O cuidado que atravessa o medo: uma experiência de humanização no tto da sífilis em situação de rua

6 votos

O presente relato emerge da vivência compartilhada entre o Consultório na Rua da Brasilândia, a UBS Vila Palmeiras e a UVIS Freguesia do Ó / Brasilândia, no acompanhamento de um casal em situação de rua durante o pré-natal e o tratamento de sífilis. Trata-se de uma experiência que evidencia como o cuidado em saúde se constrói para além da técnica, exigindo vínculo, escuta qualificada e articulação efetiva em rede.

A gestante realizou o tratamento de forma imediata após o diagnóstico, com adesão plena ao cuidado e seguimento contínuo pela equipe. O principal desafio do caso concentrou-se no parceiro, cuja adesão era fundamental para evitar reinfecção da gestante e o risco de sífilis congênita.

Ambos viviam em situação de rua, em contexto de extrema vulnerabilidade social, marcado por instabilidade de vínculos e histórico de violências recorrentes. Nesse cenário, o cuidado se configurava como processo vivo, atravessado por avanços e rupturas, exigindo persistência, sensibilidade e construção contínua de confiança.

O parceiro apresentava fobia severa de agulhas, associada a vivência de violência durante o encarceramento, o que tornava qualquer procedimento injetável um forte gatilho de medo e recusa. Inicialmente, foi tentada alternativa terapêutica com doxiciclina, porém a adesão mostrou-se incompleta diante das dificuldades concretas da vida em situação de rua e da complexidade do esquema terapêutico.

Diante do risco persistente de reinfecção materna e, consequentemente, de sífilis congênita, o caso passou a ser acompanhado de forma intensificada em rede.

Foi nesse contexto que o trabalho articulado entre o Consultório na Rua da Brasilândia e a UBS Vila Palmeiras se tornou decisivo. Em uma abordagem única e cuidadosamente construída, foi utilizada a tecnologia educativa “Papai, mamãe e bebê sem sífilis: Caderno de orientações sobre o tratamento de sífilis e prevenção de sífilis congênita”, um material didático, colorido, com linguagem acessível, fonte ampliada e seleção de informações essenciais. Seu uso se dá de forma mediada pelo profissional de saúde, que realiza a leitura junto ao usuário, traduz o conteúdo em linguagem cotidiana e acolhe dúvidas no próprio encontro, transformando o material em dispositivo de diálogo, vínculo e cuidado compartilhado.

A partir desse encontro, o usuário aceitou iniciar o tratamento injetável.

Cada aplicação passou a ser planejada como experiência de cuidado ampliado, incorporando estratégias de humanização como música ambiente, anestésico tópico e presença contínua e acolhedora da equipe. Progressivamente, observou-se transformação significativa na relação do usuário com o procedimento: o medo cedeu espaço à confiança, e o cuidado passou a ser vivenciado com menor sofrimento e maior segurança emocional.

O tratamento deixou de ser apenas cumprimento de protocolo clínico e passou a ser construção compartilhada de cuidado, sustentada pelo vínculo e pela continuidade assistencial.

Ao final do esquema terapêutico, foi realizada uma pequena celebração no serviço, marcando a conclusão do tratamento. O momento simbolizou não apenas o desfecho clínico exitoso, mas a potência do cuidado humanizado como tecnologia relacional capaz de transformar experiências marcadas por dor em trajetórias de reconstrução e confiança.

A experiência teve forte repercussão na rede da região norte de São Paulo, fortalecendo a integração entre o Consultório na Rua da Brasilândia, a UBS Vila Palmeiras e a UVIS Freguesia do Ó / Brasilândia. O caso passou a ser reconhecido como experiência exitosa não apenas pelo desfecho clínico, mas pela forma como reorganizou práticas de cuidado, reforçando a importância da atuação intersetorial, da escuta qualificada e da construção de estratégias compartilhadas no território.

Conclui-se que a humanização, neste caso, não se apresentou como complemento do cuidado, mas como seu eixo estruturante. Ao reconhecer o sujeito em sua história e sustentar o cuidado mesmo diante do medo e da vulnerabilidade extrema, foi possível não apenas garantir adesão terapêutica, mas também produzir novas possibilidades de relação com o sistema de saúde.

A vida não cabe em um diagnóstico.

Trata-se de uma experiência que reafirma que, na atenção em saúde, especialmente em contextos de rua, o vínculo é tão terapêutico quanto o medicamento — e que a rede, quando se articula de forma viva, é capaz de transformar desfechos clínicos em trajetórias de dignidade.