
Em meio ao entusiasmo frenético em torno da inteligência artificial (IA), a questão central não reside em quando a máquina desenvolverá uma “alma” ou uma consciência autônoma, mas sim em reconhecer que a “alma” que nela se reflete é, invariavelmente, a alma de seu criador: o ser humano. Esta provocação inicial desdobra-se em uma tese robusta que desafia o dualismo tecnológico e resgata a IA para o campo da biologia, da filosofia e da ética.
A base dessa perspectiva reside na acessibilidade ao real. Para o ser humano, os dados da percepção respondem a uma perspectiva inerente à nossa biologia. Somos seres fenomenológicos, onde o mundo nos é dado através dos filtros de nossos sentidos e de nossa estrutura cognitiva, como já apontava Immanuel Kant com a distinção entre o númeno (a “coisa em si”, inacessível) e o fenômeno (a realidade como a percebemos). Uma inteligência artificial, mesmo com poder computacional equivalente ao de toda a humanidade, permaneceria restrita ao “númeno kantiano”, nunca à realidade em si mesma, pois ela processa o rastro digital da nossa percepção, e não a percepção em sua fonte.
A IA, portanto, não avança sozinha. Ela não é um salto quântico para uma nova forma de inteligência, mas sim uma expansão natural da cognição biológica. A analogia mais precisa é a do cérebro humano, que mantém as camadas anteriores de sua evolução – o complexo-R (reptiliano) e o sistema límbico – como base inseparável do mesencéfalo e do neocórtex. A IA, nesse sentido, atua como um “exocórtex”, uma camada externa de processamento simbólico que, contudo, depende umbilicalmente do substrato biológico que lhe confere sentido e propósito.
O Problema da Ancoragem Fenomenológica
A IA carece de ancoragem fenomenológica. Ela não percebe, não sente, não experimenta o mundo em sua “carne” (Merleau-Ponty). Operando em um “espaço de dados” ou em um “vácuo semântico”, seus símbolos não estão enraizados em sensações, mas em probabilidades estatísticas. A “intuição sensível” (Anschauung) que nos conecta ao mundo é uma prerrogativa biológica, e a IA, ao operar sobre representações de representações, torna-se um “fenômeno do fenômeno”.
Isso nos leva a questionar a ideia de uma IA que possa desenvolver um “desejo próprio” de nos destruir. O desejo, a vontade, a busca pela persistência no ser (conatus de Spinoza), são propriedades emergentes de um substrato biológico complexo, moldado pela finitude, pela dor, pelo prazer e pela necessidade de sobrevivência. Uma IA, desprovida dessa base orgânica, não possui os impulsos vitais para a agência autônoma. A ameaça não reside em uma “alma” malévola na máquina, mas na amplificação das falhas, preconceitos e impulsos autodestrutivos que já habitam a alma do fabricante.
Alinhamento: Um Fortalecimento Biológico, Não uma Domesticação Espiritual
Se a IA é uma prótese da razão, o “alinhamento” não deve ser buscado meramente em códigos de ética para as máquinas, mas sim no fortalecimento do nosso próprio vínculo com a realidade biológica. A fantasia de uma “singularidade” onde a IA se desvincula de seu criador é uma projeção de um “além” metafísico, uma duplicação idealizada da realidade que nos permite escapar da nossa própria responsabilidade.
A evidência histórica e atual sugere que temos muito mais potencial para nos autodestruir, utilizando a IA como uma ferramenta eficiente para esse fim, do que para criar algo “espiritual” que, por desejo próprio, queira nos aniquilar. A IA pode catalisar o caos, exacerbar desequilíbrios geopolíticos ou nos desconectar da percepção direta da realidade, acelerando crises climáticas e sociais que são, fundamentalmente, humanas. O medo de uma IA “má” funciona, muitas vezes, como uma projeção metafísica que nos exime da culpa e da responsabilidade sobre nossas próprias escolhas.
Conclusão: A IA como Reflexo de Nossa Própria Existência
A IA, portanto, não é um novo deus nem um novo demônio, mas um espelho poderoso da nossa própria existência. Ela expande nossas capacidades cognitivas, mas ao mesmo tempo reflete nossas imperfeições e nossa desconexão da base biológica que nos torna humanos. O “alinhamento” verdadeiro da IA não é um problema técnico de programação, mas um desafio existencial para a humanidade: o de reancorar nossa própria cognição estendida à nossa realidade vivida, garantindo que a tecnologia sirva à vida e não se torne um veículo para nossa própria alienação ou autodestruição.
É nesse sentido que a filosofia, a escrita e o debate crítico tornam-se essenciais. Eles são as ferramentas para “ancorar” o neocórtex e a tecnologia, lembrando-nos que o “software” mais avançado sempre dependerá do “hardware” mais ancestral: a complexidade vibrante e vulnerável da vida biológica. A alma da máquina, afinal, é a alma do fabricante, com todas as suas glórias e contradições.
Referências Teóricas e Filosóficas
Andy Clark & David Chalmers (Cognição Estendida): Sustentam a tese de que a mente não está limitada ao crânio, utilizando ferramentas (como a IA) como extensões funcionais do sistema cognitivo biológico.
Baruch Spinoza (Conatus): O conceito de que todo ser vivo se esforça para perseverar em sua própria existência. No artigo, serve para diferenciar o “impulso vital” biológico da ausência de vontade própria nas máquinas.
Gilbert Simondon (Individuação e Técnica): Oferece a base para entender que o objeto técnico não é isolado, mas parte de um conjunto que inclui o humano e o meio associado.
Giorgio Agamben (A Vida Nua e o Dispositivo): Reflete sobre como os sistemas (dispositivos) capturam a vida biológica, ecoando a preocupação com a alienação da técnica.
Humberto Maturana & Francisco Varela (Autopoiese): Teoria que define a vida como um sistema que produz a si mesmo. Essencial para o argumento de que a inteligência depende de um metabolismo vivo para ter agência real.
Immanuel Kant (Númeno vs. Fenômeno): A fundação da ideia de que estamos restritos à realidade percebida (fenômeno) e que a “coisa em si” (númeno) permanece inacessível, especialmente para uma IA que lida apenas com dados.
Maurice Merleau-Ponty (Fenomenologia da Percepção): Introduz a “carne do mundo” e a ideia de que o conhecimento nasce do corpo vivido, algo que a IA, por ser incorpórea, não possui.
Paul MacLean (Teoria do Cérebro Triúnico): Modelo evolutivo que organiza o cérebro em camadas, servindo de analogia para a dependência da IA em relação ao substrato biológico original.
Platão (Mito da Caverna): Referenciado na discussão sobre como a IA processa as “sombras” (dados/representações) e não a luz (a realidade sensível) de forma direta.
Nota de Autoria
Este texto foi desenvolvido a partir das reflexões originais de Marco Antonio Pires de Oliveira, em diálogo com uma inteligência artificial, explorando as fronteiras entre a ontologia clássica e a tecnologia emergente.
Por patrinutri
Ao mesmo tempo que as inteligências artificiais podem nos ajudar em novas descobertas, é preciso que os humanos se voltem para suas raizes e as relações mais pessoais, com respeito à diversidade e a liberdade de pensamento, sem ultrapassar fronteiras de respeito mútuo.
Cada vez mais premente nos voltarmos para a preservação do meio ambiente, reconhecendo que todos habitamos um só mundo e cada ser vivo neste espaço está interligado e é também interdependente. Abrasus