Biodança no SUS

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Entenda como essa prática integrativa atua na promoção da saúde das pessoas

Incluída na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) do Ministério da Saúde, em 2017, a biodança tem mostrado ser uma excelente aliada na promoção da saúde humana. Ela atua na diminuição de crises de transtornos mentais e controle de doenças a exemplo de diabetes e hipertensão arterial, na prevenção de diversas patologias e na melhoria da qualidade de vida, uma vez que potencializa os aspectos ainda saudáveis das pessoas que a praticam.

Definida como um sistema de aceleração de processos integrativos a nível celular, metabólico, neuroendócrino, imunológico e existencial, a biodança – dança da vida – faz uso de música, carícias, comunicação e movimentos corporais que possibilitam a conexão com o corpo. No início da vivência, ou seja, da experiência formatada sempre em grupo e facilitada por um profissional capacitado, os participantes são estimulados a falar sobre as sensações sentidas na semana anterior.

A psicóloga especialista em Saúde Coletiva, facilitadora de biodança e terapia comunitária Luciana Castro considera essa prática um processo de grupo com efeitos terapêuticos e enfatiza serem inúmeros os seus benefícios, entre os quais: “aumento da energia vital e disposição para a ação; resistência ao estresse; estímulo ao processo de autoconhecimento; melhoria da autoestima; capacidade de substituir sintomas depressivos por novas motivações para a vida; melhoria da capacidade de comunicação e estabelecimento de vínculos afetivos mais saudáveis; regulação do sono e da pressão arterial; além do impulso à criatividade e aumento da resposta imunológica”. A facilitadora ressalta, no entanto, que para sentir os efeitos de forma mais ampliada é necessária a frequência regular de, pelo menos, um ano.

A biodança age em cinco áreas já existentes no ser humano, chamadas também de potenciais de vida: vitalidade, sexualidade, afetividade, criatividade e transcendência. Ela foi criada pelo psicólogo e antropólogo chileno Rolando Toro, na década 1960, quando o mesmo trabalhava em um hospital psiquiátrico público do Chile.

De acordo com Luciana, que tem uma trajetória na área da ação social, em comunidades do Recife, o criador da biodança considerava importante a ampliação do acesso aos menos favorecidos, não apenas em termos financeiros, mas no sentido afetivo. “Toro ressaltava a relevância da humanidade, da generosidade, do resgate da amorosidade, da compaixão e da solidariedade em detrimento desse mundo que estimula o conflito, a guerra e a falta de cuidado com a natureza”, acrescentou.

A partir da disseminação dessas práticas, o acesso tem sido possível às pessoas das mais diversas classes econômicas. Em Recife, por exemplo, é possível participar de grupos de biodança pelo SUS no Engenho do Meio, no Serviço Integrado de Saúde (SIS), e nos bairros do Cordeiro e Alto de Santa Terezinha, no Compaz.

A usuária do SIS, Adriana Souto, conta que conheceu a biodança após ser diagnosticada com a síndrome fibromialgia, a qual ocasionava dores fortes por todo o seu corpo. “Eu recorri a medicina convencional e o tratamento era tomar ansiolítico e antidepressivo. Então, eu comecei a procurar outras atividades que, pelo menos, aliviassem as dores. A princípio, eu iniciei meu processo em outras práticas do SIS e passei a observar que o pessoal que saía de biodança estava muito feliz e sorridente. Logo, resolvi participar também. Após cada vivência, eu estava sem dor, com vontade de viver, alegre e, progressivamente, fui sentindo melhoras consideráveis, não apenas físicas, mas no meu jeito de conduzir a vida. Além de mim, meu pai tinha uma depressão profunda e crônica, há anos, e eu o convidei para fazer a biodança. Ele aceitou o convite, vem fazendo e a resposta tem sido rápida e, continuamente, está cada vez melhor”. Adriana relata que está fazendo a formação de facilitadores dessa prática.

No entanto, apesar dos vários benefícios citados, há ainda um longo caminho a ser percorrido. É preciso sensibilizar mais gestores para que a oferta seja maior e para que haja um reconhecimento e valorização dos profissionais que atuam nessa área, pois apesar dessa prática ter sido incluída na PNPIC, estados e municípios decidem as normativas sobre como será desenhada a política local. Castro acredita que agora, com a implementação da biodança no SUS, é possível que sejam alcançados alguns avanços positivos. Ela argumenta que há uma grande aceitação e interesse por parte das pessoas e falta, em alguns espaços, infraestrutura ao citar o exemplo do SIS. “São dois grupos no SIS, o da quarta e o da sexta, com aproximadamente 50 e 25 pessoas, respectivamente. No Compaz não é diferente, eu estou com um grupo de 35 pessoas; e no Compaz Alto de Santa Teresinha, uma média de 15 a 20 pessoas”.

Luciana Castro enfatizou que, não apenas é importante sensibilizar gestores e governantes, bem como, os próprios profissionais da área da saúde. Ela ressalta que práticas como as implementadas pelo SUS devem ser facilitadas por profissionais de saúde: psicólogo, biomédico, fisioterapeuta, educador físico, médico, entre outros. Esses profissionais, segundo ela, precisam estar mais sensíveis à política, pois o atual modelo médico não resolve, de forma integrativa, os problemas físicos e emocionais das pessoas. “A gente precisa continuar sensibilizando para dar continuidade, ampliar e fortalecer esse trabalho, para que mais pessoas tenham acesso e possam se corresponsabilizar também, porque existe uma relação de dependência, uma relação de poder. A fala do médico é considerada a única certa. Sendo que a pessoa é corresponsável também pela própria saúde, pela prevenção e pela promoção da própria saúde. Essa é uma grande ideia que a gente estabelece dentro da Política de Práticas Integrativas, dando autonomia para a pessoa se cuidar e se responsabilizar pela própria saúde”.

A biodança entre outras práticas podem ser encontradas de maneira gratuita e integrada em diversos municípios brasileiros, pois são frutos da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares implantada pelo governo federal em 2006 e ampliada em 2017 e 2018. Ao todo, são 29 recursos terapêuticos implementados pelo Governo Federal.

As PICs foram reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde e, em paralelo, uma nova cultura de cuidados para com a saúde tem surgido no Brasil. “A OMS convida a gente a agir de maneira preventiva e trabalhar em prol de práticas que possam atuar nos determinantes sociais da saúde. Além disso, estimula o incentivo a atividades associativas para que as pessoas diminuam o isolamento e promovam a capacidade de enfrentar os problemas do dia a dia, bem como, estabelecer boas relações sociais, boas amizades e rede de apoio solidários. Por fim, nos encoraja a apoiar ações que favoreçam o sentimento de pertencimento. Nesse sentido, a biodança atua de forma direta, quanto mais participação e pertencimento, mais valorização de si e das relações afetivas; e tudo isso promove saúde, diminui doenças e crises”, finalizou Luciana Castro.