Oficina dos Medos e dos Sonhos

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The Garden of Emoji Delights”- Carla Gannis

 

 

Oficina dos medos e dos sonhos – 09/07/2017 – CECCO MOÓCA

Quais são os nossos medos hoje?

De que forma eles nos impedem de seguir com saúde os caminhos da vida?

E os sonhos, o que podem os sonhos?

De que forma eles poderiam funcionar como antídoto contra o medo?

Como a idéia de encontro pode potencializar tudo isso?

 

Em tempos de reviravoltas existenciais coletivas, que modos de relações tomam o protagonismo das cenas vividas, tornando-as quase insuportáveis a ponto de terem como efeito a produção de sintomas? Aos medos atávicos somam-se outros e uma infinidade de imposturas e modos de lidar com eles se montam para tentar lidar com a realidade à nossa volta.

Uma dúvida dentre tantas outras surge: teriam as pessoas em situação de maior vulnerabilidade a possibilidade de enfrentar estas realidades ou, pelo contrário, estariam melhor instrumentalizadas para esta batalha, dada a resiliência que algumas constróem a duras penas nos encontros?

Enfim, dúvidas, questões, perguntas, afecções, sentidos pedem passagem e produzem a invenção de dispositivos na clínica.

A idéia de uma oficina que trabalhe medos e sonhos surgiu a partir de encontros vários e foi idealizada por David Calderoni, psicanalista responsável pelo curso de Especialização em Psicopatologia e Saúde Pública da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa.

O dispositivo consiste em colocar em relação, em conexão aquilo que está isolado, encapsulado e, portanto, produtor de sofrimento solitário. Inicia-se com a possibilidade de explicitar os medos, concretos ou não, de cada participante e a partir disso abrir um campo de comum entre todos os participantes de cada oficina e ampliar estas percepções por intermédio de músicas que nos vêm à cabeça. Depois da entrada desta forma sensível e mobilizadora, a atmosfera se enriquece de um modo incrível e os sonhos comparecem em sua beleza e força.

Numa das oficinas da qual participei, com moradores da rua, estes se colocaram de forma muito sincera e espontânea, sentindo-se portanto acolhidos na escuta coletiva. Houve depoimentos e falas bastante tocantes, como por exemplo aquelas sobre o desemprego num momento crucial da vida de nosso país, mas também levantou-se as possibilidades de enfrentamento dos medos pela união com os outros. Muito se produziu neste encontro e sua continuidade foi garantida pela reverberação afetiva.

Esta oficina em particular nos lembra Spinoza:

Pois bem, o grande segredo do regime monárquico e seu máximo interesse consistem em manter enganados os homens e em disfarçar, sob o grandiloqüente nome de religião, o medo com que se quer controlá-los, para que lutem pela sua escravidão como se fosse pela sua salvação, e não considerem uma ignomínia, senão o máximo honor, dar seu sangue e sua alma para o orgulho de um único homem (Tratado Teológico Político – Spinoza , p. 64-65).