Aprendizados no CAPS Dr. Rostan Silvestre- Relato de experiência e o que aprendi com o estágio
Meu nome é Giovanna Vitória Barucci Vieira, sou estudante do Internato em Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e, neste relato, compartilho os aprendizados e as reflexões construídos durante meu estágio no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Dr. Rostan Silvestre, em Maceió-AL. Essa experiência contribuiu para ampliar minha compreensão sobre a atenção à saúde mental, permitindo-me conhecer diferentes dimensões do cuidado e refletir sobre a importância de uma assistência humanizada.

Desde o primeiro contato com o serviço, fui muito bem recebida pelos profissionais, que se mostraram disponíveis para apresentar o espaço, explicar seu funcionamento e compartilhar suas experiências. Aos poucos, pude conhecer melhor a rotina do CAPS e perceber que o cuidado em saúde mental acontece de diversas maneiras, muitas delas para além dos atendimentos clínicos tradicionalmente associados à prática médica.
Entre os encontros que marcaram minha experiência, destaco o contato com Seu Biu, que inicialmente conheceu o CAPS como usuário e, com o tempo, envolveu-se tanto com o projeto que passou a integrar a equipe, organizando novas atividades e oficinas. Sua trajetória despertou minha atenção por mostrar como as relações construídas no serviço podem abrir espaço para novas possibilidades de participação, pertencimento e contribuição. Ao nos apresentar o local, ele compartilhou também seus conhecimentos sobre plantio (apresentando uma hortinha com diversas espécies) e artesanato, demonstrando diferentes formas de reaproveitar materiais, como as cascas de coco, na produção de objetos artesanais.
Achei especialmente interessante conhecer essas atividades, que transformam materiais que poderiam ser descartados em produções criativas e cheias de significado. Além do aspecto artístico e ambiental, elas representam oportunidades de aprendizado, troca de conhecimentos e valorização de habilidades. A trajetória de Seu Biu também me levou a refletir sobre a importância de não reduzir uma pessoa à condição de usuária de um serviço de saúde mental. Essa perspectiva é fundamental para romper com o estigma e com a visão limitada de que pessoas em sofrimento psíquico devem ocupar apenas uma posição passiva no próprio cuidado.
Durante o estágio, também tive a oportunidade de conhecer a rotina da farmácia do CAPS e acompanhar as explicações de uma profissional sobre os processos envolvidos na disponibilização dos medicamentos aos usuários. Pude compreender melhor a organização desse fluxo e acompanhar parte da rotina de retirada dos medicamentos após as consultas. Essa experiência ampliou minha percepção sobre a assistência farmacêutica no contexto da atenção psicossocial, mostrando que o acesso ao tratamento depende não apenas da prescrição médica, mas também de uma organização que permita aos usuários obter os medicamentos de que necessitam.
Como estudante de Medicina, considero importante compreender essas etapas, pois elas fazem parte da continuidade do cuidado e influenciam diretamente a possibilidade de adesão ao tratamento. A experiência também me ajudou a perceber que o funcionamento de um serviço de saúde mental possui particularidades que precisam ser compreendidas dentro de sua proposta assistencial, considerando as necessidades dos usuários e a organização da rede de atenção.

Outro momento significativo foi a participação em uma oficina de costura, na qual pude acompanhar as atividades desenvolvidas em grupo. Assim como outras práticas manuais realizadas no CAPS, a costura proporcionava um espaço de convivência, aprendizado e compartilhamento de experiências. Mais do que ensinar uma técnica, a oficina favorecia a interação entre os participantes e permitia que cada pessoa se envolvesse à sua maneira, respeitando suas habilidades e seu ritmo.
Essa vivência me fez refletir sobre a importância das atividades coletivas no cuidado em saúde mental. Muitas vezes, quando pensamos na assistência médica, nossa atenção se volta principalmente aos sintomas, aos diagnósticos e às intervenções terapêuticas. Entretanto, experiências como essa demonstram que o cuidado também se constrói nos encontros cotidianos, nas conversas, na aprendizagem compartilhada e nas oportunidades de desenvolver atividades significativas. A oficina de costura representou, para mim, um exemplo de como espaços de convivência podem contribuir para o fortalecimento de vínculos e para a valorização das potencialidades de cada indivíduo. O mesmo foi observado em outra atividade que participei, envolvendo a confecção de sabonetes.
Também acompanhei uma atividade de bingo organizada por profissionais da enfermagem. Foi gratificante observar o envolvimento dos usuários, que demonstraram alegria ao participar da brincadeira e receber os brindes. O que mais me chamou a atenção, porém, foi o esforço da equipe para incentivar a participação de todos, estimular a interação e criar oportunidades para que as pessoas conversassem e convivessem entre si. A atividade não se limitava ao jogo em si: havia uma preocupação em acolher os participantes, despertar seu interesse e tornar aquele momento agradável e coletivo, além de ter um aspecto educativo sobre práticas para melhorar a saúde mental.
Essa experiência me fez perceber que atitudes aparentemente simples podem adquirir grande importância quando inseridas em um cuidado atento às necessidades humanas. Criar oportunidades de lazer, convivência e participação também é uma forma de cuidado, especialmente quando se busca construir um ambiente no qual as pessoas se sintam acolhidas e reconhecidas. A alegria compartilhada durante o bingo reforçou minha compreensão de que a atenção à saúde mental não deve se restringir ao controle de sintomas, mas precisa considerar também as relações sociais, os afetos e as experiências que dão sentido ao cotidiano.
Em outra ocasião, participei de uma atividade conduzida pelo profissional de Educação Física, que organizou uma roda com exercícios de alongamento e meditação. Foi interessante observar como práticas voltadas ao movimento corporal, à respiração e à atenção ao momento presente podem integrar as estratégias de promoção do bem-estar no CAPS. Essa atividade ampliou minha compreensão sobre a importância de uma abordagem que considere a pessoa de maneira integral, reconhecendo a relação entre corpo, emoções e saúde mental.
Ao conhecer essas diferentes atividades, comecei a compreender de maneira mais concreta a importância do trabalho multiprofissional na atenção psicossocial. Profissionais de diferentes áreas contribuem com conhecimentos e práticas que se complementam, permitindo que o cuidado seja construído a partir de perspectivas diversas. Essa integração é essencial para que as necessidades dos usuários sejam consideradas em sua complexidade, sem que o tratamento seja reduzido exclusivamente à dimensão biológica ou medicamentosa do sofrimento psíquico.
Todas essas experiências também levaram a refletir sobre a luta antimanicomial e sobre a transformação do modelo de assistência em saúde mental. Historicamente, pessoas em sofrimento psíquico foram submetidas a práticas de exclusão, isolamento e afastamento da vida em sociedade. A luta antimanicomial representa justamente a defesa de uma forma de cuidado que reconheça essas pessoas como sujeitos de direitos, capazes de participar das decisões sobre suas vidas e de construir relações, projetos e possibilidades para o futuro.
Nesse sentido, pude perceber como o CAPS concretiza, em seu cotidiano, princípios importantes da Reforma Psiquiátrica brasileira. As oficinas, as atividades coletivas, o incentivo à convivência e a valorização das habilidades dos usuários demonstram que o cuidado pode acontecer em liberdade, no território e por meio de relações que respeitem a individualidade de cada pessoa. Não se trata apenas de substituir um espaço físico por outro, mas de transformar a maneira como compreendemos o sofrimento psíquico e nos relacionamos com aqueles que o vivenciam.
A história de Seu Biu foi especialmente significativa nesse contexto, pois evidencia como as pessoas podem ocupar diferentes lugares ao longo de suas trajetórias e contribuir ativamente para os espaços dos quais participam. Da mesma forma, o empenho dos profissionais em estimular a participação dos usuários nas oficinas e nas atividades coletivas mostrou a importância de construir um cuidado que não seja imposto de maneira vertical, mas que abra espaço para a autonomia, o protagonismo e o reconhecimento das singularidades.
Outro aspecto que me chamou a atenção foi conhecer um pouco da história do serviço e das incertezas relacionadas à possibilidade de mudança de seu espaço físico em razão da venda do prédio. Essa questão me fez pensar sobre a importância de garantir condições adequadas para a continuidade dos serviços comunitários de saúde mental. O CAPS não representa apenas um local onde são realizados atendimentos: ele também constitui um espaço de convivência, construção de vínculos e referência para as pessoas que o frequentam. Por isso, preservar e fortalecer serviços como esse é fundamental para a efetivação de uma política de saúde mental comprometida com o cuidado em liberdade e com os direitos dos usuários.
Ao concluir essa experiência, percebo que os aprendizados obtidos ultrapassaram o conhecimento sobre o funcionamento de um serviço de saúde. O estágio me permitiu ampliar meu olhar sobre as pessoas em sofrimento psíquico e refletir sobre a necessidade de reconhecer cada indivíduo para além de seus diagnósticos, dificuldades ou necessidades de tratamento. Como futura médica, considero essencial desenvolver uma prática que valorize a escuta, o acolhimento, o respeito à autonomia e a compreensão das condições sociais e subjetivas que atravessam o processo de saúde e adoecimento.
Levo comigo, sobretudo, a compreensão de que o cuidado em saúde mental não acontece apenas nos consultórios, nas prescrições ou nos procedimentos. Ele também se constrói nas oficinas, nas atividades compartilhadas, nas oportunidades de expressão e nas relações humanas que possibilitam às pessoas se sentirem parte de uma comunidade. A experiência no CAPS Dr. Rostan Silvestre reforçou a importância de uma formação médica comprometida com a humanização da assistência e com os princípios da luta antimanicomial, entendendo que defender a saúde mental significa também defender a liberdade, a cidadania, a dignidade e o direito de cada pessoa de construir sua própria história.