É preciso cuidar do cuidador

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José Maria Pontes*

 

O Conselho Federal de Medicina realizou um estudo, há dois anos, sobre a qualidade de vida e as doenças que mais atingem os profissionais da Medicina. Outros estudos já foram feitos e ultimamente se tem observado que algumas doenças têm suas incidências aumentadas entre os médicos e quase todas relacionadas com a vida estressante da grande maioria desses profissionais.

O nível de estresse se inicia no período do vestibular, em que a elevada concorrência para Medicina obriga os jovens a dedicarem tempo integral aos estudos. Durante os seis anos de graduação, os dois turnos são ocupados com aulas teóricas e práticas, e os períodos noturno e de fim de semana são ocupados com estágios
(plantões) e estudos, o que geralmente exclui esses estudantes de outras atividades sociais, o que causa grande número de casamentos dentro da profissão. Ao término da graduação temos prova para Residência Médica (especialização), o que leva a um
outro período de competição. São mais dois a cinco anos de aprimoramento profissional antes de entrar no mercado de trabalho. Ao término da Residência Médica, após oito a doze anos de estudos entre graduação e pós-graduação, se inicia a busca pelo sucesso profissional, quando se almeja o primeiro emprego.
 

Concurso é coisa rara, e o trabalho precarizado é a regra. O corre-corre de cidade a cidade ou de plantão a plantão é responsável por um grande desgaste físico e psicológico, inclusive por mortes de médicos em acidentes nas estradas. O trabalho desses profissionais nas UTIs ou nas emergências hospitalares, quando se
depara com a morte ou com o sofrimento intenso do ser humano, determina uma responsabilidade e tensão sem comparação a qualquer outra profissão.

É difícil não se envolver emocionalmente com o sofrimento de seus doentes, e muitas vezes são, injustamente, responsabilizados pelos gestores pela difícil situação da saúde pública, mas mesmo assim
continuam firmes, sendo fiéis ao juramento hipocrático e cuidando com amor do bem maior que Deus nos deixou: a vida.

Hoje, a realidade de mercado para o médico difere muito de 20 há 30 anos, quando boa parte vivia muito bem como profissional liberal. A sociedade tem que entender que o médico não é Deus e sim um ser humano que tem as mesmas necessidades e desejos dos outros.O médico também é passível de erro, e o compromisso
com a profissão que abraça o faz viver no limbo entre a vida e a morte. O médico chora, adoece, sofre e morre como qualquer outro mortal. A sua qualidade de vida está comprometida devido às precárias condições de trabalho, jornadas extenuantes, salários aviltantes, múltiplos empregos e ausência da família, sem muitas vezes ter os direitos trabalhistas que a lei garante para os outros trabalhadores. Hoje o médico está morrendo mais cedo e muitas vezes deixando a família em situação difícil.

Infarto do miocárdio, hipertensão arterial, AVC, depressão, ansiedade, suicídio, alcoolismo e outras dependências químicas, além de acidentes automobilísticos, entre outras, são responsáveis pelo encurtamento da vida desses profissionais e da queda de sua qualidade, e deve servir de reflexão para a sociedade e para o poder público, que é o grande empregador. Ser médico é uma missão divina.
 

*Presidente do Sindicato dos Médicos do Estado do Ceará [email protected].com

 

(Fonte: O Povo | Fortaleza-CE)