico de surdez congênita, cujas reações positivas por eles manifestadas após ouvir pela primeira vez, ficou gravada em nossas mentes, mostrando para todos a importância e transformações libertadoras que a tecnologia pode proporcionar aos surdos. Como nem todas as pessoas têm acesso às mídias sociais, a transmissão/divulgação dessas imagens foi exibida pela mídia na programação televisiva em horário nobre, tamanha expectativa gerada em torno de políticas públicas para que surdos de famílias com menores posses financeiras também pudessem ser beneficiados, e foram. Muitos tiveram oportunidade de perceber abertos novos horizontes em suas vidas, passando a ouvir e participar do mundo dos ouvintes, da maioria.

Ocorre que, por desorganização, falta de planejamento, avaliação, indefinição e alocação de recursos para financiamento dos serviços de manutenção dos equipamentos, o que se almejava conquista advinda dos implantes cocleares, da tecnologia assistiva em aparelhos auditivos, se tornou pesadelo para surdos e seus familiares. Imagens de crianças em êxtase ante ao prazer de reconhecer sons das vozes de seus pais, irmãos, parentes, no convívio familiar, agora retornam aos meios de comunicação e mídias sociais com ares de frustração, desaponto, impotência, diante da ameaça de voltar ao silêncio imposto pelo descaso das nossas autoridades. As mesmas crianças surdas que não conseguem acompanhar as atividades de ensino ministradas em suas classes regulares, tanto menos podem contar com intérpretes de Libras para lhes auxiliar a compreender o que seus professores ensinam para os demais alunos ouvintes, embora exista legislação que lhes garantam tais prerrogativas.

É imperativo esclarecer que pessoas com surdez congênita não falam por falta de referência acústica, auditiva, estímulo sonoro, por isso, maioria torna-se muda. Nesse sentido, a protetização auditiva, quando satisfatória, proporciona maiores oportunidades para deficientes auditivos  nos programas de reabilitação, através da adoção de procedimentos terapêuticos focados em ganhos  gradativos de verbalização, oralização. Coordenados pelas equipes de reabilitação, tendo no profissional de fonoaudiologia sua âncora, inicialmente, esses exercícios são focados na utilização dos próprios recursos fisiológicos da musculatura esofagiana, emitindo som grave e característico. Com passar do tempo, adquirem mais ritmo, controle, fluidez e habilidade para emitir sons de características nasais, mais agudos, próximos aos emitidos pelos ouvintes.

Impossível não se sensibilizar diante de surdos protetizados que iniciaram aprendizado da fala, mas agora se apresentam vulneráveis, fragilizados e decepcionados com a ameaça de não mais conseguirem avançar no aprendizado de ouvir, falar e se comunicar com pessoas sem deficiência auditiva. Testemunhamos a revolta dos pais e familiares que buscam solução sem menor perspectiva de sucesso, pois o custo de manutenção dos aparelhos é incompatível com seus orçamentos domésticos. Descrente na capacidade de solução tomada pelas lideranças políticas brasileiras, nossa sociedade amarga mais esse desserviço a quem não pode ser abatido pela desesperança causada pela incompetência dos gestores públicos que atuam na estrutura paquidérmica da União. Aliás, o ineficiente modelo de gestão pública adotado pela União está disseminado nas demais esferas públicas, não sendo difícil flagrar apadrinhados desqualificados atuando em áreas estratégicas, nas insufladas estruturas dos governos municipais e estaduais. Um bando de jabutis estrategicamente colocados em cima de muros, estáticos, obnubilados, sem menor noção do que fazer para atender as demandas da população afim as suas pastas.

O recorrente discurso de falta de recursos nos cofres da União não mais nos convence, até porque o ralo do esbanjamento continua drenando a favor dos mesmos de sempre. Esses, apenas preocupados em abocanhar parte do orçamento para fazer média em seus currais eleitorais. Se questionados sobre as demandas da comunidade surda protetizada, por certo, serão pegos de surpresa, como se as desconhecessem. Esse é o Brasil que nos envergonha.   

Wiliam Machado