Entre escuta e cuidado: uma experiência de estágio no Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil

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Meu nome é Ronald Santos da Silva, sou estudante de Medicina da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), e este relato parte das experiências vivenciadas durante meu rodízio de Saúde Mental, período em que tive a oportunidade de estagiar no Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi) Dr. Luiz da Rocha Cerqueira, em Maceió. Por se tratar do meu primeiro contato com um serviço especializado em saúde mental no âmbito da Rede de Atenção Psicossocial, essa experiência representou uma oportunidade importante de aproximar os conhecimentos adquiridos durante a formação médica da realidade cotidiana do cuidado em saúde mental de crianças e adolescentes.

Antes de vivenciar o estágio, minha compreensão sobre os serviços de saúde mental estava, em grande parte, relacionada aos atendimentos médicos, às avaliações diagnósticas e ao tratamento medicamentoso. A experiência no CAPSi, entretanto, ampliou significativamente essa perspectiva. Pude compreender, na prática, que o cuidado em saúde mental não se limita à consulta individual ou à prescrição de medicamentos, mas envolve acolhimento, escuta, vínculo, convivência, atividades terapêuticas, participação familiar e articulação entre diferentes profissionais e serviços.

Ao longo dos dias de estágio, tive contato com diferentes atividades desenvolvidas pela equipe multiprofissional e pude perceber como cada uma delas possui uma finalidade dentro do processo terapêutico. Participei de oficinas voltadas ao uso da memória e ao desenvolvimento da linguagem, experiências que demonstraram como atividades aparentemente simples podem funcionar como importantes instrumentos de estimulação cognitiva, comunicação, interação e fortalecimento da autonomia. Além do aspecto terapêutico, essas oficinas possibilitavam que as crianças participassem de maneira ativa, respeitando suas características individuais e seus diferentes modos de expressão.

Também acompanhei atividades de socialização e momentos destinados ao reconhecimento e à expressão das emoções. Por meio de filmes, jogos, conversas e outras práticas lúdicas, temas que poderiam ser difíceis de abordar diretamente com crianças e adolescentes eram trabalhados de maneira mais acessível. Essa vivência me fez perceber a importância de adaptar a linguagem e as estratégias de cuidado à faixa etária e às particularidades de cada usuário. No público infantojuvenil, brincar, conversar, criar e interagir podem constituir importantes formas de cuidado e comunicação.

Outro momento marcante foi minha participação no processo de admissão de novos usuários. Pude acompanhar uma etapa que funcionava, essencialmente, como uma triagem inicial, buscando compreender a demanda apresentada e avaliar se a criança ou o adolescente apresentava perfil para acompanhamento no CAPSi ou se deveria ser encaminhado para outro ponto da rede de atenção. Essa experiência foi especialmente importante para compreender que o cuidado em saúde mental não acontece de maneira isolada dentro de um único serviço. O CAPSi faz parte de uma rede e precisa reconhecer os limites de sua atuação, articulando-se com outros equipamentos quando necessário.

Essa perspectiva está relacionada à própria lógica da atenção psicossocial, que propõe um cuidado territorial e articulado entre diferentes pontos da rede, buscando construir respostas adequadas às necessidades de cada usuário. O Ministério da Saúde destaca que os CAPS atuam de forma multiprofissional e interdisciplinar, articulando cuidado clínico, apoio psicossocial, atividades terapêuticas e construção de projetos terapêuticos singulares.

Também tive a oportunidade de participar de atividades conduzidas pelo profissional de Educação Física. Essa experiência foi particularmente significativa por demonstrar de maneira concreta a relação existente entre saúde física, saúde mental, autoestima e socialização. As atividades não tinham apenas o objetivo de promover a prática corporal, mas também contribuíam para que as crianças se percebessem capazes, participassem coletivamente e desenvolvessem maior confiança em si mesmas. A atividade física, nesse contexto, assumia uma dimensão que ultrapassava o condicionamento físico, tornando-se também uma ferramenta de cuidado emocional e de fortalecimento de vínculos.

A convivência com a equipe multiprofissional também foi fundamental para minha formação. Observar diferentes profissionais atuando sobre uma mesma realidade permitiu compreender que nenhuma categoria, isoladamente, consegue contemplar toda a complexidade envolvida no cuidado em saúde mental infantojuvenil. Psicologia, medicina, enfermagem, terapia ocupacional, serviço social, educação física e outras áreas podem contribuir a partir de diferentes perspectivas, construindo uma compreensão mais ampla sobre o usuário e seu contexto.

Nesse sentido, a experiência no CAPSi aproximou-me do conceito de clínica ampliada. Compreendi que olhar clinicamente para uma criança ou adolescente significa considerar não apenas seus sintomas, diagnósticos ou comportamentos, mas também sua história, sua família, seus vínculos, sua escola, suas condições sociais e o território no qual está inserido. As diretrizes brasileiras para a saúde mental infantojuvenil reforçam justamente a necessidade de um cuidado integral, territorial e intersetorial, articulado com espaços como família, escola, assistência social, esporte, cultura e outros equipamentos da comunidade.

Outro aprendizado importante esteve relacionado ao papel da família. Durante o estágio, pude perceber que, quando se trata de crianças e adolescentes, o processo terapêutico não pode ser pensado exclusivamente a partir do usuário. A participação dos responsáveis pode ser determinante para a continuidade do cuidado, para a compreensão das necessidades da criança e para a implementação das orientações no cotidiano. Ao mesmo tempo, essa participação pode ser dificultada por questões sociais, econômicas, profissionais e familiares. Dessa forma, cuidar da criança também significa compreender e acolher as dificuldades enfrentadas por sua família.

Essa realidade reforçou em mim a importância do acolhimento e da escuta qualificada. Mais do que identificar uma doença ou definir uma conduta, o profissional precisa estar disponível para compreender aquilo que o usuário consegue expressar e também aquilo que aparece por meio de seu comportamento, de suas relações e de suas formas particulares de comunicação. No CAPSi, pude perceber que o vínculo não é apenas um complemento do tratamento: ele constitui uma das bases para que o cuidado aconteça.

Também pude observar como o protagonismo dos usuários pode ser estimulado nas atividades cotidianas. Permitir que crianças e adolescentes participem, expressem suas opiniões, façam escolhas e desenvolvam habilidades contribui para a construção da autonomia. Essa perspectiva rompe com uma visão mais tradicional na qual o paciente ocupa uma posição predominantemente passiva diante do profissional de saúde.

Ao longo do estágio, portanto, fui compreendendo que humanizar o cuidado não significa apenas tratar o usuário de maneira cordial. Significa reconhecê-lo como sujeito, respeitar sua singularidade, considerar suas necessidades e construir possibilidades de cuidado junto com ele. As atividades coletivas, as oficinas, os momentos de socialização, a prática corporal, o acolhimento e a própria organização do serviço demonstraram diferentes formas pelas quais esse princípio pode ser colocado em prática.

Ao finalizar meu período no CAPSi, percebo que essa experiência modificou minha maneira de compreender a saúde mental e, consequentemente, minha própria formação médica. Meu primeiro contato com um CAPS mostrou-me que o cuidado em saúde mental pode acontecer por meio de diferentes linguagens e espaços e que, muitas vezes, uma atividade lúdica, uma conversa, uma oficina, uma brincadeira ou uma atividade física podem ter tanta importância terapêutica quanto uma intervenção tradicional.

Saio desse estágio levando não apenas novos conhecimentos sobre saúde mental infantojuvenil, mas também uma compreensão mais ampla sobre o papel do médico dentro de uma equipe e de uma rede de cuidado. Aprendi que reconhecer os limites da atuação individual, valorizar outros saberes profissionais, compreender o contexto social e familiar e construir vínculos são elementos fundamentais para uma prática verdadeiramente integral.

Mais do que um campo de aprendizado técnico, o CAPSi foi para mim um espaço de aprendizado humano. A experiência mostrou que cuidar em saúde mental significa olhar para além do diagnóstico e reconhecer a criança ou o adolescente em sua integralidade, com suas potencialidades, dificuldades, relações, desejos e possibilidades. Nesse sentido, o estágio representou não apenas uma aproximação com a saúde mental, mas também uma oportunidade de refletir sobre que tipo de médico pretendo ser: um profissional capaz de escutar, compreender, trabalhar em equipe e reconhecer que, em muitas situações, cuidar significa construir caminhos junto com o outro.